Divulgação / Daniela Toviansky
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ESG

Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

Queda no financiamento de carros chegou a 80%, diz presidente do BV

Segundo Gabriel Ferreira, ainda é cedo para medir a inadimplência provocada pela crise e não há prazo para retomada do processo de abertura de capital

Entrevista com

Gabriel Ferreira, presidente do banco BV

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2020 | 11h00

Com forte atuação em financiamentos de veículos, o BV (ex-Banco Votorantim) sentiu um forte impacto nessa área por causa dos estragos provocados pelo coronavírus na economia. De acordo com o presidente do banco, Gabriel Ferreira, ainda é cedo para medir o aumento da inadimplência, mas ele vê um comportamento superior ao que ocorreu na paralisação dos caminhoneiros, em 2018, quando houve recuo de cerca de 20% nos pagamentos. 

"Porém, como foi um choque curto, a curva de inadimplência se corrigiu nos dois meses seguintes", diz. Para ele, o que vai definir o tamanho do impacto agora será o tempo de confinamento e seus efeitos na economia. Em relação ao financiamento de automóveis, porém, já dá para se ter uma ideia. O final do mês de março registrou queda de 80% nas operações em relação ao período antes de a crise se instalar.

A instituição financeira, que tem como acionistas o grupo Votorantim e o Banco do Brasil, já suspendeu sua operação de abertura de capital (IPO, na sigla em inglês), por conta da crise - a transação do banco era uma das mais aguardadas pelo mercado -, e não há previsão de retomada. 

No fim de março, o BV doou R$ 30 milhões para ajudar no combate à pandemia da covid-19 e deu início a uma campanha para arrecadação de produtos que serão destinados para compra de insumo hospitalares e distribuição de itens de primeira necessidade. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual o impacto do coronavírus para o BV, que tem um foco grande em financiamento de veículos?

O impacto para nós tem a ver com a economia real. E aí tem dois blocos: varejo e atacado. No  varejo, vimos ao longo de março, até o dia 18, uma operação normal. A partir do dia 19, começamos a ver uma queda de demanda. Fechamos o mês com queda de 80% no financiamento de carros em relação ao início de março. Esse número se compara com o que vimos na China. Sobre inadimplência, não tivemos dados suficientes para modelar. Tentamos comparar com o lockdown parecido, que foi a greve dos caminhoneiros. Em 2018, durante 17 dias, algumas regiões do País ficaram paradas. O que deu para ver é um efeito superior ao da greve dos caminhoneiros.

Tem como mensurar isso?

O que a gente viu àquela época foi uma queda de 20% de recebimento diário. Mas, como foi um choque muito curto, a curva de inadimplência se corrigiu nos dois meses seguintes. Dependendo do tempo do confinamento e da situação econômica, conseguiremos ver o impacto na inadimplência. Foi uma medida muito feliz do Banco Central aliviar os efeitos de provisionamento e capital para que os bancos possam renegociar até setembro, dando carência de até 60 dias para o pagamento das parcelas que vencem. Imediatamente, o BV aderiu a essa estratégia e já repactuamos mais de 200 mil contratos. Essa demanda deve continuar alta durante todo o mês de abril. Em cartão de crédito, por exemplo, reduzimos à metade a taxa de juros do parcelamento de fatura.

Comprar automóvel deixou de ser objeto de desejo para muitas pessoas. Essa crise não vai afetar a demanda futura, quando tudo isso passar?

Antes da crise, a gente via uma tendência global de crescimento de demanda por carros, sobretudo nos mercados emergentes. No nosso caso específico, como nos concentramos na classe média compradora de carros usados, todos os indicadores mostram que essa frota ainda crescerá por muitos anos. Quando se entra com tecnologia - carro elétrico, autônomo, por exemplo -,  a conclusão é a mesma. De forma ampla, a gente vê que a humanidade ainda precisará de carro.

Como a crise do coronavírus afetará o consumo? 

De duas formas. Uma, no segmento que já via uma menor posse de carro. Em alguns países desenvolvidos, a média de posse caiu de dois para um em famílias de classe média alta. Da outra, estamos vendo serviços de e-commerce explodindo. Essa própria crise gera oportunidades de emprego. A curto e médio prazos, a frota no Brasil ainda cresce. Nas crises anteriores, o mercado de carros usados foi muito resiliente.

E a demanda por crédito ao atacado?

No atacado, o efeito é exatamente inverso. Houve uma explosão de demanda, com muitas empresas querendo reforçar seu caixa. Aqui, no mundo de atacado, vimos demanda crescente. Nossa carteira está concentrada em empresas de maior porte e não vimos maior degradação dessas carteiras.

O BV tem se diversificado há algum tempo para evitar ficar concentrado em poucos setores, certo?

O BV tem diversificado os negócios. Somos o banco mais conectado com startups e fintechs no País. Usamos essa abertura para financiar equipamentos de energia solar por meio da parceria com a maior empresa deste setor, a Portal Solar. Financiamos crédito universitário privado também com a maior, a PraValer. O pequeno empreendedor individual, por meio da parceria com o Neon.

Pretendem ampliar parcerias com fintechs?

Fomos os primeiros a fazer parceria com fintechs. Em 2017, firmamos parceria com a Guiabolso, maior aplicativo de educação financeira do País. Hoje, temos 170 startups e fintechs que utilizam uma das nossas 400 Apis (interface de aplicativos). O BV já pratica open banking. Dessas 170, classificamos 25 como parceiras estratégicas. Aí entram a Neon, Guiabolso, o PraValer.

Como o sr. vê a questão do isolamento para a economia?

Acho um debate difícil. Aqui no BV estamos tentando seguir as melhores orientações das autoridades. Tem um ponto da crise, que no debate se perde, que é a correlação da solução estrutural do problema de saúde com a solução estrutural da economia. Se tiver sentimento de agravamento da saúde, mesmo que se baixe uma lei, as pessoas não vão sair às ruas.

O BV planejava a abertura de capital. Como ficou? Outros investimentos de expansão do banco foram cancelados?

Aqueles investimentos que tinham previsão de resultados muito longos ou incerteza muito grande, nós seguramos. Deixamos mais para o futuro. Fizemos doação de equipamentos e hospitais com o orçamento que seria usado para marketing. Não faz sentido fazer campanha de marketing neste momento. Então, utilizamos esses recursos para as doações. O BV doou R$ 30 milhões para ajudar no combate à pandemia da covid-19 e deu início a uma campanha para arrecadação de produtos que serão destinados para compra de insumo hospitalares e distribuição de itens de primeira necessidade.

E o IPO?

Em relação ao IPO, ficamos tranquilos porque sempre falamos que a operação estava sempre sujeita às condições do mercado. Não imaginava condições de mercado tão adversas. O IPO, no nosso caso, era menos para gerar recursos para o banco, e mais um movimento de liquidez dos dois acionistas (grupo Votorantim e Banco do Brasil). Então, foi cancelado.

Esse projeto será retomado?

É muito difícil prever ainda.

Como será a relação do BV com o home office daqui para frente?

Já vínhamos fazendo isso. Um quarto já trabalhava assim. Também fazíamos rodízio com os outros que não estavam. O que a gente aprendeu nesta crise é que dá para fazer muito mais. Tem um lado muito humano, que é dividir o nosso tempo com a nossa família.

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