Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

'Quem mexeu no currículo?' 'Sou extremamente exigente comigo e com tudo'

Número de contratações em setembro foi maior do que o de demissões aponta Caged

Entrevista com

ADMINISTRADOR DE EMPRESAS, DIRETOR ACADÊMICO, COFUNDADOR DA ESCOLA DE NEGÓCIOS CONTÁBEIS, AUTOR DO RECÉM-LANÇADO MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA NO MUNDO PÓS-SPED, QUARTO LIVRO DA SÉRIE BIG BROTHER FISCAL, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2011 | 03h09

Um cafeicultor amigo meu expôs seu principal problema: falta de profissionais. Em pleno período da colheita, não havia pessoas dispostas e preparadas para a atividade. Quando conseguia admitir alguém, ele ainda precisava lidar com a pouca produtividade trazida pela ausência de preparo e de disposição. Por fim, disse que o custo do trabalhador aumentou significativamente nos últimos anos.

O caso relatado é idêntico ao vivido por milhares de empresas prestadoras de serviços contábeis, fiscais, tributários e tecnológicos.

A segunda década do século 21, que se iniciou neste ano, já deixou claro a gestores e empreendedores, que estamos no meio de um "apagão intelectual", como prefiro dizer.

Para o mercado contábil, há ainda como agravante o fato de a interdisciplinariedade ter se tornado um verdadeiro pré-requisito. O perfil mínimo, no mundo pós Sistema Público de Escrituração Digital (Sped), demanda conhecimentos contábeis, tecnológicos, fiscais, gerenciais e jurídicos, algo muito além das "desejadas" habilidades de liderança, relacionamento e comunicação.

Assim, vivemos um momento paradoxal: o mercado precisando de profissionais de Terceiro Milênio, e estes tendo sua formação estruturada a partir de um modelo fordista, do século passado.

Só para relembrar, Henry Ford aplicou os princípios da administração científica de Taylor e Fayol em sua empresa e revolucionou o mundo. Temos produtos em nossas casas graças à implantação de três paradigmas fundamentais dessa escola:

1. linha de produção com a micro divisão de atividades

2. adestramento da mão de obra para a execução de tarefas simples

3. controle dos "tempos e movimentos" em busca de maior produtividade

Em outras palavras, uma estrutura organizacional hierárquica na qual há uma turma que manda e pensa, outra que obedece e vigia uma terceira com juízo suficiente para executar tudo isto.

Tal modelo ainda hoje é adotado por praticamente todas as empresas e instituições de ensino brasileiras, inclusive as entidades reguladoras da educação. O fato é que as linhas de produção de adestramento são insuficientes para ajudar na formação de profissionais do século 21.

As provas desse quadro saltam aos olhos. Uma das mais contundentes dos últimos tempos é o altíssimo índice de reprovação do exame de suficiência do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), que chegou a 69,17%. Acredito que, se houvesse outros exames para demais áreas de conhecimento, o resultado não seria muito diferente.

Para complicar ainda mais a situação, há um enorme contingente de "analfabetos funcionais digitais" no País. Pessoas que até sabem "usar o computador". Enviam e-mails, escrevem textos e até mesmo produzem planilhas, mas ainda raciocinam segundo o paradigma industrial. O problema é que a trajetória profissional na atualidade se avalia de outra forma: na grande rede, a internet, ao longo de seus inúmeros grupos de discussão, fóruns, blogs, microblogs, comunidades, redes sociais e afins.

E muita gente tem vinculado a sua vida a participações pouco edificantes, e que não poderão ser apagadas da memória pública digital. Então, este é o ponto de inflexão na história. As organizações, tampouco as pessoas, têm como fechar os olhos para esta enorme transformação planetária.

Instituições e profissionais terão de mexer em seus currículos. As primeiras, destruindo o conceito de "estrutura curricular", tão conforme com os padrões fordistas, e tomar a iniciativa de criar uma formação mais holística, socrática, enfim, realmente 2.0.

Os segundos, abandonando o conceito de "currículo digitalizado", como se este fosse apenas uma cópia, digamos, bonitinha da versão impressa, para adotar o verdadeiro "Curriculum Vitae Social" que, na prática, é apenas um "Resumé" de sua vida já registrada pelos mecanismos digitais. Enfim, o currículo não é redigido, mas construído ao longo da participação da pessoa na grande rede.

É a percepção de causa e efeitos de nossas ações, vinculadas ao ecossistema digital, que nos capacitará a dar os primeiros passos em nossa infância da Sociedade do Conhecimento, com o mínimo de tropeços e seguindo, isto sim, na direção correta.

No início eram os números. Depois, veio o ser humano - ou a importância de entendê-lo para crescer como pessoa e na carreira. Assim, se pode ilustrar os passos de Richard Vinhosa, de 41 anos, ao longo de sua vida e trajetória profissional marcada por muito estudo e trabalho. Aos 12 anos, trabalhou em uma oficina mecânica durante as férias, aos 15 deu aulas de matemática. Depois, cursou simultaneamente engenharia de produção na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e administração na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Mesmo estudando em dois cursos, conseguiu, aos 22 anos, ser estagiário em Furnas Centrais Elétricas, "Foi por concurso. Tinha uma vaga, eles erraram e me escolheram", conta rindo. Mais estudos e uma grande variedade de experiências profissionais pavimentaram seu caminho até se tornar, há pouco mais de um ano, CEO de Vida e Previdência da suíça Zurich Seguros, uma das maiores do mundo.

Como foi esse seu estágio?

