Gabriela Biló/ Estadão
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Laura Karpuska
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Quem diminui o peso das palavras presidenciais vai ter um governo que diminui as instituições

Papel do mercado é antecipar parte do risco futuro para hoje, por meio dos preços. O risco institucional não está no preço. Ainda

Laura Karpuska*, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2021 | 04h00

O risco brasileiro precificado pelo mercado financeiro subiu nos últimos meses. A inclinação da curva de juros – medida pela diferença entre o juro precificado de 10 anos e de 1 ano – atingiu valor máximo no dia 13 de maio de 2021. Foi nessa data que o ex-assessor Fábio Wajngarten admitiu na CPI que o governo havia ignorado ofertas de vacinas Pfizer. Desde então, o risco precificado caiu, mas continua acima da média histórica. 

Se pensarmos no nível do juro longo, ainda estamos 6 pontos porcentuais abaixo do pico de 16% atingido durante o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. O contexto macroeconômico global e local mudou, claro, o que explica parte dessas diferenças. Mas não o todo. 

Há uma percepção crescente entre o empresariado – confirmada por manifestos de empresários que se amontoam a cada semana – de que este governo é, no mínimo, incompetente. Parte do risco precificado revela um pouco dessa preocupação. Precatórios, aumento do fundo eleitoral, Bolsa Família fora do teto são temas que começam a ganhar a atenção dos analistas. Antes tarde do que nunca.

Mas a precificação atual não parece medir, não com alta probabilidade, uma derrocada institucional como a que estamos vivendo. Bolsonaro dizer que vai ter uma resposta fora da Constituição assustou. Mas esse medo não está no preço. Ameaças à democracia reduzem a capacidade de previsibilidade dos agentes econômicos, criam incerteza sobre contratos e afetam a estabilidade – e tudo isso custa caro para o crescimento. 

Acabo de ver o desfile militar preparado por Bolsonaro na terça-feira, mesma data em que a Câmara realizou votação sobre o voto impresso – que não passou, mas explicitou que grande parte dos deputados apoia a medida. O desfile segue a continuidade do discurso golpista do presidente a respeito das eleições de 2022. E foi vergonhoso, em várias dimensões. Pela sua estética, pelo seu significado e pela normalização do ato por grande parte dos cidadãos. O desfile foi literal e figurativamente uma cortina de fumaça para anúncios difusos sobre a tungada nos precatórios e o redesenho do programa Bolsa Família. Redesenho feito sem estudo de impacto e sem considerar a origem de recursos para o programa. 

Alguns membros do establishment parecem ainda acreditar que o presidente “só fala”. Como se palavras de desordem vindas da cadeira máxima da República não fossem para ser levadas a sério. É uma atitude bastante cordial nossa aceitar que palavras dos nossos representantes não tenham peso. É ignorar a institucionalidade da República. Quem diminui o valor das palavras de um presidente está fadado a ser governado por pessoas que diminuem o peso das instituições. 

Para os operadores de mercado, é mais fácil quantificar um risco fiscal ou inflacionário. Especialmente numa democracia jovem como a nossa. É confuso o que o presidente pode ou não fazer de forma a quebrar a democracia. Corrupção é permitido? Até que ponto? Falar que não vai aceitar resultados de eleição pode? Mas e se for “só na fala”? Mentir em cadeia nacional a respeito de protocolos sanitários no meio de uma pandemia pode? Nesse quesito, escolho ser altamente conservadora. Se o presidente diz que vai dar um golpe, eu assumo como alta a probabilidade desse evento e começo a trabalhar a partir desse cenário. 

Algumas pessoas do setor produtivo parecem entender que o governo não é apenas incompetente, mas também atua de forma a enfraquecer as instituições democráticas do País. Parte do mercado financeiro acredita que a fraqueza das instituições democráticas não deve ser levada em consideração para um aumento do prêmio de risco do País, desde que a economia fique blindada disso. Outros parecem preocupados, mas apostar nisso e perder um eventual rally – movimento de alta dos preços dos ativos –, ainda é muito arriscado. 

Sempre que escuto essas percepções, lembro do grande livro de Éric Vuillard, A Ordem do Dia. No romance histórico, Vuillard escreve como parte do empresariado alemão apoiou líderes nazistas mesmo os considerando vulgares e medíocres. Apesar das claras diferenças entre esse passado e o nosso presente, a vulgaridade e o pacto de mediocridade continuam exibindo sua pujança. 

Diante disso, o papel do mercado é antecipar parte do risco futuro para hoje, por meio dos preços. O risco institucional é totalmente material. Mas não está no preço. Ainda.

*PROFESSORA DO INSPER, PH.D. EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK EM STONY BROOK

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