Ueslei Marcelino/ REUTERS
Ueslei Marcelino/ REUTERS

Queimadas podem afetar imagem e exportação do agronegócio brasileiro

Segundo o consultor, situação é de apreensão e há risco de suspensão de compras de produtos, sobretudo pela Europa, mas, nesse caso, motivação ambiental 'seria apenas um pretexto, a questão é de concorrência mesmo'

Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2019 | 11h19

A possibilidade de o setor agropecuário brasileiro ter a imagem manchada no exterior por causa das queimadas na Amazônia, cujas imagens ganharam o mundo, "é preocupante", diz o sócio-diretor da Scot Consultoria, Alcides Torres. "Agora que o Brasil, depois de anos, conseguiu conquistar o mundo e o mercado externo, a situação é de apreensão", avalia o consultor ao Broadcast Agro. "Isso pode afetar as exportações do agronegócio brasileiro, sim", confirma.

Eventuais suspensões de compras dos produtos brasileiros podem vir dos países e blocos econômicos de maior poder aquisitivo, sobretudo a Europa, continua Torres, "não tanto pela motivação das minorias ambientalistas, que seria apenas um pretexto", observa. "A questão é de concorrência, mesmo", diz ele, acrescentando que é "praticamente impossível" a Europa, que se situa em região de clima temperado, concorrer com commodities, em termos de preço, produzidas em clima tropical como no Brasil. "A produção de boi a pasto e de grãos, com o nível de insolação que a gente tem aqui, é difícil de bater em termos de custos de produção", diz Torres. "Por isso acredito que, sob o argumento conservacionista, a Europa pode, sim, suspender as compras, embora o real motivo seja a extrema competitividade do Brasil, pura questão econômica."

O principal parceiro comercial brasileiro, a China, embora precise das commodities produzidas aqui, tem sido cada vez mais rigorosa. "Eles (os chineses) só compram carne de bois abatidos até os 30 meses", exemplificou Torres, informando que eles fiscalizam carcaça por carcaça, fazendo verificação bucal em cada uma para checar a idade dos animais. "Se virem algum defeito, desclassificam o lote inteiro." Para Torres, embora os chineses já tenham entendido a necessidade de alimentar a sua população para ter paz, "não vão dar moleza" para o Brasil.

As preocupações ambientais na China também são crescentes, partindo principalmente das classes mais abastadas do gigante asiático. "Ali, só a classe média dá dois 'brasis'", diz o consultor, indicando que é dessa parcela da população que virão cobranças ambientais para o agronegócio brasileiro. "Eles seguem regras, mas também exigem que as regras sejam cumpridas pelos países exportadores, lembrando que do ponto de vista do mercado eles são poderosíssimos." Torres lembra, ainda, que é importante que o Brasil mantenha o mercado chinês não só pela China, mas pela Ásia como um todo, principalmente por países como Laos, Camboja, Vietnã e Tailândia.

Em relação ao mercado africano, o sócio-diretor da Scot diz que os países do continente estão "em outro estágio, ainda enfrentando a fome" e, com isso, "considerações ecológicas perdem o sentido".

Quanto às polêmicas declarações do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, sobre a Amazônia, o consultor da Scot diz que "dão medo", mas que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem dado declarações para "amenizar os efeitos (das falas de Bolsonaro)". "Ele tem optado por respostas mais técnicas, parou de dar respostas políticas e emocionais", o que Torres considera positivo.

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