Tiago Queiroz/Estadão
No restaurante de Lilian Maia Sallum, o filé mignon saiu do cardápio e deu lugar ao miolo de alcatra Tiago Queiroz/Estadão

Queda na renda limita espaço para reajustes no setor de serviços

Nos salões de beleza, movimento ainda está 35% menor que o registrado no período anterior à pandemia da covid-19

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2021 | 18h40

Faz 15 dias que a empresária Lilian Maia Sallum, dona do cinquentenário restaurante Esquina do Fuad, na capital paulista, especializado em cortes de carnes importadas, tirou do cardápio o filé mignon. “Quando bateu R$ 100 o quilo, troquei pelo miolo de alcatra, que custa R$ 48, e avisei os clientes”, conta a empresária.

O movimento do restaurante hoje ainda não voltou ao normal. Está entre 60% e 70% do que era no período pré-pandemia. “Acredito que volte ao normal quando todos estiverem 100% vacinados, mas não é só isso”, diz. A sua percepção é de que há também muitas pessoas inseguras e com medo de perder o emprego. Isso freia a ida aos restaurantes. “Comer fora está caro.”

Pressionada pela alta de custos, desde que reabriu o restaurante Lilian reajustou, em média, 15% o preço dos pratos que levam carne. “O resto você não consegue reajustar, é preciso absorver porque o cliente não tem dinheiro”, diz.

O descompasso entre a alta de custos dos prestadores de serviços e o repasse para os preços ao consumidor se repete no setor da beleza. “Tivemos aumentos de insumos na casa de 20%”, conta o presidente da Associação Brasileira de Salões de Beleza (ABSB), José Augusto Nascimento Santos. Nessa lista, ele aponta o esmalte e itens influenciados pela alta do petróleo.

Mas, segundo Santos, não há espaço hoje para grandes reajustes de preços aos clientes. “Não tenho conhecimento de aumentos superiores a 8%, na média nacional, dos serviços prestados pelos salões de beleza”, diz. 

Ele reconhece que há uma clientela com poder aquisitivo alto que não se importa tanto com os aumentos. Mas, para a grande maioria, esse reajuste pesa. E, neste momento, o risco de os salões de beleza perderem mais clientes ou não recuperarem os perdidos na pandemia é grande. 

Com o isolamento social, o mercado de profissionais autônomos que prestam serviços em domicílio cresceu. Um dos indícios desse movimento é que os salões, em média, estão atualmente ainda com movimento 35% menor em relação ao período pré-pandemia. “Não houve uma retomada pujante”, afirma. 

O executivo argumenta também que a frequência ao salão diminuiu devido ao novo estilo de vida. “Tem muita gente em home office e isso exige menos cuidados pessoais, como escovar e tingir os cabelos, esmaltar as unhas.”

De toda forma, no ritmo atual de recuperação do movimento de 6% ao mês, a expectativa do setor é voltar ter algum crescimento de venda sobre o desempenho pré-pandemia a partir de maio do próximo ano. “Isso se não houver nenhum tipo de surpresa desagradável”, diz Santos, fazendo menção ao risco de uma nova onda da pandemia que pode levar ao fechamento dos salões. 

“Efeito Champagne”

Enquanto a recuperação caminha a passos lentos em muitos serviços regulares do dia adia, como restaurantes, bares, salões de beleza, o setor de eventos vive o “efeito Champagne”. O termo está sendo usado no mercado de entretenimento para a retomada muito forte do setor neste momento de volta à vida normal, explica Bruno Sapienza, head de receita da Ingresse, marketplace de venda de ingressos de eventos, como réveillon e carnaval.

A plataforma tem hoje 100 eventos de réveillon, com 80% dos ingressos vendidos. Os preços do réveillon, que inclui vários dias de festas, vão de R$ 4 mil a R$ 8 mil e foram reajustados neste ano em 15%. Para o réveillon da Praia da Pipa (RN), o Let’s Pipa, um dos mais famosos, foram vendidos 2 mil ingressos em três horas. “Não esperávamos esse ritmo”, diz Sapienza. Sem revelar números, ele acredita que a plataforma feche 2021 ultrapassando o melhor ano de vendas, que foi 2019. Isso, se uma nova variante de covid-19 não estragar a festa. l

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Inflação de serviços reaparece com alívio nas regras de isolamento social

Setor aproveita retorno gradual da atividade para tentar recuperar perdas com a pandemia; reajustes, porém, são limitados pela perda de poder aquisitivo da população

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2021 | 18h40

Com o avanço da vacinação e o brasileiro começando a retomar uma vida “quase” normal – indo a restaurantes, bares, salões de beleza, shows e viagens, por exemplo –, foi aberto um espaço para reajustes de preços dos serviços. A tentativa é tirar o atraso de um longo período sem repasse das várias pressões de custos que se acumularam.

