Arthur(E): Alex Ferreira / Câmara dos Deputados - Abraham (D) Heliosa Ballarini/AE-1/11/2016
Arthur(E): Alex Ferreira / Câmara dos Deputados - Abraham (D) Heliosa Ballarini/AE-1/11/2016

Quem são os irmãos da comitiva de Bolsonaro

Professores da Unifesp, os Weintraub já compraram briga com alunos depois de se tornarem colaboradores do candidato na área econômica

Renata Agostini, SÃO PAULO

05 Agosto 2018 | 04h00

Faltava pouco para chegar à cidade japonesa de Hamamatsu quando Jair Bolsonaro (PSL-RJ) parou para exibir sua comitiva nas redes sociais. Jaqueta de couro para abrigá-lo do frio de fevereiro, posou firme e sério ladeado pelos deputados Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e Luiz Nishimori (PR-PR) e pelos três filhos políticos - Eduardo, Flávio e Carlos. Ao fundo, completando o grupo de viajantes, estavam Abraham e Arthur Weintraub.

Neófitos em eventos políticos, os irmãos paulistas, ambos professores universitários, lançaram-se na viagem como assessores técnicos do deputado, que faria encontros ainda em Taiwan e na Coreia do Sul. Já não eram, porém, novatos na hostes de Bolsonaro. Há quase um ano haviam se tornado uns dos principais colaboradores do então pré-candidato.

Prontificaram-se para a tarefa quando ainda rareavam nomes dispostos a contribuir com Bolsonaro. Paulo Guedes, hoje incensado pelo deputado como seu farol na economia e coordenador de seu programa na área, ainda não havia se unido ao time - o economista aconselhava Luciano Huck e acalentava o sonho de que o apresentador se lançasse candidato à presidência. 

A ponte dos Weintraub com Bolsonaro foi feita por Lorenzoni, a quem conheceram num seminário internacional sobre Previdência, realizado no Congresso em março de 2017. O deputado do Democratas entusiasmou-se com as ideias da dupla. No mês seguinte, levou-os a Bolsonaro. "Eles tinham a mesma resistência que os acadêmicos têm porque não conhecem o Jair. Sou amigo dele e disse que ele era acessível e com sólida formação matemática", afirma Lorenzoni. A conversa em Brasília era para durar meia hora. Levou duas. Os dois professores logo alistaram-se ao grupo de apoiadores do ex-capitão do Exército.

"Diante de ameaças é necessário lutar pelo país em que se vive. Os venezuelanos descobriram isso muito tarde. Perderam o controle de sua pátria e hoje são colônia dos ditadores que controlam Cuba. São escravos", disse Abraham, em nome dele e do irmão, sobre o que os motivou a contribuir com Bolsonaro. Não se trata de ser de direita, sustentam. Eles não se reconhecem nas classificações políticas tradicionais. "Esquerda ou direita, acho que é uma rotulação pobre. Somos humanistas, democratas, liberais, lemos a Bíblia (Velho e Novo Testamento) e a temos como referência", afirmou. 

Avessos a entrevistas, os dois concordaram em falar ao Estado sob a condição de que registrassem todas as respostas por e-mail. A medida, dizem, visa preservá-los. Arthur e Abraham se dizem perseguidos e alvo de ameaças desde que seu vínculo com Bolsonaro tornou-se público. 

Economista pela USP, Abraham trabalhou 18 de seus 47 anos no Banco Votorantim, onde foi de office-boy a economista-chefe e diretor. Demitido, seguiu para a Quest Corretora e, logo depois, deixou a iniciativa privada. Arthur, de 42 anos, formou-se em direito pela USP e advogou por quase duas décadas. Especializou-se em Previdência, tema de seu mestrado e doutorado e de seus 14 livros já publicados.

Ambos passaram a se dedicar à Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp: Abraham como professor de Ciências Contábeis e Arthur, de Ciências Atuariais. Paralelamente, fundaram o Centro de Estudos em Seguridade, que presta consultoria a empresas e publica uma revista sobre Previdência. 

Conflito com estudantes

É na universidade, dizem, que se sentem hostilizados. Em novembro passado, Bolsonaro publicou um texto nas redes sociais assinado pelos Weintraub, que defendia a independência do Banco Central. Representantes de parte dos centros acadêmicos do campus publicaram nota repudiando a parceria dos dois com o presidenciável por "normalizar o candidato como legítimo e que supostamente merece nosso diálogo". 

"Repudiamos a associação de nosso corpo docente à pessoa do senhor Jair Bolsonaro, já que coloca em jogo o princípio da instituição, e de nossos valores em defesa da educação pública, gratuita e socialmente referenciada", dizia a nota assinada pelo diretório acadêmico do campus e pelos centros acadêmicos dos cursos de Economia e de Relações Internacionais  - os representantes de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Atuariais não se posicionaram.

