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Economistas discutem os efeitos do fortalecimento do real sobre a economia e o que se deve fazer com o câmbio

Entrevista com

, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

''Juro tem relação íntima com o câmbio''Economista faz ressalva à afirmação de Meirelles e diz que a taxa brasileira precisa ser alinhada às taxas internacionaisMarcelo RehderPara o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a afirmação do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, de que a taxa de juros deve ser utilizada exclusivamente para fins da política de metas de inflação "não condiz nem com a teoria nem com a operação efetiva dos mercados".O que o governo pode fazer para conter a valorização do real? Eu penso que, num momento como esse, precisa ter uma taxa de juros mais alinhada com a taxa de juros internacional. A nossa está muito desalinhada. A afirmação do nosso querido e simpático - e eu não estou dizendo ironicamente, estou dizendo de verdade - presidente do Banco Central (Henrique Meirelles), de que a taxa de juros deve ser utilizada exclusivamente para fins de política monetária como ele a entende, ou seja, política de metas de inflação, não condiz nem com a teoria nem com a operação efetiva dos mercados. Por quê?Porque há uma relação muito íntima com o câmbio, como todo mundo sabe e que o (economista britânico John M.) Keynes definiu no teorema das paridades da taxa de juros descoberta. Ele mostra que a taxa de câmbio tem duas dimensões. É um preço relativo e, ao mesmo tempo, uma variável monetária, um ativo. A variação do câmbio afeta o preço dos ativos. Mas frequentemente essas duas dimensões não se juntam num nível desejável. Se a taxa está fora do lugar, você vai ter uma desvalorização e vai perder lugar na concorrência como país produtor de manufatura. O Brasil tem uma outra particularidade. É um grande produtor de commodities e, neste momento, a estrutura da economia mundial favorece os produtores. Mas, se pensar lá na frente, o pré-sal operando, digamos já a uma capacidade razoável, você vai ter um fluxo permanente de moedas de reserva para o País, com risco crescente de apreciação da sua moeda. Isso não é necessariamente ruim, mas pode ser muito ruim. Não necessariamente ruim, porque isso permitiria com grande facilidade e sem riscos adicionais colocar a taxa de juros, quando fosse o caso, num nível mais baixo. Isso daria mais liberdade à política monetária, ao mesmo tempo em que se tomassem outros cuidados com o fluxo de recursos, porque poderia prejudicar permanentemente a indústria por perda de competitividade.Pelo que o presidente do BC tem dito, há alguma chance de se adotar medidas mais efetivas em relação ao câmbio?Eu não sei. Quando eu ouvia as falas do (ex-presidente do Federal Reserve, o banco central dos EUA, Alan) Greenspan, eu tinha dificuldade de interpretar aqueles hieróglifos. Mas, em se tratando do Meirelles, eu acho que parece que ele é sempre mais claro, mais direto. Ele não está dizendo que não vai mudar, e sim que não acha conveniente manejar a política monetária em razão do câmbio. Qual o risco de se deixar o câmbio sobrevalorizado?Provavelmente num futuro próximo, diante das decisões benfazejas de Deus a respeito do Brasil, nós não vamos ter problemas de balanço de pagamentos por conta de como vai se mover a economia mundial. Na minha opinião, isso não ocorrerá por causa da disponibilidade de recursos naturais que nós temos. Mas aí, se deixar o câmbio apreciado por muito tempo, certamente a indústria manufatureira vai sofrer percalços, vai ter dificuldades, não só pelas suas exportações, mas também pela concorrência das importações. Não é uma decisão simples de política econômica. Depende de ter uma estratégia que oriente as decisões. Não precisa também só usar a taxa de juros para resolver esse problema. Há outros instrumentos.Como a volta da cobrança do IOF sobre aplicações estrangeiras?Você pode usar esse tipo de instrumento. O Brasil cobrava IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) até pouco tempo atrás e a cobrança foi retirada no momento de escassez, quando diminuiu o fluxo de capitais para o País. Tem de manejar isso com pragmatismo. Pode colocar um pouco de areia na entrada de capitais, como muitos países fizeram, com resultados razoáveis. Não é verdade que todos fracassaram, como disse o Meirelles. Eu não vou falar da China, porque é um caso peculiar de uma economia que tem uma governança muito especial, o que não é o caso do Brasil. O dólar deve seguir em queda em relação ao real?Do jeito que a coisa está, vai. A menos que o governo tome algumas medidas para diminuir esse efeito da desvalorização do dólar sobre o real. Não adianta dizer que todas as moedas se valorizaram ante o dólar. Algumas se valorizaram mais, outras menos. E o real é uma das que mais têm se valorizado. É claro que isso revela uma apreciação do mercado muito favorável ao Brasil. Mas não é só isso. Decorre também de um diferencial de juros que faz com que esse movimento se intensifique. E aí não adianta dizer que antes o juro era mais alto. O problema é o diferencial, sempre o cara olhando para a frente. É o diferencial ante outras perspectivas da economia. A moeda turca, por exemplo, teve valorização agora, mas se o investidor olhar para o futuro da economia turca, vai dizer ?estou fora?.O movimento de valorização do real não decorre também da situação internacional?Provavelmente, diante da situação econômica dos Estados Unidos, sobretudo no que diz respeito ao crescimento da sua dívida pública e do déficit fiscal, haverá problemas com o dólar como está se observando. No primeiro momento, todo mundo correu para os títulos americanos. Depois da intervenção, está se vendo que a tendência é diferenciar outra vez os rendimento dos títulos americanos e dos papéis privados. A perspectiva do mercado de que vai haver problemas fiscal e monetário nos Estados Unidos está se refletindo na desvalorização do dólar. ''Alterar o curso do câmbio é impossível''Para ex-diretor do BC, para que isso