Queda do PIB vai repercutir na Selic

Dólar e poupança preocupam, mas índice pode ampliar corte do juro

Sérgio Gobetti, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

O futuro do câmbio e da poupança tornou-se o principal fator de preocupação do governo nas discussões sobre os rumos da taxa de juros que precedem a reunião do Conselho de Política Monetária (Copom). Mas a decisão dos diretores do Banco Central, considerando um espectro de redução da Selic entre 0,5 e 1 ponto porcentual, dependerá do tamanho da queda do Produto Interno Bruto (PIB), a ser anunciado na manhã da próxima terça-feira, um dia antes da votação do Copom.O governo e o mercado já sabem que a economia encolheu pelo segundo trimestre consecutivo no início deste ano, configurando o que os economistas chamam de "recessão técnica". Mas as estimativas do Ministério da Fazenda e do BC são de uma queda de "apenas" 1,7% na comparação entre o primeiro trimestre de 2009 e o último de 2008. Se confirmar-se um tombo maior, de 3% a 4%, como preveem alguns modelos de prognóstico "informais" utilizados pelos técnicos da equipe econômica, a pressão para que o Copom reduza a Selic em 1 ponto porcentual será muito maior.No momento, o principal fator levantado por economistas para defender uma queda mais forte da taxa de juros é a valorização do real em relação ao dólar. Na quinta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, levou ao presidente Lula um comparativo mostrando que a moeda brasileira foi a que mais se valorizou ante a moeda americana nos últimos quatro meses (18,1%, ante 10,7% do euro e 0,1% do yuan chinês).Os dados foram apresentados ao presidente Lula com o intuito de mostrar que a situação cambial é preocupante para o setor exportador, ao contrário do que tem sugerido o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. O ministro da Fazenda também é contrário a medidas mais radicais de controle da taxa de câmbio, mas quer compensar o movimento cambial com uma redução mais forte da taxa de juros.Embora os dados indiquem que o recente ingresso de dólares no Brasil não foi puxado pelos títulos públicos, mas pela Bolsa de Valores e pelos investimentos estrangeiros diretos, os técnicos da Fazenda avaliam que, se a taxa de juros já estivesse mais baixa, isso poderia ter provocado um contrapeso aos demais fatores que puxam o dólar para baixo. Meirelles, ao contrário, rejeita por princípio qualquer utilização da política monetária para objetivos cambiais e prefere outro instrumento para conter a valorização do real: a compra de moeda estrangeira pelo Banco Central para ampliar as reservas internacionais.Os técnicos da Fazenda, entretanto, começam a questionar o prosseguimento dessa estratégia agora que as reservas superam os US$ 205,4 bilhões. O argumento é que, se o Brasil atravessou o pior da crise sem perder reservas, não necessitaria de mais dólares. A principal razão do questionamento é o custo fiscal da medida. Cada vez que compra um dólar, o BC precisa emitir títulos públicos para ter os reais necessários à troca. E o problema é que os dólares depositados nas reservas internacionais e aplicados em títulos americanos e europeus rendem ao Brasil muito menos do que custam os títulos da dívida interna atrelados à taxa Selic.Nesse ponto, a queda da taxa Selic contribuiria para reduzir o custo do endividamento e da aquisição das reservas. O problema para uma queda mais forte dos juros, admitem os próprios economistas da Fazenda, é o piso criado pela remuneração da caderneta de poupança.Se o Copom reduzir a Selic de 10,25% para 9,25%, por exemplo, a avaliação é de que o governo seria pressionado a antecipar uma solução para o diferencial dos rendimentos financeiros no Brasil, provavelmente reduzindo o imposto sobre aplicações em fundos. Por uma série de motivos, os técnicos da Fazenda não simpatizam com a proposta de reduzir o IR dos fundos de investimento e prefeririam adotar uma solução estrutural definitiva para o problema da caderneta de poupança.Por isso, uma redução de apenas 0,5 ou 0,75 ponto porcentual permitiria à equipe econômica continuar adiando por mais tempo o anúncio de medidas para evitar a migração dos fundos para a poupança. E essa deve ser a decisão do Copom, se a queda no PIB não for pior do que o previsto oficialmente. A aposta da maioria dos integrantes do próprio governo é que a queda será de 0,75 ponto, embora haja uma torcida por algo mais acentuado.

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