Os irmãos responderam ao estilo Bolsonaro. Disseram que achavam impressionante que os estudantes de Economia os dessem "lição de moral", que eles deveriam deixar "de ser ridículos" e ter vergonha "por puxar a nota do campus lá para baixo". Por fim, que  aguardavam "ansiosamente pela Ditadura do Proletariado". 

"Iríamos falar do curso de Relações Internacionais, porém, humildemente, não nos sentimos confortáveis em comentar pois, até recentemente, acreditávamos que o mesmo talvez ficasse no campus da Escola Paulista de Medicina, no departamento de Reprodução Humana no Exterior", concluíam a nota.

O texto causou reações indignadas de alunos e professores da Unifesp nas redes sociais - uma mensagem dizia que, aos dois, faltara apanhar. Reclamações chegaram à ouvidoria da universidade pela conduta dos Weintraub. A universidade ainda aguarda posicionamento do Comitê de Ética Pública.

Os irmãos dizem não se arrepender. "Ficamos muito indignados com a invasão de nossa vida pessoal. Foi patrulhamento ideológico puro, uma nota de repúdio à nossa liberdade. Fora do trabalho, nossa vida pessoal não diz respeito a ninguém. Não fizemos nada de ilegal, não utilizamos estrutura, dinheiro, e-mail, nada, absolutamente nada da Unifesp", disse Abraham. "Acreditamos que o humor é redentor. Não pode tratar com seriedade argumentação ridícula. Aproveitamos e desopilamos o fígado".

Os Weintraub ressentem-se há tempos de a Unifesp não protegê-los. Em 2014, sentiram-se atacados quando e-mail anônimo distribuído a integrantes da universidade dizia que o fato de eles e a mulher de Abraham trabalharem na universidade configurava nepotismo - os três ingressaram via concurso. Na época, colegas os defenderam respondendo ao email. Eles queriam, porém, que a universidade tivesse investigado o email. Acreditam que a mensagem foi enviada pois Arthur contribuía com integrantes da campanha de Marina Silva à presidência.

"Naquela época, quando os militantes da Unifesp souberam que o Arthur estava ajudando uma candidata da oposição (Marina Silva) também houve ataques (documentados), porém, agora com Bolsonaro a perseguição é formal e institucional", afirmou Abraham. 

Sindicância sigilosa

Ele se refere a uma sindicância investigativa aberta em agosto do ano passado pela Unifesp contra Arthur. Ele foi intimado a apresentar uma série de documentos, mas não pôde ter acesso ao procedimento. A Unifesp argumentou que ele era sigiloso. Arthur tentou por meio de um advogado. Recorreu à OAB. Não conseguiu.

A Unifesp informou que a sindicância foi aberta a pedido da direção do campus Osasco, onde lecionam os irmãos. Após a reportagem insistir sobre o motivo, disse que foi por uma "denúncia sobre o Centro de Estudos em Seguridade". Não esclareceu a razão da abertura nesse momento. 

A Unifesp disse que vetou acesso aos autos a Arthur por se tratar de orientação expressa em portaria da Controladoria-Geral da União. O documento citado pela universidade, porém, não fala em caráter sigiloso a esse tipo de procedimento (o sigilo está previsto em estágio anterior à sindicância investigativa, um procedimento chamado de "investigação preliminar"). 

A universidade nega que haja perseguição. Em nota, afirmou que "por seu caráter acadêmico e autônomo de partidos, é espaço para discussão ampla e irrestrita de diferentes pontos de vista acerca de quaisquer temas".

Abraham e Arthur dizem que seguirão na lida - na faculdade e no front de Bolsonaro. Querem lutar contra o "establishment" e a tentativa de transformar o Brasil numa grande Venezuela. "Durante o século XX, mais da metade das pessoas do mundo viveram sob alguma forma de terror. Hoje, a América do Sul, e o Brasil em particular, faz parte do espaço vital de uma estratégia clara para a tomada de poder por grupos totalitários socialistas e comunistas", diz Abraham. "Eu não acreditava nisso. Achava que era teoria da conspiração. Todavia, está tudo documentado! O Foro de São Paulo é uma realidade! As FARC eram convidadas de honra. O crack foi introduzido no Brasil de caso pensado. Vejam os arquivos, está na internet!".

Nessa batalha, Marina Silva perdeu para o ex-capitão o posto de liderança a ser seguida. "Desejamos que o Brasil mude, que acabe o roubo epidêmico, a corrupção, os privilégios, o patrulhamento ideológico, o narcotráfico e a ameaça de totalitarismo bolivariano. Em 2014, acreditávamos que Marina era a melhor alternativa. Hoje, evidentemente, Jair Bolsonaro representa o Brasil do futuro pelo qual estamos dispostos a lutar".

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