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Amir Khair
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Quem está com a razão?

O maior destaque nos debates eleitorais no 1.º e 2.º turnos nas questões econômicas tem sido os temas ligados à inflação, que pesa no bolso de todos e, no crescimento, que ameaça o emprego. Vale trazer à reflexão o que ocorreu e vem ocorrendo sobre esses dois importantes temas que repercutem sobre a vida de todos nós. Os candidatos se acusam e comparam administrações nesses temas. Mas quem está com a razão? Vejamos.

Amir Khair, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h04

Inflação. A inflação no governo Dilma sempre esteve no entorno de 6% em cada ano e, se neste ano fechar em 6,3%, como preveem as análises, a média anual de seu governo será de 6,1% e em nenhum ano ultrapassou o teto da meta de 6,5%. Vale comparar com seus antecessores.

No primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso (1995/1998), o Banco Central foi presidido sucessivamente por Pérsio Arida, Gustavo Loyola e Gustavo Franco, com inflação média anual de 9,7% e, em decorrência dos efeitos do Plano Real, vinha caindo a cada ano desde 22,4% em 1995 até chegar em 1,7% em 1998. No segundo mandato de FHC (1999/2002), com Arminio Fraga na presidência do BC, é adotado o regime de metas de inflação, interrompida a tendência de queda, voltando a subir até 12,5% em 2002, com média anual de 8,8%. O teto da meta de inflação foi rompido em 2001 e 2002.

No primeiro mandato do governo Lula (2003/2006), a média foi de 6,4% e no segundo mandato (2007/2010) de 5,2%, em ambos sob a presidência de Henrique Meirelles. O teto da meta só foi ultrapassado em 2003. Assim, o governo Lula teve melhor desempenho tanto no primeiro quanto no segundo mandato aos correspondentes de FHC e, o governo Dilma o melhor desempenho que seus antecessores no primeiro mandato.

Assim, quando o candidato Aécio critica a inflação do governo Dilma tem de tomar cuidado. Seu indicado para a pasta da Fazenda não se saiu bem, pois operou com inflação média 44% acima (8,8 dividido por 6,1) da prevista para o governo Dilma.

Vale destacar, também, que na ocasião em que Arminio Fraga presidiu o Banco Central, a taxa de Serviços, que impacta 35% do IPCA, sempre ficou abaixo da inflação, com média anual de 3,7% contra 8,8% no governo Dilma.

Crescimento. O calcanhar de aquiles do governo Dilma foi o baixo crescimento ocorrido e por ocorrer neste ano. Se fechar em 0,4%, a média anual desse governo será de 1,7% (!). O agravante desse mau desempenho foi a frustração sobre a meta prevista para cada ano, sempre bem acima da ocorrida, o que causou danos à credibilidade da política econômica. Vale comparar com seus antecessores.

No primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, a média anual foi de 2,5% e, no segundo mandato de FHC, recuou para 2,1%. No primeiro mandato do governo Lula, a média foi de 3,5% e, no segundo mandato, ocorrido sob forte impacto da crise internacional, em vez de cair, atingiu a média anual de 4,6%. Assim, o governo Lula teve melhor desempenho tanto no primeiro quanto no segundo mandato aos correspondentes de FHC e muito acima do governo Dilma, que teve o pior desempenho face a seus antecessores.

O governo tem procurado se defender das críticas ao crescimento imputando a culpa à crise externa. Será? Certamente não. Quem poderia reclamar disso seria o ex-presidente Lula, que pegou o ápice da crise em 2009, que chegou a derrubar o crescimento para uma queda de 0,3%.

Para avaliar o impacto externo, vale observar o que ocorreu nos países emergentes, na América Latina, nos países desenvolvidos e na média mundial, comparando os primeiros quatro anos que antecederam a crise (2005/2008) com os últimos quatro anos após o ápice da crise (2010/2013), usando como fonte de dados internacionais o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Entre esses dois períodos, ocorreu queda relativa generalizada de crescimento, sendo de 15% para a média mundial, 23% para os países emergentes, 21% para a América Latina, 18% para os países desenvolvidos e 25% para o Brasil, que registrou, portanto, queda maior do que seu grupo de países emergentes, embora não muito afastado deles.

Sem dúvida, parte da falta de crescimento é devido ao fator externo, não tanto como declara o governo nem tanto quanto os que o criticam. O FMI atribui 60% de peso do fator externo no caso do Brasil. Mas há que aprofundar a discussão sobre as causas internas que atrapalham o crescimento. Infelizmente, o governo pouco informa o que pretende mudar e a candidatura oposicionista só fala em termos genéricos, preferindo focar na crítica ao que está sendo feito.

Posição. Tenho defendido nesta coluna que enquanto não for praticado no País juros compatíveis com a realidade internacional, a economia continuará travada, com contas internas e externas fortemente deficitárias. O nível internacional para a taxa básica de juros é a inflação reinante no País e a diferença entre a taxa de juros cobrada no crediário é em média ao ano de 10% nos países emergentes e 3% nos países desenvolvidos. Por aqui, a taxa básica encontra-se 4,5 pontos acima da inflação e a taxa de juros do crediário está em 103% (!), sendo de longe a principal trava ao crescimento e responsável principal pelo nível elevado de preços no mercado.

É lamentável que essa questão escape do debate econômico, e mais lamentável ainda é a absoluta falta de compromisso com políticas claras de desenvolvimento econômico desses dois candidatos.

Os debates até agora se concentraram no ataque às políticas praticadas no governo Dilma e no governo FHC. Era de se esperar que, no mínimo, no segundo turno, as propostas aparecessem com maior detalhe, mas restou a frustração com o baixo nível dessa disputa eleitoral onde os escândalos tomaram o lugar do que se pretende para o futuro do País com compromissos estabelecidos.

Delação. Finalmente, com as revelações das delações premiadas de Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef cabe punição rigorosa a todos, sem exceção, políticos, diretores e donos das empreiteiras que atuam em cartel há longa data em quase todas as grandes obras contratadas pelo setor público com o dinheiro de todos nós. Creio que temos importante oportunidade de passar a limpo o País. Vamos aguardar para ver se essas delações só terão efeito para a disputa eleitoral, ou podemos ter esperança de que a impunidade não prevaleça no País.

* Mestre e finanças públicas pela FGV e consultor

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