Koji Sasahara/AP
Koji Sasahara/AP

Quem é Carlos Ghosn, executivo brasileiro acusado de sonegação fiscal no Japão

Considerado uma lenda entre executivos por reerguer a companhia japonesa Nissan, Ghosn passou 108 dias preso no Japão até ser liberado nesta quarta-feira, 6

Agências Internacionais

06 de março de 2019 | 17h05

Sob pagamento de uma fiança de R$ 33,8 milhões, o executivo Carlos Ghosn, que completa 65 anos no sábado, deixou nesta quarta-feira, 6, a prisão em que se encontrava há 108 dias, no Japão. Seu julgamento, ainda não marcado, deve ocorrer em menos de seis meses e o ex-presidente de um dos maiores conglomerados automotivos do mundo - a aliança entre Renault, Nissan e Mitsubishi - deve permanecer em Tóquio até a sentença da justiça japonesa.

O empresário é acusado de apresentar declarações de renda falsas às autoridades da Bolsa de Valores e de abuso de confiança em detrimento da montadora Nissan, onde teve início a investigação. O executivo considera que foi vítima de um "complô" da Nissan para provocar o fracasso de seu projeto de aproximação com a Renault.

Mas quem é o executivo que já foi considerado uma lenda no mundo corporativo automobilístico e hoje enfrenta problemas com a justiça?

Nascimento no Brasil

A família de Ghosn tem origem libanesa. Empresário, seu avô mudou-se para o Brasil e administrou empresas de borracha, em Rondônia. Em muitas viagens entre o Líbano e o Brasil, seu pai, Jorge Ghosn, casou-se Rose, uma nigeriana também de origem libanesa, e se estabeleceram em Porto Velho, onde Carlos Ghosn e sua irmã Claudine nasceram.

Aos dois anos, Ghosn contraiu uma doença, segundo ele próprio descreve em uma biografia, por beber água imprópria para o consumo. Por recomendação médica, mudou-se para o Rio de Janeiro. Sem se recuperar plenamente, aos seis anos, mudou-se com a mãe e a irmã para a casa de sua avó paterna, em Beirute.

Ghosn estudou em um colégio jesuíta francês na capital libanesa, até completar 17 anos. A essa altura, já falava português, árabe e francês. Foi estudar na França, onde graduou-se pela Escola Politécnica e depois, na Escola de Minas de Paris.

Carreira profissional

Após a graduação, Carlos Ghosn trabalhou na companhia de pneus francesa Michelin por 18 anos. Chegou a ser diretor de operações na América do Sul, retornando ao Rio de Janeiro. Após o sucesso na divisão, foi promovido a diretor de operações da sede norte-americana. 

Em 1996, foi contratado pela Renault, que enfrentava dificuldades financeiras, como vice-presidente de compras da companhia, além de ter sido nomeado chefe da divisão sul-americana da corporação.

Ghosn teve papel fundamental na união da Renault com a Nissan, em 1999. Após anos de êxito na França, Ghosn chegou ao Japão com fama de superestrela corporativa. Um dos raros casos de estrangeiro que conseguiu se manter no topo de um grupo japonês, o brasileiro se tornou tão célebre que sua história de vida chegou a ser contada em no estilo anime. A reverência tem razão de ser.

Na Nissan, Ghosn é creditado por salvar a japonesa do colapso financeiro. Ele implementou uma série de mudanças na companhia, incluindo o fechamento de cinco fábricas, o que resultou na demissão de 21 mil trabalhadores. Na época, ganhou o apelido de ‘cost killer’, ou ‘exterminador de gastos’, em tradução livre.

O executivo defendia que o mercado global de veículos de passeio era muito pulverizado. Por isso, adicionou a Mitsubishi à aliança. Outra “causa” do executivo foi o investimento em carros elétricos antes das rivais.

O grupo também inclui a Mitsubishi desde 2016. Juntas, as três montadoras venderam 10,8 milhões de unidades em todo o mundo em 2017 – mais do que o volume individual de Toyota, Volkswagen e GM.

Ele foi preso em novembro de 2018 e passou 108 dias na prisão. Sua rotina no cárcere era rigorosa, segundo relatos de pessoas próximas ao executivo. No Líbano, o executivo ganhou outdoors em solidariedade, após sua prisão.

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