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Quem se arrisca?

Investimento precisa de segurança, tudo que está em falta no Brasil

Cida Damasco, O Estado de S. Paulo

30 de setembro de 2019 | 04h00

Foi uma semana de sustos após sustos até para quem se diz acostumado com as turbulências do Brasil dos últimos tempos. Começou com a estreia de Bolsonaro na ONU, desafiando líderes da comunidade internacional e atacando tudo e a todos, em um discurso sob encomenda para o eleitorado mais fiel. Terminou com Rodrigo Janot, ex-chefão da Procuradoria Geral da República, impedido de se aproximar dos ministros do Supremo, depois de ter revelado que planejou assassinar Gilmar Mendes e se suicidar. 

Mais que uma frase de efeito, o comentário do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), em seguida à confissão de Janot, dá o que pensar: “Quem vai querer investir num país desse?” Por mais que alguns empresários, executivos e investidores financeiros ainda tentem fechar os olhos para a balbúrdia que se instalou em várias áreas e prefiram concentrar a atenção na agenda ultraliberal da equipe econômica, não há como ignorar os riscos desse cenário. Insegurança é o que vem à cabeça de todos. E, como se sabe, trata-se de um motivo mais do que suficiente para pelo menos provocar dúvidas em quem está avaliando a possibilidade de colocar seu dinheiro no Brasil. 

Há uma atividade econômica empacada, que depende visceralmente de recursos privados para voltar a se mover. Não apenas de investimentos financeiros, que trocam de “casa” conforme as ofertas do momento, como é o caso de taxas de retorno mais atraentes. Mas principalmente de investimentos produtivos, tanto para garantir mais eficiência e competitividade, especialmente à indústria e aos setores de serviços, como também para modernizar e ampliar a infraestrutura. Para isso, é fundamental contar com a parceria de grupos estrangeiros – inclusive daqueles países para os quais Bolsonaro dirigiu suas baterias na ONU.

Há ainda uma carregada agenda econômica a ser destravada pelo Executivo e pelo Congresso, depois da aprovação final do texto da Previdência. E, como se pode imaginar, o ambiente conflagrado do País – entre os Poderes, entre alas do mesmo Poder, entre bolsonaristas e oposições, entre os próprios bolsonaristas e assim por diante – não facilita um debate maduro para se negociar e levar à frente as mudanças programadas. 

A equipe econômica tenta passar ao largo dessa confusão e vender a ideia de que a economia começa a reagir e em breve as reformas que faltam vão sair do papel. É só ter um pouco de paciência, disse várias vezes o ministro Paulo Guedes. Depois da pausa estratégica na semana passada, com a justificativa “oficial” de reação à ofensiva da Polícia Federal contra o líder do governo, Fernando Bezerra (MDB-PE), o Senado marcou para esta semana a votação da reforma da Previdência, em meio a tentativas da oposição de alterar alguns dos pontos já aprovados pela Câmara. 

Guedes, por sua vez, promete primeiro detalhar o chamado pacto federativo, com a desvinculação e a desindexação de parte das despesas, para enfrentar o arrocho do Orçamento da União. E logo em seguida espera apresentar a proposta tributária, repaginada depois da estrondosa queda de Marcos Cintra da Receita Federal, atribuída por Bolsonaro à insistência na criação de um imposto nos moldes da velha CPMF. Nas palavras do próprio Guedes, a cobrança desse tributo permitiria reduzir e até eliminar a contribuição patronal sobre a folha de pagamento e, sem ele, seria preciso identificar uma nova fonte de recursos. Enquanto a equipe econômica tenta escapar dessa armadilha e termina a formatação do novo texto, Câmara e Senado disputam protagonismo e põem para andar suas propostas para o tema, com foco na simplificação tributária.

Em condições favoráveis, cumprir todas essas tarefas num prazo razoável já seria uma proeza. Imagine-se, então, num quadro conturbado. Sem contar as cobranças para que o mais rápido possível as mudanças produzam efeitos concretos na vida da população – principalmente na recuperação dos empregos. Apesar da melhora na criação de vagas com carteira assinada em agosto, fica claro que é cedo para comemorações: 12,6 milhões de pessoas continuam desempregadas e a informalidade já alcança 41,4% da população ocupada. A economia, como se vê, não suporta mais sustos.

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