Fui trabalhar numa área de planejamento de geração de energia elétrica de Furnas, cujo objetivo era planejar como deveria ser a geração de eletricidade no Brasil nos próximos dez, 15, 20 anos. Foi um bom aprendizado, porque deu a noção de longo prazo. Depois, fiz um estágio que era o mais disputado do Rio de Janeiro, no Banco Nacional. Fiquei um ano e pouco e fui contratado. Aí me formei (em engenharia em 1994 e em administração seis meses depois) e entrei num programa de trainee do Citibank. Permaneci por 13 anos: de março de 1995 a 2007. Trabalhei em muitas áreas em operações, negócios e setor financeiro. Fui de trainee a diretor.

E depois?

Achava que faltava um complemento à minha formação financeira, que era trabalhar em seguradora. Então, fui para uma empresa americana, que hoje é concorrente. Lá, fui diretor de operações e de negócios de previdência, entre outras funções.

E continuou sua trajetória.

Sim, de lá fui para uma empresa brasileira chamada Contax, a maior empresa de call center do Brasil, que tem hoje quase 100 mil funcionários e na época tinha 20 mil funcionários. A única coisa que eu não consegui lá foi falar com os 20 mil pessoalmente. Mas com uns mil eu falei. É uma boa oportunidade para aprender.

Por quê?

Porque quando se fala com todos os níveis da organização se consegue capturar coisas bem interessantes para o dia a dia e, às vezes, até se descobre alguns talentos que estão escondidos. Lá, na Contax, meus clientes eram basicamente os maiores bancos e seguradoras do Brasil. E aí surgiu a oportunidade de vir para este excelente time da Zurich e eu vim, há um ano e um mês.

Com tantas experiências em diversas áreas de empresas, seu caminho foi bem pavimentado para chegar ao cargo atual?

Não tenho muito do que reclamar. Um pouquinho de cada experiência foi adicionando, digamos, camadas de pele, que vão nos trazendo experiência para ter uma visão estratégica do negócio, ter uma visão de planejamento e ter a capacidade de execução e de atitude frente aos momentos certos. Também mostrou a importância que as pessoas têm dentro desse contexto e cada uma foi moldando o profissional que eu sou hoje.

Experiência e estudo, não?

Unir teoria com prática é fundamental. Depois da graduação, estudei mais: fiz pós em administração na Fundação Getúlio Vargas e, posteriormente, um MBA chamado executivo internacional na Fundação Instituto de Administração. Mas o estudo é a porta inicial, é a base. A experiência de ter uma visão estratégica, que vai nos moldando, de conseguir entender como o mercado funciona, e conseguir traduzir os dados de mercado, de cenário econômico, de ambiente, de oportunidades, de ameaças, num plano de trabalho. Os projetos pelos quais se passa em diversas funções vão dando experiência.

No campo pessoal?

Deixa eu dar um exemplo. Quando eu me comparo com como eu era 20 anos atrás, uma coisa que eu nunca perdi, mas eu comecei a domar um pouco, é meu nível de exigência. Sou extremamente exigente comigo e com tudo, porque quero que tudo saia o mais perfeito possível. Mas ao mesmo tempo eu fui me gerenciando, digamos assim, para conter as minhas expectativas em relação ao resultado, eu gostaria que ele fosse cem, mais eu sei que ele vai levar dois, três anos para chegar a cem. Então, é extremamente importante ter esse autocontrole entre a exigência e ver que os resultados desejados não vão ser alcançados amanhã.

O que é mais gostoso nessa função?

Muitas coisas (risos). O mais gostoso é conseguir ajudar o profissional a se tornar cada vez melhor.

Essa é a principal função de um CEO?

Acho que depende do tempo. Minha principal função quando eu cheguei aqui foi montar uma estratégia. Depois, virou planejar a execução da estratégia. Em seguida, foi formar equipe. A quarta função foi começar a ganhar mercado, e estamos ganhando. E a preocupação de formar os talentos do futuro já começou, e não só da minha parte, porque é uma coisa central no modelo de administração da Zurich, a gente quer atrair e reter os melhores talentos.

E quais são as dicas para quem está começando?

Uma é se relacione, tenha genuíno interesse pelas pessoas, só tem a ganhar como aprendizado e, em alguns momentos, ajudar também. E quanto mais cedo o ser humano consegue entender e se adaptar à diversidade ao seu redor, mais importante, fundamental, é para a sua evolução como executivo./C.M.

JORNADA

Comissão aprova seis horas para operadores

A Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio aprovou o Projeto de Lei 1686/11, do deputado Antônio Roberto (PV-MG), que altera a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para estabelecer jornada de trabalho de seis horas diárias e 36 semanais para digitadores e operadores de telemarketing.

De acordo com o texto, os digitadores passariam a ter direito a repouso de 10 minutos, não deduzidos da duração normal de trabalho, a cada período de 90 minutos trabalhados.

O projeto tem caráter conclusivo e segue para análise pelas comissões de Trabalho, de Administração e Serviço Público; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

O País criou de 209.078 empregos formais em setembro, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. Resultado menor do que o do mesmo período de 2010, quando foram gerados 246.875 postos. Em setembro, foram contratadas 1,76 milhão de pessoas e demitidas 1,55 milhão. Em agosto foram criados 190.446 postos. Com esse resultado, o país criou mais de 331 mil empregos no terceiro trimestre de 2011. No acumulado do ano, o número de empregos ficou em 2,07 milhões.

REFUGIADOS

Governo discute no RJ emprego e qualificação

Encontro tem o objetivo de promover empregabilidade e qualificação profissional dos refugiados e solicitantes de refúgio no Brasil. Evento vai reunir representantes do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), e Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).

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