Tiago Queiroz/Estadão
Renato Siqueira, 43 anos, profissional de comunicação, passou a investir em criptomoedas durante a pandemia de covid-19 Tiago Queiroz/Estadão

Queda no valor das criptomoedas pega investidores de surpresa

O investidor Renato Siqueira passou a investir em bitcoin em busca de maiores retornos do que na renda fixa, mas sem colocar todo o dinheiro em criptoativos; analistas recomendam ter até 5% desses ativos na carteira de investimentos

Lucas Agrela, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2022 | 14h00

Quem apostou no mercado de criptomoedas nos últimos anos sabe que terá de esperar para recuperar as perdas dos últimos meses. Renato Siqueira, 43 anos, profissional de comunicação, passou a investir em criptomoedas durante a pandemia de covid-19. Com o dinheiro que gastaria em viagens, resolveu comprar ativos mais arriscados e com potencial de retorno mais alto do que a renda fixa.

Com pequenos aportes ao longo de pouco mais de um ano, atingiu o total de R$ 23 mil investidos em bitcoin, ethereum e outros criptoativos menos populares. Percebendo uma tendência de queda ainda no fim do ano passado, sacou R$ 3 mil para viajar e pagar contas, deixando o restante investido. 

Após uma expressiva queda do mercado de criptomoedas, o valor investido por Siqueira é atualmente de pouco mais de R$ 10 mil. Observando o movimento, decidiu então converter grande parte das suas criptomoedas para ativos vinculados ao dólar americano para reinvestir quando o mercado chegar ao fundo do poço e buscar uma recuperação.

“Não sinto que perdi o dinheiro. Pelo menos não agora. Estou esperando o melhor momento para reinvestir. Meu pensamento sobre criptomoeda é que quanto mais cair, melhor, porque eu posso esperar a valorização. Vejo como uma oportunidade de ganhar mais dinheiro do que no Tesouro Direto, mas não tenho todo meu patrimônio em criptomoedas”, diz. “Acredito que o mercado de criptomoedas pode subir e que eu tenha um dinheiro a mais no futuro.”

Alocação de até 5% da carteira

Entrar em um mercado em crise exige conhecimento e cuidado, segundo Luiz Pedro Andrade, analista de criptoativos da casa de análises Nord Research, que recomenda o investimento de olho no longo prazo. Andrade acredita que as criptomoedas podem dar retorno aos investidores dentro de até quatro anos. Porém, é preciso cuidado na hora de investir, limitando o investimento em criptomoedas a um porcentual pequeno da carteira.

“Estamos em um bear market (mercado em crise) diferente dos anteriores no mercado de criptomoedas por causa do aumento de juros das economias mais fortes, que costumam levar mais capital para criptoativos”, diz ele. “Fora isso, com o ciclo de alta extenso de dois anos no mercado, as pessoas têm mais capital alocado que pode ser vendido.”

O analista recomenda investir em criptomoedas mais conhecidas, como o bitcoin, e a alocação de uma parcela bem pequena da carteira nesses ativos: “Não vale ter mais de 5% da carteira em criptomoedas, e os iniciantes devem ter só 2%”, diz.

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Mercado se prepara para ‘inverno das criptomoedas', com temor de recessão nos países ricos

Só na semana passada, esses ativos digitais perderam mais de US$ 300 bilhões em valor de mercado; analistas dizem que, quem puder, deve esperar para vender

André Marinho e Lucas Agrela, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2022 | 14h00

A postura mais firme dos bancos centrais dos países ricos no combate à inflação, com altas nos juros que deixam a renda fixa mais atraente, tem abalado o mercado de criptomoedas. Somente na última semana, o setor perdeu nada menos do que US$ 300 bilhões em valor de mercado. Com a desvalorização, a quantia total desses ativos virtuais perdeu a marca de US$ 1 trilhão pela primeira vez desde janeiro de 2021 e ronda os US$ 900 bilhões, de acordo com dados do CoinMarketCap.

O bitcoin despencou do nível de US$ 30 mil por unidade, no qual estava estabilizado há cerca de um mês, para perto de US$ 20 mil. O principal criptoativo do planeta acumula desvalorização superior a 50% em 2022 e opera nos menores níveis desde o fim de 2020, com valor de mercado de US$ 400 bilhões – distante do pico histórico de US$ 1,2 trilhão há um ano.

“Os temores sobre a inflação galopante e o fim abrupto da era do dinheiro barato levaram as criptomoedas a um precipício, à medida que os investidores se afastam de ativos arriscados", diz a analista Susannah Streeter, da corretora britânica Hargreaves Lansdown.

O catalisador do choque atual foi a divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) americano, que saltou 8,6% na comparação anual de maio e subiu ao maior patamar desde dezembro de 1981. A alta dos preços nos Estados Unidos sepultou as esperanças de que a escalada inflacionária no país pudesse ter atingido o pico e renovou os riscos de estagflação – período de crescimento econômico lento combinado com inflação em alta.

Ainda mais importante para investidores, o quadro provocou um rearranjo nas expectativas para os planos do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Na quarta-feira, 15, a autoridade monetária se viu forçada a abandonar o compromisso em subir juros em meio ponto porcentual e promoveu uma elevação de 0,75 ponto, o maior aumento em uma reunião de política monetária desde 1994. Com isso, o mercado financeiro já estima que a taxa básica de juros dos Estados Unidos atinja um pico acima de 4% ao ano em 2023, mais que o dobro da faixa atual entre 1,50% a 1,75%. 

Um longo inverno

O derretimento das moedas digitais levou muitos especialistas do setor a classificarem o contexto atual como um “inverno das criptomoedas". O analista Edward Moya, da corretora Oanda, avalia que o risco de recessão nos Estados Unidos deve manter as criptomoedas em valores mais baixos, algo que também tem afetado as ações na Bolsa. “Os crescentes temores de recessão estão prejudicando o apetite por ativos de risco e isso faz com que os investidores de criptomoedas permaneçam cautelosos em comprar bitcoin”, diz.

Em meio ao panorama desafiador, as principais empresas do setor se preparam para uma crise que pode ser duradoura. A Coinbase demitiu 18% de sua força de trabalho e sugeriu que novos cortes podem ser necessários. 

No Brasil, o grupo 2TM, dono do Mercado Bitcoin (uma das maiores corretoras no País), demitiu 90 dos cerca de 750 funcionários no começo do mês. A empresa também apontou que o cenário financeiro global, com alta de juros e da inflação, foi uma das razões para o enxugamento da equipe. "O cenário exigiu ajustes que vão além da redução de despesas operacionais, tornando-se necessário também o desligamento de parte de nossos colaboradores", afirmou a empresa em nota na época. 

Já a plataforma de empréstimos de criptoativos Celsius Network suspendeu os saques de depósitos, com objetivo de “estabilizar a liquidez e as operações enquanto tomamos medidas para preservar e proteger os ativos”. Segundo a empresa, a decisão reflete “as condições extremas do mercado”.

Atualização: Diferentemente do informado previamente, a corretora Binance não demitiu 18% de seus colaboradores, e sim a concorrente Coinbase. A reportagem foi atualizada. A Binance informou que está contratando 2.000 novos colaboradores.

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