Quem é mais realista? O BC ou o mercado financeiro?

Análise: Alcides Leite

É PROFESSOR DA TREVISAN ESCOLA DE NEGÓCIOS, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2011 | 03h04

A pesquisa de Expectativa de Mercado, mais conhecida como Relatório Focus, é realizada semanalmente pelo Banco Central. Nessa pesquisa, a autoridade monetária ouve a opinião das 90 principais instituições do mercado sobre suas expectativas em relação ao comportamento de diversos indicadores, como inflação, PIB, taxa de desemprego, taxa de câmbio, etc...

Na última pesquisa, feita durante a semana passada, e divulgada ontem, chama a atenção a expectativa do mercado em relação à inflação. Segundo a pesquisa, o mercado acredita que a média do IPCA para 2011 será de 6,52%, número superior ao teto da meta estipulado pelo Conselho Monetário Nacional, que determina como meta a inflação de 4,5% com tolerância de 2 pontos porcentuais para cima ou para baixo.

Se, de fato, a inflação de 2011 for superior a 6,5%, o presidente do Banco Central deverá escrever uma carta aberta para o ministro da Fazenda, explicando as razões do descumprimento da meta e as medidas que serão adotadas para que a inflação de 2012 retorne ao limites estabelecidos. São as condições impostas pelo sistema de metas de inflação vigente no País desde 1999.

Nos últimos 13 anos, de 1999 a 2011, o BC conseguiu atingir a meta nove vezes. Em 2001, 2002 e 2003, a inflação superou o teto; 2011 pode ser a quarta vez que o BC não consegue manter a inflação dentro do intervalo determinado.

O resultado da última pesquisa Focus preocupa porque a expectativa do mercado em relação à inflação é um dos componentes que acabam influenciando no comportamento da própria inflação. No seu site, o próprio BC informa que: "um dos objetivos centrais do regime de metas é justamente ancorar as expectativas de mercado que, de forma geral, orientam o processo de formação de preços na economia".

Ademais, a previsão do Focus tem forte embasamento real. Mesmo com as dificuldades dos países desenvolvidos, a economia global continuará crescendo em 2011. Países como China e Índia vão aumentar sua demanda por commodities agrícolas e minerais, fato que impede a redução acentuada dos preços destes produtos.

Os preços dos produtos comercializáveis, os chamados tradeables, que são determinados pelo mercado internacional e cotados em dólares, são responsáveis por cerca de 25% da taxa de inflação ao consumidor. Igual parcela é atribuída aos preços administrados (energia elétrica, água, pedágio, combustível, etc...), que são reajustados pela inflação passada. O resto é composto pelos preços livres, que obedecem diretamente a lei da oferta e da demanda.

Com preços comercializáveis ainda em alta, com preços administrados pressionados pela inflação passada, e com os preços livres pressionados pela expectativa de mercado e pelo crescimento real da renda familiar, não podemos acreditar que a pressão inflacionária vai ser substancialmente reduzida nos próximos meses.

O presidente do BC continua afirmando que a inflação de 2011 ficará dentro do intervalo da meta, mas pela primeira vez o mercado financeiro acredita que ela furará o teto. Quem está sendo mais realista? A situação indica que, por mais volúvel que seja, desta vez parece que o mercado está sendo bem mais realista que o BC.

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