Com o comportamento das pessoas voltando aos poucos ao nível pré-pandemia, entre julho e outubro deste ano quase a totalidade (92%) de uma lista de 62 serviços prestados às famílias teve preços majorados. Houve reajustes de até três dígitos no período, caso das passagens aéreas (107,2%), seguido por aplicativos de transporte (47,4%). Só cinco serviços tiveram queda de preço, mostra levantamento feito pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a pedido do Estadão, para avaliar o impacto da reabertura na inflação de serviços. 

A realidade dos últimos meses é completamente diferente da que vigorava na primeira onda de covid-19. Com o isolamento social, entre março e agosto de 2020, metade dos itens da lista de serviços registrava deflação, com quedas expressivas. A outra metade tinha variação ainda positiva nos preços, porém pequena.

Com a reabertura das atividades, a inflação dos serviços usados pelas famílias se espalhou e subiu, em média, 2,8% no período. É o equivalente a mais da metade da inflação geral medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulada em igual período – entre julho e outubro –, que foi de 4,3%, segundo o levantamento. O estudo usou dados da inflação oficial apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e seguiu a metodologia do Banco Central (BC) para classificar os serviços.

Escalada

Desde julho, a inflação dos serviços prestados às famílias não para de aumentar a cada mês. Em outubro atingiu 1,04%, a maior alta mensal desde o início da pandemia. “Mascarada pela inflação da gasolina, da energia elétrica e dos alimentos que estão absurdamente altas, a inflação dos serviços se acelera desde o final da segunda onda de covid ao sabor da redução do isolamento social”, diz o economista-chefe da CNC e responsável pelo levantamento, Fábio Bentes.

Pressionados por aumentos de custos de vários insumos e recentemente pelo risco de mais uma onda da pandemia, em razão da nova variante Ômicron, que pode levar a paralisações, prestadores de serviços aproveitam o quadro positivo de final de ano e a demanda reprimida para aumentar preços.

O movimento em bares e restaurantes, por exemplo, vem crescendo com a reabertura. O faturamento nacional do setor neste segundo semestre está 3% maior em relação ao mesmo período de 2019, descontada a inflação. “Estamos indo muito bem nas vendas”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci. No entanto, o ano, como um todo, ainda ficará abaixo de 2019 para o setor, porque o primeiro semestre de 2021 foi ruim.

O consumidor voltou com muita força a comer fora de casa, mesmo com aumentos de preços, que não foram poucos. Até outubro, o reajuste no cardápio acumulado desde 2020 foi de 15% e a perspectiva é fechar o ano com 20%. “Não há espaço para aumentar mais que 5% os preços porque o consumidor não aguenta”, admite o presidente da Abrasel.

Freio

Economistas acreditam que esse movimento vigoroso de reajustes dos preços dos serviços terá fôlego curto. Segundo Claudio Considera, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, a alta dos preços dos serviços acabará sendo contida pela própria disparada da inflação em geral, que corrói o poder de compra das famílias. Ele observa que o consumo das famílias não voltou aos níveis pré-pandemia, considerando os três trimestres deste ano. E os serviços têm peso importante: respondem por 80% do consumo das famílias.

“No primeiro trimestre de 2022, deve haver um ‘freio de arrumação’ nos preços dos serviços”, prevê Bentes, da CNC. Ele explica que o poder aquisitivo menor e o enfraquecimento da atividade previsto para 2022 devem segurar os aumento de preços dos serviços que foram acelerados nos últimos meses por conta da reabertura.

O aumento da circulação de consumidores, segundo o economista, estaria “anabolizando” a demanda neste final de ano. “Tem mais gente circulando, mas com menos dinheiro no bolso”, diz. 

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