Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

‘Quem castiga é os avessos’

A recuperação da economia deixou de ser apenas uma aposta. Já está demonstrada em números sólidos

O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2017 | 16h00

A recuperação da economia deixou de ser apenas uma aposta. Já está demonstrada em números sólidos.

Quem olhou para o resultado do PIB do terceiro trimestre divulgado nesta sexta-feira, pode ter ficado com a impressão de que o avanço não passou de coceirinha: apenas 0,1% sobre o segundo trimestre.

Curiosamente, desta vez, o resultado mais relevante foi visto pelo retrovisor. O IBGE revisou para mais tanto os resultados de 2016 (queda de 3,5% e não de 3,6%), como também os dos dois trimestres deste ano. O efeito mais importante dessas revisões é a nova percepção de que, em outubro, a economia já estava num patamar superior ao imaginado antes. Foi como se PIB do último trimestre estivesse ficado 0,6% acima do PIB de 2016.

No entanto, entre os números mais relevantes estão o bom avanço da indústria (mais 0,8% sobre o segundo trimestre), o aumento do consumo das famílias (1,2% sobre o trimestre anterior) e, o expressivo crescimento do investimento (1,6% sobre o trimestre anterior).

Não cabe ficar apenas com o passado. Há bom número de indicações de que a recessão ficou para trás. As vendas no varejo, por exemplo, mostram aceleração anual de pelo menos 2,0%, coerente com o aumento da ocupação (emprego) e com a sólida recuperação do poder aquisitivo: a inflação, inferior a 3,0% em período de 12 meses, está corroendo bem menos o salário.

Se isso for acoplado ao excelente desempenho das contas externas, fica composto o ambiente técnico, bastante favorável à recuperação.

A ameaça principal vem de outro lado. Vem da prostração das contas públicas e das incertezas políticas. “Quem castiga nem é Deus, é os avessos”, escreveu Guimarães Rosa. Esses dois fatores aí é que são os avessos.

O conserto das contas públicas não precisa agora de um retumbante superávit, embora a melhora da economia também tenda a empurrar a arrecadação. Precisa apenas de uma direção e da certeza de que o rombo no casco do navio está sendo consertado.

O avesso aqui está no fato de que os políticos parecem desinteressados de equacionar o déficit maior, o da Previdência Social. A decisão de empreender a reforma, ainda que precária e aguada, vai sendo empurrada com a barriga, sabe-se lá até quando.

A outra grande incerteza está no processo e no resultado das eleições. Estamos a apenas dez meses do primeiro turno e não há indicação de quem serão os principais candidatos à Presidência da República, nem quais serão as alianças que prevalecerão até lá.

Alguém poderia argumentar que é improvável que a política econômica a ser adotada pelo novo governo, seja ele quem for, volte às lambanças da nova matriz macroeconômica do governo Dilma e que, desse ponto de vista, importa menos quem envergue a faixa presidencial.

Não é bem assim. Como será inevitável a adoção de reformas dolorosas, o novo presidente terá de contar com o apoio do Congresso. E, nessas condições, será preciso ver qual será sua composição e que disposição terá de reverter os tais avessos.

>> CONFIRA

O IBGE divulgou números mais atualizados (são de 2016) sobre a participação de cada setor no PIB. Os serviços, por exemplo, já pesam mais de 73%. E continua a desidratação da indústria: sua participação no PIB, que em 2008 era de 27,3%, agora não passa de 21,2%. Se for considerada apenas o segmento de transformação, seu peso, que foi de quase 16,5% em 2008, agora não passa de 11,9%. Já não dá para contar com força no avanço do PIB sem aumento significativo no setor de serviços.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.