seja possível é preciso alterar a política monetária, o que ninguém está disposto a fazerO ex-diretor de Política Monetária do Banco Central e sócio-diretor da MCM Consultores, José Júlio Senna, afirma que tendência é de o real continuar se valorizando ante o dólar. Para ele, uma intervenção do governo no mercado de câmbio seria uma tarefa inglória, impossível, na prática. "Para maximizar as chances de sucesso, seria preciso alterar substancialmente a política monetária, o que ninguém está disposto a fazer."Há algo que o governo possa fazer para evitar a valorização do real?Em tese, existe sempre a possibilidade da intervenção estatal no mercado de câmbio. A evidência internacional sobre o sucesso das intervenções no mercado de câmbio é sugestiva. Para que a chance de sucesso da intervenção se eleve de alguma maneira é preciso que ela seja acompanhada de alguma alteração importante no rumo da política econômica, particularmente no rumo da política monetária. Isso é viável para o Brasil?Acho que não porque quem quer de fato intervir e maximizar não o sucesso, mas a possibilidade de sucesso, tem que estar disposto a promover uma alteração significativa da política monetária. Não adianta reduzir em meio ponto a taxa de juro ou um ponto. Não me parece ser esse o caso brasileiro. Não tem ninguém imaginando que no momento atual deveríamos alterar o que está em curso, muito menos dentro do próprio Banco Central, porque, caso isso fosse feito, equivaleria a mudar o alvo principal da política do BC. Teria que estar disposto a jogar pesado contra o câmbio a ponto de alterar de maneira muito expressiva a política monetária, por meio de uma redução bastante substancial da taxa de juros. Obviamente, ao fazer isso estaríamos abandonando a destinação do instrumento clássico de política monetária hoje, que é a taxa de juros, e voltando à época inicial do real, quando o juro era usado para tentar obter determinado nível de câmbio. Hoje, a taxa de juros é usada para combater a inflação. Acho que ninguém está disposto a mudar isso. A taxa de juros seguramente continuará a ser manipulada com o objetivo de combate à inflação, dentro da estratégia conhecida por regime de metas de inflação.A valorização do real é uma realidade com a qual devemos conviver a partir de agora?Ninguém vai abandonar o regime de metas de inflação. Não tem como realizar a intervenção no mercado de câmbio com chance mínima de isso vir a produzir o resultado que o governo deseja. Ou seja, alterar o curso que o câmbio está seguindo é uma tarefa inglória, eu diria, na prática, impossível. Então, continuaremos a conviver com a tendência de mercado. Se as forças de mercado continuarem produzindo o fortalecimento do real, não haverá nada que seja possível fazer, a não ser intervenções pontuais capazes de minimizar a volatilidade do câmbio no curtíssimo prazo, mas sem resultado prático significativo em termos da tendência do real.E como o senhor acha que ficam as exportações e as chances de recuperação da economia brasileira? O regime de câmbio flutuante é o mais adequado para o Brasil, mas ele não é isento de custos. Ele traz alguns transtornos, eventuais movimentos de fortalecimento da moeda que trazem algum prejuízo para o setor exportador por algum tempo. Agora, os mercados financeiros se desenvolveram de forma bastante expressiva e o exportador tem meios de se proteger de oscilações cambiais. Não é recomendável que ele especule com taxas de câmbio, como aconteceu com algumas empresas no Brasil. Mas usar os mecanismos de derivativos para proteção é algo absolutamente legítimo, desde que a coisa seja dimensionada adequadamente. É algo que facilita a convivência. Mudar de regime só nos traria prejuízo.Os juros altos são os responsáveis pela atual onda de fortalecimento do real? Acho que não. Vou contar uma história que eu acho muito legal. Se você pega o comportamento do real com relação ao dólar desde a introdução da nossa nova moeda, em 1994, e pega ao mesmo tempo o dólar lá fora contra uma cesta de moedas de países que são importantes para os Estados Unidos, vai perceber uma coisa impressionante: o movimento das taxas de cambio integrantes dessa cesta contra o dólar acaba sendo o mesmo movimento do real contra o dólar. Em outras palavras, quando o dólar se fortalece aqui dentro contra o real, é porque ele se fortaleceu lá fora também contra essa cesta de moedas. E vice-versa. Nesses 15 anos, houve uma única fase em que a coisa andou de maneira descasada. Foi em 2002, no período das eleições do presidente Lula, quando o dólar lá fora começou a perder força, mas aqui dentro o real se depreciava muito acentuadamente.Como se explica o fato de o real ser uma das moedas que mais se valorizou em relação ao dólar este ano?Só agora começa a cair a ficha da turma lá fora de que o Brasil se preparou adequadamente para uma eventualidade adversa. O País montou uma base de reservas internacionais muito forte, diminuiu a sua dívida externa, alongou o perfil dessa dívida, só que levou tempo para a ficha cair. Ela está caindo e percebe-se, por exemplo, que o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos do Brasil para este ano pode ser perto de 1% do PIB (Produto Interno Bruto). É um número baixo, muito confortável, facilmente financiável e não há perspectiva de aumento importante desse déficit para o ano que vem. A estrutura do balanço de pagamentos do Brasil está tão adequada para enfrentar este momento adverso que ocorre uma coisa raríssima, que eu não me lembro de ter visto antes: o Brasil conseguiu reduzir o juro na presença de um episódio de um choque externo adverso. Isso tem sido visto como uma coisa boa pelos investidores internacionais. É meio paradoxal, mas é facilmente compreensível. Se o Brasil consegue entrar numa fase de política monetária descendente, é porque é uma economia que está com uma solidez boa de balanço de pagamentos e se diferencia de países do Leste Europeu e de alguns exportadores de mercadorias que têm déficits de 4% a 6% do PIB em conta corrente.

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