Queda do preço do gás pode beneficiar Petrobras em negociação

A forte queda das cotações do gás natural no mercado internacional está facilitando a estratégia da Petrobras de endurecer nas negociações com os bolivianos para o reajuste do preço do combustível. Nesta sexta-feira o gás natural caiu pra US$ 5,515 por milhão de BTU na Bolsa de Nova York (Nymex), o que representa uma queda de 23% em relação ao início de maio, quando o governo boliviano ocupou as refinarias da estatal brasileira e anunciou a nacionalização de reservas de gás naquele país. A queda tem sido constante, em movimento inverso ao registrado pelo petróleo, que tem registrado alta desde então. Considerando o pico das cotações do gás natural, que atingiu US$ 11,253 por milhão de BTU no dia 08 de dezembro, a queda acumulada em sete meses já está em 49,8%.Na avaliação de uma fonte que acompanha de perto as negociações, isso não significa, automaticamente, que as conversas serão fáceis. O governo brasileiro avalia que o Brasil vai continuar dependendo do gás boliviano já que as descobertas no País tem sido abaixo das expectativas oficiais. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro não quer dar sinais de fraqueza, com medo de criar precedentes. "A Bolívia precisa vender o gás natural para o Brasil, sob pena de a economia do país sofrer fortes restrições", comentou a fonte. Só do Brasil, são cerca de US$ 1 bilhão por ano com a venda do gás natural. "No curto prazo, não há como a Bolívia encontrar outro mercado para esse gás", complementa. Tensão O gás natural tem sido motivo de tensão entre diversos países da América do Sul e é possível que esse quadro permaneça instável nas próximas décadas, conforme o diagnóstico do especialista ouvido pelo Estado, que acompanha de perto as negociações no setor. O Brasil, como principal economia do continente, está demandando volumes cada vez maiores de gás natural e o consumo pode aumentar várias vezes nos próximos anos se houver necessidade de `despachar´ (autorizar a operação) as usinas térmicas a gás no regime de base (24 horas por dia). A Argentina é outro grande consumidor na região, mas que sinaliza problemas crescentes de oferta. Aquele país renovou acordo com a Bolívia na semana passada, prevendo importação de 20 milhões de metros cúbicos diários, o que comprova a carência do produto na Argentina. No passado, os argentinos tinham sobra de gás natural, o que levou o país a vender cerca de 22 milhões de metros cúbicos diários para o Chile (o que contribui com a geração de 50% da energia elétrica do país andino) e para o Brasil (termelétrica AES-Uruguaiana). Além disso, firmou contrato para transferir cerca de 2.000 MW de energia elétrica ao Brasil, que seria gerada em térmicas daquele país, mas não está cumprindo esse acordo. O problema é que os argentinos não estão cumprindo os contratos com o Brasil e há uma tensão permanente com o Chile, especialmente no inverno.Dependência Com isso, na prática, Brasil e Argentina tendem a continuar dependendo do gás boliviano, além do próprio Chile, que importa o combustível da Argentina. A estratégia da Petrobras nas negociações com a Bolívia tem sido de reiterar a manutenção do contrato atual, que vigora até 2019, e que prevê reajustes periódicos a cada três meses. Isso facilitaria o relacionamento da estatal brasileira com os seus clientes e evitaria o acirramento nas discussões e, possivelmente, uma arbitragem em cortes internacionais. Nesse caso, a tendência é que os resultados seriam mais favoráveis ao Brasil do que à Bolívia, já que a arbitragem internacional sempre busca a manutenção dos termos dos contratos. Nos Estados Unidos a demanda aumentou muito no final do ano passado, em parte devido ao furacão Katrina, que danificou muitas instalações naquele país. As cotações já vinham subindo, mas mantendo-se na faixa de US$ 7,00 a US$ 8,00 por milhão de BTU. A partir de outubro, porém, os preços dispararam, atingindo o pico em dezembro com o início do inverno no hemisfério norte e a maior demanda por aquecimento nas residências.

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