Quem estará na boleia?

Ciro e Bolsonaro enfrentam dificuldades para angariar apoio às suas candidaturas

Rogério L. Furquim Werneck, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2018 | 04h00

Com passagem anterior por nada menos do que seis partidos – PDS, ainda no regime militar, e PMDB, PSDB PPS, PSB e PROS, após a redemocratização –, Ciro Gomes acomodou-se, desde 2015, no PDT. E vem fazendo o que pode para acompanhar a toada dessa legenda peculiar, em que frases pitorescas de Leonel Brizola, falecido em 2004, continuam a ser cultuadas como fontes inesgotáveis de sabedoria política.

Dizia Brizola que, numa campanha eleitoral, cabe todo mundo na carroceria do caminhão, mas, na boleia, só pode estar quem for de confiança. Foi com base nessa máxima que Ciro Gomes achou oportuno esclarecer que, na montagem da aliança partidária que lhe daria sustentação na campanha presidencial, tentaria, primeiro, acordos com o PSB e o PCdoB, para assegurar “hegemonia moral e intelectual” à coalizão. E que, só então, estaria aberto a conversar, “sem qualquer tipo de peia”, com quem quer que estivesse disposto a apoiá-lo.

A declaração, feita no início de junho, foi o que bastou para envenenar as articulações que o próprio Ciro já vinha promovendo, mais à direita do espectro partidário, para angariar apoio à sua candidatura. Lideranças de partidos como o DEM e o PP não esconderam sua irritação com a inequívoca sugestão de que, no caminhão de Ciro, só conseguiriam lugar na carroceria. O que exigiu que o candidato se apressasse a dar o dito por não dito. E até mesmo se prontificasse a pedir desculpas formais a uma lista de políticos que lhe viesse a ser apresentada por Antônio Carlos Magalhães Neto, prefeito de Salvador.

A trapalhada não deve obscurecer a percepção da essência do entalo em que se meteu Ciro. A ampliação do apoio à sua candidatura, à esquerda, vem sendo dura e ostensivamente cerceada pelo PT. E seu bom desempenho nas pesquisas de intenção de voto no Nordeste corre sério risco de perder sustentação quando, afinal, o PT definir seu candidato a presidente.

Não lhe tem sido fácil, tampouco, ampliar o apoio à sua candidatura à direita. Ciro anda alardeando a intenção de conseguir um grande empresário do Sudeste, “vinculado à produção”, que se disponha a ser candidato a vice-presidente na sua chapa. Mas o que parece ter em mente, de fato, é um empresário grande vinculado à proteção.

É improvável que partidos como o DEM e o PP se disponham a apoiá-lo sem que possam se sentir confortáveis na boleia. E como poderão tais partidos, que desempenharam papel central no impeachment de Dilma Rousseff, apoiar o programa econômico de Ciro, que preconiza política de terra arrasada para o que quer que tenha sido feito pelo “governo golpista” de Michel Temer? Da reforma trabalhista aos leilões do pré-sal. Do teto de gastos à extinção dos subsídios a mutuários do BNDES. Políticas que só puderam ser aprovadas porque contaram com sólido apoio do DEM e do PP no Congresso. Que explicação poderiam dar políticos desses dois partidos a seus eleitores?

Dificuldades similares com a escolha de quem estará na boleia do caminhão enfrenta agora a candidatura de Jair Bolsonaro. Já a menos de 90 dias do primeiro turno da eleição, Bolsonaro, afinal, se deu conta de que não pode correr o risco de atravessar o período de propaganda eleitoral gratuita com míseros 10 ou 15 segundos diários de exposição no rádio e na televisão. E está visivelmente aflito com a busca de um partido de médio porte que possa apoiá-lo. 

E a que partido Bolsonaro vem oferecendo a vaga de vice-presidente em troca de apoio? Ao PR, legenda em que Valdemar Costa Neto continua dando todas as cartas. Apesar de ter sido deputado federal por sete mandatos e saltitado por nove partidos nos últimos 28 anos, Bolsonaro tem-se permitido passar por outsider, enojado com a política e a indescritível sordidez do presidencialismo de coalizão. É difícil que consiga manter essa farsa com Valdemar Costa Neto aboletado ao seu lado no caminhão.

ECONOMISTA, DOUTOR PELA UNIVERSIDADE HARVARD, É PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIO

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