Queda do dólar ajuda alta de commodities, diz Meirelles

Presidente do BC argumenta que inflação internacional afeta economia do País e ressalta papel da instituição

Fernando Nakagawa e Fabio Graner, da Agência Estado,

15 de julho de 2008 | 12h43

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse nesta terça-feira, 15, que parte importante da alta das commodities registrada nos últimos meses aconteceu como reflexo da desvalorização da moeda norte-americana. Segundo ele, o grupo das principais commodities agrícolas, metálicas e de energia subiu 54% de fevereiro de 2007 a julho de 2008 em dólar. Mas o mesmo grupo de produtos avançou apenas 26% em euros. "Uma parte importante da evolução desses preços foi gerada pela desvalorização da moeda americana", afirmou. "Em euro, a alta é menos pronunciada. Mas os preços estão subindo", afirmou.   Veja também: Entenda os principais índices de inflação  Entenda a crise dos alimentos    Em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Meirelles usou os dados para argumentar que a inflação internacional também tem afetado a economia brasileira. Segundo ele, boa parte do aumento do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) nos últimos meses foi gerada pelos alimentos e por outras commodities internacionais. Apesar disso, ele ressaltou aos parlamentares que o Brasil também tem registrado inflação gerada pelo aumento da demanda interna.   Segundo ele, se forem excluídos os aumentos de alimentos e preços administrados, o IPCA subiu 5,38% nos 12 meses encerrados em junho. "Mesmo tirando esses preços, os índices apontam tendência para cima", afirmou. Segundo Meirelles, "existe, de fato, uma inflação internacional. Mas existe também uma inflação que cresce no Brasil".   Diante desse quadro, Meirelles afirmou aos senadores que "o Banco Central e o governo continuam atentos para evitar que a economia muito aquecida permita o repasse da alta de preços do atacado para o varejo". Na avaliação dele, o mercado financeiro já entendeu esse compromisso.   Para fazer essa afirmação, Meirelles se baseia nas projeções do mercado para o IPCA, que apontam para uma inflação de 4,5% em 2010 e 2011, e de 4,30% em 2012. "Isso significa que há confiança de que a autoridade monetária vai continuar trabalhando para convergir a inflação à meta", afirmou.   A avaliação de Meirelles é reforçada pelos dados para a inflação nos próximos meses, que apontam para uma desaceleração a partir, principalmente, de 2009. "Em algum momento, o mercado prevê o IPCA acima do topo da meta. Mas, depois, a expectativa cai. Os analistas fazem essa previsão levando em conta a ação do Banco Central", afirmou.   Ação   O presidente do BC ressaltou que a autoridade monetária vai agir para manter a inflação dentro das metas "já em 2009". "A sociedade não deve ter dúvidas de que o Banco Central saberá agir rigorosamente para preservar as conquistas da economia brasileira", afirmou.   Meirelles afirmou que o objetivo do Banco Central é trazer a inflação para o centro da meta já no próximo ano. "O BC está comprometido a fazer o necessário, e enquanto for necessário, para levar a inflação ao centro da meta já em 2009", disse ao comentar que não há vantagem econômica em se conviver com uma inflação mais elevada. Aos senadores, Meirelles lembrou que "é muito importante que os empresários tenham segurança que o Banco Central está comprometido em manter a inflação baixa, na meta".   Para atingir este objetivo, o Banco Central iniciou em abril o aperto monetário com aumento do juro básico da economia. Meirelles defendeu a decisão ao afirmar aos senadores que, "subir e descer os juros acontece em toda a economia do mundo". O presidente do BC observou, contudo, que a elevação de juros que ocorre atualmente acontece em patamar inferior ao registrado nos últimos anos. Ele apresentou um gráfico para comparar o nível atual da taxa de 12,25% com os 26,50% do final de 2003 e os 19,75% do final de 2005.   "Estamos fazendo isso em patamares menores ao longos dos anos. O ciclo de alta existe, mas nós estamos trabalhando com níveis de crescimento da economia cada vez maiores e juros cada vez menores", disse Meirelles, referindo-se à menor extensão dos ciclos de alta de juros.   Durante a apresentação, Meirelles mostrou dados que comparam a evolução da inflação com os salários reais. Os indicadores mostram que a inflação em alta reduz o rendimento real do trabalhador, o que foi avaliado como negativo por Meirelles. "É muito importante se manter a inflação na meta, baixa, visando ao aumento do salário real. A inflação alta também prejudica as vendas e desorganiza o planejamento econômico", afirmou.

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