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Celso Ming
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Quem joga pobre contra rico é intelectual

A esquerda tem ignorado o comportamento dos trabalhadores, que têm adotado o discurso do mérito, do "chegar lá"

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2017 | 16h30

Para o trabalhador brasileiro, o inimigo da hora não é nem o capitalista nem os coxinhas das manifestações, mas o Estado espoliador que só pensa em cobrar impostos e que inferniza a vida da população com excesso de burocracia e baixa qualidade dos serviços públicos.

Quem acompanha a vida nacional já sabia disso pela prática ou pelo bom senso. Agora, é o PT que o reconhece, por meio de uma pesquisa feita pelo Instituto Perseu Abramo, cujo título é “Percepções Valores Políticos na Periferia de São Paulo”, divulgada no site do instituto.

No dia 27 de novembro de 2016, esta Coluna havia comentado outra pesquisa feita pelo antropólogo Carlos Gutierrez, da Unicamp, objeto de sua tese de doutoramento. Nesse trabalho, feito em favelas do Rio de Janeiro, Gutierrez verificou que o trabalhador brasileiro não se identifica com o entendimento tradicional das esquerdas tupiniquins, que analisam tudo sob a óptica do conflito de classes. O trabalhador já não quer emprego, como antes; quer ser empreendedor, quer trabalhar por conta própria. Passou a dar mais valor a seu esforço e ao mérito das realizações pessoais e já não tanto à ascensão no organograma de uma empresa ou no mercado de trabalho.

A “pesquisa qualitativa” da Fundação Perseu Abramo teve o objetivo declarado de entender os fatos novos e, a partir daí, recarregar o discurso para ajudar a encaminhar o projeto político do PT. Compreendeu 63 entrevistas em profundidade com moradores das periferias que votaram no PT de 2000 a 2012, mas não em Dilma Rousseff em 2014 nem em Fernando Haddad em 2016. 

As duas pesquisas, a de Gutierrez e a da Fundação Perseu Abramo, chegam praticamente à mesma conclusão: trabalhador e patrão “estão no mesmo barco, um precisa do outro”. O antagonismo que conta não é entre ricos e pobres nem entre capitalistas e proletários, mas entre o Estado e o povo.

O que importa para o trabalhador é “chegar lá”, com empenho pessoal, que não dispensa as bênçãos de Deus, que sempre ajuda a quem cedo madruga. E, nesse ponto, as duas pesquisas apontam para a existência de novo ethos do trabalho nesse segmento da população e para “a desconstrução da noção de classes sociais”, na expressão de Gutierrez. A influência das igrejas neopentecostais é marcante, na medida em que desvalorizam a pobreza e incentivam o trabalhador a buscar sucesso profissional e recompensas nesta vida.

O que tem de ser perguntado do ponto de vista do PT é se não será preciso mudar seu próprio projeto político, se quiser ser fiel às aspirações do trabalhador, que começam a ser redefinidas. Se o inimigo é o Estado, fica claro que é preciso mudar o Estado, não para aparelhá-lo e usá-lo como instrumento de poder, mas para transformá-lo em alavanca para o desenvolvimento, a serviço dos cidadãos.

São inúmeras as implicações do diagnóstico apresentado por essas pesquisas, algumas delas não explicitadas nas conclusões do texto do Instituto Perseu Abramo: 

(1) O trabalhador das periferias não espera apoiar sua vida na solidariedade proporcionada pela organização sindical. Como pretende vencer como empreendedor, precisa de que o Estado o ajude a criar e a fortalecer seus negócios e não propriamente a lutar por direitos trabalhistas e por melhores salários.

(2) A política, tal como praticada no Brasil, não é vista como instrumento de transformação da sociedade e dos indivíduos, mas como máquina manipulada por inescrupulosos que só procuram vantagens para si ou para os interesses de quem os sustenta.

(3) Insistir em discurso que não leve isso em conta não se resume a trabalhar errado em direção a futuras derrotas eleitorais; é ignorar que a sociedade mudou e que as ideologias do passado não servem mais para explicar e transformar o mundo.

Este é um vasto tema que não é propriamente novidade. Já nos anos 70, o carnavalesco Joãosinho Trinta, que fez história na Escola de Samba Beija-Flor, advertia que “pobre quer luxo; quem quer miséria é intelectual”. Não é exatamente a conclusão a que chegaram as pesquisas, mas tem lá sua correlação.

De todo modo, elas começam a desvendar mais sistematicamente uma realidade há muito ignorada pelas esquerdas que já vinha sendo percebida por quem acompanha o comportamento das pessoas mais simples. Quem pretende modernizar o Brasil precisa cavoucar nessa direção.

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