Queda no superávit eleva receio com situação fiscal

Analistas de bancos estrangeiros digeriram os resultados fiscais do setor público do Brasil em julho, que mostraram uma queda do superávit primário acumulado em um ano para 4,33% do PIB, e não gostaram nada dos números. Embora não acreditem que a meta de 4,25% do PIB para este ano esteja seriamente ameaçada, eles alertam que os crescentes gastos do governo colocam cada vez mais em risco a situação fiscal a partir de 2007.Paulo Leme, economista do Goldman Sachs, observou que o cumprimento da meta em 2006 não é a questão mais importante. "O desafio real é como promover uma alocação eficiente de recursos através da redução da carta tributária e limitar as grandes transferências de recursos para alguns grupos alvos através do orçamento, o que estimula o crescimento", disse. "Além disso, um superávit primário menor impede uma redução mais rápida da relação entre a dívida e o PIB, desviando assim recursos do setor privado que financiariam investimentos."Segundo Leme, os dados de julho ressaltam a "drástica expansão no gasto primário", que de certa maneira está relacionada ao ciclo eleitoral no País. "Isso poderá tornar mais difícil para o próximo governo a manutenção do superávit em 4,25% do PIB, particularmente se o crescimento do PIB se desacelerar em conjunto com o menor ritmo de atividade global", afirmou. Luiz Cezario, economista do HSBC, observou que embora os resultados fiscais de julho tenham tido um impacto neutro sobre os mercados brasileiros, novos declínios no superávit primário poderão gerar maior preocupação. "Acreditamos que a meta fiscal será atingida novamente neste ano, mas a forte tendência de expansão nos gastos públicos é uma preocupação e indica que o novo governo enfrentará crescentes dificuldades para manter um superávit primário alto por um horizonte longo se essa tendência não for revertida num futuro próximo", disse Cezário. Custo das ReservasO economista ressaltou que outro ponto importante dos resultados fiscais anunciados ontem foi o comportamento dos pagamentos de juros, que cresceram ligeiramente de 7,90% do PIB para 7,96%, apesar da queda da Selic nos últimos meses. Isso, segundo ele, foi causado principalmente pela política de fortalecimento de reservas em moeda estrangeira. "Como o Brasil ainda tem déficits nominais, as compras do Banco Central nos mercados de câmbio internacionais precisam ser financiadas por emissões adicionais de dívida pública, provocando custos fiscais significativos, pois a taxa de juros paga pelo Tesouro ainda é muito superior à taxa recebida pela remuneração das reservas", explicou. Segundo Cezario, o aumento das reservas internacionais contribui na redução dos riscos associados à liquidez e solvência externa, mas essa estratégia elevou os custos fiscais no Brasil. "O recente aumento no déficit nominal apesar da prolongada redução dos juros no País é um sintoma disso", afirmou. "Isso tem impedido que a queda da relação entre a dívida pública líquida e o PIB seja mais rápida, independentemente da manutenção de um superávit primário alto e do gradual declínio das taxas de juros reais."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.