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Quem compra o Brasil?

Investidores gostam de segurança. E eles estão cada vez mais atentos

Adriana Fernandes*, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2020 | 05h00

O assustador episódio do vídeo com a fala de inspiração nazista do agora demitido secretário de Cultura Roberto Alvim mostra que a melhora econômica de um País não é suficiente e não pode servir de escudo para aberrações em outras áreas do governo.

Não há como negar que o vídeo, que levou o presidente Jair Bolsonaro a demitir o seu auxiliar e provocou tanta indignação (inclusive de apoiadores do próprio governo), manchou ainda mais a imagem do País.

É bem verdade que a visão do mundo sobre Brasil já era ruim por diversas razões: corrupção, violência nas grandes cidades, política ambiental desastrosa... Mas ficou muito pior nesta sexta-feira depois da repercussão do vídeo de Roberto Alvim que parafraseia o ministro da Propaganda de Adolf Hitler.

Choca pensar que uma pessoa com esse perfil estava ocupando um cargo importante na área cultural no governo e sendo pago pelo contribuinte brasileiro.

É verdade que indicadores econômicos estão melhores, depois de um período longo de recessão. Uma reforma robusta da Previdência foi aprovada, os juros caíram de forma significativa, o crédito aumentando e a atividade econômica apontando uma luz no caminho até agora titubeante da recuperação. Outras reformas estão no Congresso para serem aprovadas.

É esse retrato que o ministro da Economia, Paulo Guedes, e sua equipe pretendem mostrar no Fórum Econômico Mundial de Davos em busca de atração dos investidores para financiar a retoma do crescimento mais forte do Brasil. 

No ano passado, depois das primeiras semanas de governo, Guedes chegou a Davos com a reclamação repetida à exaustão nos encontros do fórum que imagem ruim do recém-formado governo Bolsonaro era injusta e provocada pela propaganda externa da esquerda brasileira que acabara de perder as eleições no País. 

O frustrante discurso de seis minutos do presidente no palco central do encontro, com a presença de outros líderes não ajudou a mudar a fotografia, como queria o ministro.

Pois bem, o ministro planejava agora viver outro momento para mostrar os resultados. Não há impacto imediato dos investimentos. Ninguém espera encontros cancelados no fórum. Longe disso. Mas há, sim, preocupação para economia. Os ruídos trazem desconforto.

Investidor gosta de segurança. E eles estão cada vez mais atentos, principalmente os grandes fundos de investimento, em indicadores que vão além da situação financeira e do tamanho do crescimento do País. Estão focados também na aplicação de políticas ambientais, sociais e indicadores de governança. 

Assim como o cidadão comum está cada vez mais atento ao que come e compra, o investidor começa a fazer o mesmo em temas como diversidade, meio ambiente, liberdade religiosa.

O Brasil está na contramão em muitos desses temas. O futuro que se vê, no momento, para o Brasil é o de um país não só dividido, mas que mantém a corda esticada o tempo todo. 

A perspectiva no momento é que esse clima de estresse vai se prolongar e se acirrar ao longo do ano até as próximas eleições. A caminho dos Alpes suíços, Guedes teve que sair a campo. “Estamos indo para Davos para afirmar o vigor da democracia brasileira”.

Quem compra o Brasil? Não dá para dar reset nesta sexta-feira. Não foi coincidência.

* É JORNALISTA 

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