Iara Morselli/Estadão
Iara Morselli/Estadão

Queda de juros fará com que bancos se voltem à base da pirâmide, diz presidente do Santander

Para ele, o Brasil vive a transformação da Selic e do varejo, que ainda se utiliza de um modelo de desindexação da inflação

Aline Bronzati e Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2019 | 19h44

O presidente do Santander Brasil, Sergio Rial, afirmou que o atual patamar de juros no Brasil, de 6% ao ano, fará com que as instituições financeiras se voltem à base da pirâmide. "Temos que passar a olhar o Brasil, que tem uma pirâmide gordinha na sua base. A Selic a 6% ao ano, a 5%, a 4%, não importa. A taxa de juros que estamos vivendo hoje vai fazer com que todas as instituições financeiras, sem exceção, voltem a ser também para a base de pirâmide", disse ele, durante enceramento de evento promovido pelo banco em sua sede, em São Paulo.

Para ele, o Brasil vive a transformação da Selic e do varejo, que ainda se utiliza de um modelo de desindexação da inflação. "Ainda compramos a prazo, achando que é sem juros no cartão. A verdade na relação de troca vai chegar. Vai chegar mais acelerada e estamos super bem-posicionados", acrescentou.

Rial chamou atenção para o potencial de produtos como microcrédito, financiamentos ao agronegócio e imobiliário no Brasil. Segundo ele, a carteira de empréstimos voltados ao setor de agro do banco chegará "com muito esforço" a R$ 21 bilhões no final deste ano, mas os players privados ainda não têm forte presença neste segmento, que pode crescer já que os produtores não são alavancados como outros setores. "Há tudo por fazer no País. A gente precisa ter paciência com intensidade e gestão", destacou Rial.

Ele também criticou a perda da capacidade da sociedade de dialogar, empurrando boa parte dos seus problemas para o judiciário ou câmara de arbitragem. "É muito caro. A agenda de produtividade onde tudo escoa para a judicialização mostra um fracasso da sociedade como um todo de ser capaz de perpetuar diálogos positivos, mesmo na oposição e na discórdia, mas com vontade de resolução e não de terceirizar as decisões e conflitos", disse Rial.

Na visão do presidente do Santander, conflito é inerente de um processo de transformação e, por isso, que a gestão é importante. "Gestão é gerir conflitos e ser capaz de trazer opiniões extremamente opostas a um denominador comum", afirmou.

Rial também passou um recado direto à equipe econômica do governo de Jair Bolsonaro. Disse que o mundo está cheio de ideias e boas intenções, mas a arte está na gestão e capacidade de fazer acontecer. "É o desafio que fica para o Ministério da Economia para um corpo que nunca tivemos como País e cabe a nós, agentes do sistema financeiro, poder ajudar na gestão e priorização de temas importantes no Brasil", acrescentou.

Dentro do tema gestão, o presidente do Santander comparou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) com uma fábrica de projetos e lançou o desafio da capacitação dos prefeitos de 5,6 mil municípios. Essa é uma ideia, conforme ele, que o BNDES e o setor financeiro como um todo deveriam abraçar no intuito de levar ferramentas para trabalhar os orçamentos das cidades que, na maioria das vezes, são inexistentes.

Para o presidente do Santander, os Correios são um ativo relevante, considerando a complexa logística do País, mas seu valor mudou nos dias de hoje e, por isso, sua privatização talvez tenha de ser diferente do formato tradicional. "Os Correios são extremamente importantes para aquelas empresas que veem o Brasil como potencial enorme de penetração. As Amazons da vida", avaliou Rial. "A gente não pode esquecer que os Estados Unidos acabaram de criar cinco novos estados que são as cinco plataformas de tecnologias, cada uma delas com US$ 1 trilhão de valor", acrescentou.

Para Rial, a guerra fria vista hoje tem pouco a ver com o financiamento do comércio exterior e tudo a ver com a predominância e abrangência de controle e domínio de tecnologia. "Esse é um mundo que já chegou para transformar de forma absurda todos os modelos de negócios, não só o sistema financeiro, mas hospital, mobilidade urbana", avaliou, chamando atenção para a importância da ciência e tecnologia no século atual.

Ele clamou ainda para a necessidade de se praticar a palavra liberal, pensamento que guia a atual equipe econômica, e ainda a palavra risco e não a negação dele. Em um cenário de juros baixos, com os investidores buscando retornos acima do CDI, conforme Rial, é muito importante voltar a pensar os erros do passado, quando não foi explicado o risco existente em torno dos investimentos.

"Estamos vivendo em um mundo onde parece que o risco desapareceu. Aquele investidor que está comprando papel há dez anos passa a comprar ativos em busca de retorno. Nós temos um papel importante de voltar a trazer a palavra risco à mesa", avaliou o presidente do Santander, que disse que está otimista e que "sofre dessa doença".

Rial encerrou a 20ª Conferência Anual do banco, em São Paulo. Participaram o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, dentre outros.

 

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