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Operações como da XP na Nasdaq ganharam foco. Nasdaq

Queda de juros e crise empurram brasileiro para aplicações no exterior

Dados do BC indicam que investimentos em fundos e ações em outros países cresceram até dez vezes mais este ano; economistas veem risco para câmbio e rolagem da dívida pública no País

Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2020 | 05h00

Com a Selic (a taxa básica de juros) em 2,25% ao ano, o menor patamar histórico, e o Brasil atravessando uma forte crise econômica, os investidores se movimentam para encontrar aplicações que ofereçam ganhos reais (acima da inflação), e o caminho escolhido por muitos deles tem sido tentar a sorte no exterior. Dados do Banco Central mostram forte crescimento de aplicação de recursos em fundos e em ações em outros países desde o início do ano.

De janeiro a maio, investidores brasileiros destinaram US$ 3,452 bilhões para fundos no exterior, ante US$ 791 milhões durante o mesmo período de 2019. As aplicações em ações deram um salto ainda maior – somaram até maio US$ 707 milhões, quase dez vezes mais do que há um ano (US$ 74 milhões). Essas transferências são monitoradas pelo BC e incluídas no balanço de pagamentos do País.

“Os próprios brasileiros estão procurando oportunidades no exterior”, disse ogestor e sócio da Leste Global Investiments, Emmanuel Hermann, em evento virtual do BTG Pactual. Segundo ele, as remessas de recursos ao exterior começaram a crescer na mesma medida da queda dos juros nos últimos meses.

Os investimentos no exterior também começaram a ganhar mais visibilidade com o aumento do número de empresas brasileiras abrindo o capital lá fora. No fim do ano passado, a XP, por exemplo, movimentou US$ 2,25 bilhões em seu IPO (sigla em inglês para oferta inicial de ações) na Bolsa americana Nasdaq. Boa parte desse dinheiro foi de brasileiros, via fundos de investimento. Também cresceram as possibilidades para que pessoas físicas, mesmo sem tantos recursos assim, fizessem esse movimento, com o surgimento de mais instrumentos como os Certificados de Operações Estruturadas (COEs), oferecidos por várias instituições financeiras.

Com a Selic a 2,25%, o Brasil entrou no mundo do juro real negativo, o que favorece a busca por esses ativos no exterior. Cálculos do site MoneYou e da Infinity Asset Management indicaram que, com a taxa básica nesse patamar, o juro real brasileiro passou a ser de -0,78% ao ano. Considerando o conjunto das 40 economias mais relevantes do mundo, o País ficou em 14.º lugar no ranking – que tem Taiwan na dianteira.

Efeitos

Para especialistas, a manutenção das atuais taxas de juros tende a acelerar ainda mais esse processo. Mas isso pode também ter um efeito negativo para o País. Uma saída maior de moeda para o exterior pode gerar mais pressão tanto sobre a taxa de câmbio local como sobre a rolagem da dívida pública do governo. 

“O Brasil mudou de regime”, disse o gestor da Canvas Capital, Eduardo Bodra, durante o mesmo evento do BTG, ao falar sobre o diferencial historicamente baixo de juros com o resto do mundo. O reflexo, disse, é o real com o pior desempenho entre as principais moedas. “É o brasileiro que está mandando dinheiro para fora”, disse. 

Como resultado, esse quadro cria uma maior escassez de dólares no mercado doméstico. O fato de o País também não estar atraindo tanto investidores estrangeiros como antes ajuda a pressionar o câmbio. 

Ex-diretor do BC e hoje pesquisador na Universidade de Columbia, em Nova York, Daniel Gleizer afirma que, historicamente, investidores brasileiros sempre costumaram comprar mais ativos domésticos, por conta da dívida indexada, que assegurava rendimento real positivo elevado. Essa tendência difere de outros países da região, como a Argentina, onde houve fuga importante de capital do investidor local.

O sócio da Ibiuna Investimentos Rodrigo Azevedo, chamou a atenção para o risco de a queda da Selic levar a um ambiente de “desancoragem do real”, ou seja, uma situação em que os brasileiros preferem investir em ativos no exterior. A dúvida, disse, é se nesse ambiente os investidores ainda terão interesse por título público indexado à Selic.

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Investir no exterior está mais fácil, mas exige cautela no cálculo do custo-benefício

É possível encontrar fundos com aporte inicial de R$ 1 mil, mas alterações cambiais e valor do spread precisam ser considerados

Luísa Laval, Especial para o Estadão

03 de julho de 2020 | 05h00

Investir fora do País tem se tornado mais fácil e já é mais acessível a investidores iniciantes e para quem ainda não alcançou volume significativo de aplicações. Hoje, é possível encontrar fundos de investimentos com aporte inicial de R$ 1 mil em corretoras. Porém, é preciso estar atento a fatores como alterações cambiais e valor do spread, na hora de calcular o retorno financeiro do negócio.

Além disso, com o juro real próximo de zero no País, aplicadores buscam risco maior no exterior para obter maior lucro.

“Investir no exterior hoje é como comprar um produto de investimento aqui, com a mesma facilidade que você compra outros produtos. Ficou mais fácil ter acesso a coisas muito mais sofisticadas”, diz George Wachsmann, chefe de gestão da corretora de investimentos Vitreo. “Para quem está começando, eu aconselho produtos mais simples, como um fundo com várias classes de ativos.”

Para Roberto Lee, CEO da Avenue, corretora americana voltada para clientes brasileiros, o aumento pela demanda de investimentos no exterior vem do interesse de reduzir os impactos da flutuação do câmbio. “A vida ficou muito dolarizada: o poder de compra diminuiu com o aumento cambial. Cada vez mais, as pessoas precisam se proteger da valorização do dólar, ter ativos internacionais protege contra essa inflação do dólar”, diz.

Entretanto, embora pareçam investimentos atraentes, é necessário ter cautela no cálculo do custo-benefício das negociações. Para o economista da FGV Fabio Gallo, o investidor precisa adquirir conhecimentos técnicos antes de se aventurar nesse tipo de aplicação. “Se você já tem dificuldades de investir no nosso mercado, em reais, dar um passo desses só por causa do entusiasmo pode ser equivocado. Além disso, se você entra com pouco capital, pode ser que o retorno não seja tão volumoso.”

O economista também chama a atenção para a importância da avaliação do risco cambial e do valor do spread nas negociações para o exterior. “Em qualquer transação em que você pega o dólar alto, seu dinheiro será consumido já nessa primeira operação. Depois, se por qualquer motivo decide se desfazer da carteira, ao repatriar o dinheiro, você perdeu dinheiro na ida e perdeu na volta. Então é preciso ter muita cautela”.

Para Wachsmann, o risco cambial faz parte do investimento, mas não deve impedir a aplicação. “Não sei quanto vai estar o câmbio amanhã, nem pretendo saber. O investidor tem de ter em mente que vai ter exposição cambial, mas vai ter acesso a um leque maior de fontes de rendimentos. Isso é um dos componentes da carteira”, afirma o gestor da Vitreo.

Experiência de negociação

O servidor público Ricardo Silveira possui investimentos no exterior desde 2013, quando abriu uma conta em uma instituição dos EUA, e atualmente possui ações de mais de 100 empresas listadas na Bolsa de Nova York (Nyse). Para ele, as principais vantagens foram garantir segurança diante da incerteza econômica e investir em áreas não contempladas pela Bolsa de Valores de São Paulo.

“Você consegue manter parte do seu patrimônio protegido do governo brasileiro, que tem gerado incertezas desde 2013. Além disso, o número de empresas que são boas ou excelentes na Bolsa americana é muito maior do que na Bolsa brasileira”, afirma.

Ele diz que, mesmo com o valor de câmbio alto, viu uma grande oportunidade de ampliar as aplicações internacionais durante a pandemia do novo coronavírus. “Neste momento, você vê uma queda no valor dos ativos, mas as empresas continuaram boas, e vão se recuperar”, conta o servidor. 

Silveira, que tem experiência no mercado e um alto volume de investimentos, prefere negociar diretamente os ativos, para fugir de taxas. “O fundo acaba investindo em ativos reais. Se eu posso comprar direto ações de determinada empresa, por que eu vou comprar um fundo que paga terceiros para intermediar esse processo?”

Formas de investir no exterior

  • Fundos de investimento:

Forma mais convencional de investimento no exterior. Corretoras aplicam em ativos em Bolsas no exterior, processo semelhante ao das negociações no Brasil. Investidores de varejo (com volume de investimentos inferior a R$ 1 milhão), podem aplicar até 20% dos ativos no exterior. A tributação é de 15% sobre o lucro ou segue a tabela do Imposto de Renda no caso de ações. Em investimentos de renda fixa, a tributação varia de 15% a 22,5%.

  • ETFs:

Negociados dentro da B3, os Exchange Traded Funds (ETFs) são fundos que reúnem um conjunto de ações em uma única carteira e replicam um índice. Há tributação de 15% sobre lucro. Em geral, o investimento é feito como o de uma ação dentro da B3, com base na composição do Ibovespa. ETFs também podem replicar índices externos, como o S&P 500, da Bolsa de Nova York.

  • COE:

O Certificado de Operações Estruturadas (COE) reúne renda fixa e renda variável em um só título. É negociado por bancos e outras instituições nacionais, que investem tanto em CDB, LCI e LCA quanto em ações nacionais e estrangeiras, índices das bolsas americanas e dólar. Tem taxa de administração e também são tributados pela tabela do Imposto de Renda para renda fixa.

  • BDR:

Os Brazilian Depositary Receipts (BDR), ou certificado de depósito de valores mobiliários, são comprovantes de valores mobiliários emitidos por companhias abertas estrangeiras. São negociados na B3. O investidor aplica em títulos que representam ações no País ao invés de adquirir diretamente ações de empresas. A tributação é de 15% sobre o lucro.

  • Conta em banco ou corretora no exterior:

É a forma mais direta de investimento no exterior. O investidor abre uma conta em qualquer país e envia remessas de dinheiro para negociar investimentos oferecidos pela instituição. Dessa forma, é possível investir mais do que 20% da carteira de ativos, mas é preciso levar em consideração o valor do câmbio e das taxas de envio das remessas, também cobradas em moeda estrangeira.

 

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