Quem vai despertar a sonâmbula Europa?

Se a União Europeia ainda quiser moldar o mundo, no interesse de seus cidadãos, ela deve estreitar a distância entre seu poder potencial e o real

Timothy Garton, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2010 | 00h00

ASH

Recusem as falácias pomposas de nossos líderes. A zona do euro não foi salva. A União Europeia (UE) não tem política externa. Outros estão fazendo a história.

Alguém conseguirá me salvar do "europessimismo"? Eu me sinto mais deprimido pelo estado do projeto europeu do que me senti por décadas. A zona do euro corre um perigo mortal. A política externa europeia está avançando num ritmo de lesma bêbada.

O poder se desloca para a Ásia. Os motores históricos da integração europeia estão perdidos ou rateando. Líderes europeu rearrumam as espreguiçadeiras no convés do Titanic, enquanto pontificam para o resto do mundo sobre navegação oceânica.

A crise da zona do euro apenas começou. Os mercados de bônus não foram convencidos pelo salvamento gigante da Grécia na semana passada.

A única coisa que os moveu foi a presteza do Banco Central Europeu para começar a comprar bônus de governos na zona do euro. Mas ainda custa múltiplos a mais para o governo grego ou português captar empréstimos que para o governo alemão. Um importante estrategista em bônus me conta como ele agora vê duas alternativas: ou a zona do euro avança para uma união fiscal, com maior perda de soberania para os Estados-membros e reduções drásticas de déficit impostas por essa limitação externa, ou alguns Estados-membros mais fracos dão o calote, seja dentro da zona do euro ou abandonando-a por completo. Nesse ponto, o capital foge, ainda mais do que já está fazendo, do fraco para o forte: isto é, da zona do euro para algum outro lugar e, dentro da zona do euro de hoje, para a Alemanha.

A política doméstica e internacional nesses dois caminhos é sangrenta. (Na Grécia, já o é literalmente.) As tensões no interior das sociedades europeias aumentarão, mas o mesmo ocorrerá entre Estados europeus. Em particular, os ressentimentos dentro e contra a Alemanha, a potência central do continente, devem aumentar em ambos os casos: se a Alemanha impuser termos duros para uma união fiscal, enquanto ao mesmo tempo subscreve o risco de outros governos, ou se deixar que uma Grécia ou Portugal fiquem encurralados, resultando em mais fuga de capitais para a Alemanha. Na melhor hipótese, se o belo padrão de "desafio e resposta" de integração via crise funcionar novamente, a Europa ficará preocupada com a solução de seus problemas econômicos e financeiros internos por muitos anos.

As grandes potências atuais e emergentes do século 21, de Estados Unidos e China a Brasil e Rússia, já ameaçam as pretensões europeias de ser uma grande player unida no palco mundial com algo próximo do desprezo. Na cúpula sobre mudanças climáticas em Copenhague no ano passado, assunto que a Europa julga estar na frente, um acordo mínimo foi alcançado entre Estados Unidos, China, Índia, África do Sul e Brasil. A Europa nem sequer estava na sala.

Copenhague foi um alarme de despertador que não conseguiu despertar a Europa. As duas figuras que a UE escolheu para representá-la no palco mundial são quase inteiramente desconhecidas fora da Europa. Numa recente reunião no St. Anthony College da Universidade de Oxford, o colunista de assuntos estrangeiros do New York Times, Thomas Friedman, brincou que não conheceria o presidente do Conselho Europeu "nem se ele se sentasse no meu colo". A nova alta representante da UE para política externa e segurança, Catherine Ashton, pode se revelar uma operadora burocrática eficiente em Bruxelas, mas conversando com autoridades por lá se compreende como será difícil a construção de um serviço diplomático europeu.

Pequim, Moscou, Nova Délhi e Washington não estão esperando com a respiração contida. Para eles, a vida está em outra parte. Os Estados Unidos de Barack Obama estão preocupados com a construção da nação em casa, e depois no Oriente Médio em geral e na China. O novo primeiro-ministro da Grã-Bretanha recebe um telefonema do presidente, e uma lisonjeira referência ao "relacionamento especial", mas Obama não tem nenhum apego sentimental pelo Velho Continente. Sua questão com a Europa é: "O que vocês podem fazer por nós hoje?"

As novas geometrias do poder mundial estão descritas por siglas como Basic (Brasil, África do Sul, Índia, China), Bric (Brasil, Rússia, Índia, China) e Ibsa (Índia, Brasil, África do Sul). Parte disso está antecipando desdobramentos futuros que podem não ocorrer, mas no mercado da geopolítica, assim como nos mercados financeiros, as expectativas são realidades também.

A União Europeia ainda é a maior economia do mundo. Ela possui recursos naturais enormes de poder duro e brando, atualmente muito maiores que os das grandes potências emergentes. Mas a tendência vai contra ela, e ela está boxeando muito aquém do seu peso. Se ainda quiser moldar o mundo, no interesse de seus cidadãos, ela deve estreitar a distância entre seu poder potencial e o real. E não o está fazendo. Por quê? Durante mais de 50 anos após 1945, houve cinco grandes forças motrizes do projeto europeu. Foram elas: a memória da guerra, uma memória pessoal profundamente motivadora que calou fundo na geração de Helmut Kohl e François Mitterrand; a ameaça soviética à Europa Ocidental, e o desejo de povos da Europa Central e Oriental de escapar da dominação soviética para a liberdade e a segurança; o apoio americano à integração europeia, em resposta à ameaça soviética; a República Federal da Alemanha, esperando reabilitar a Alemanha pós-nazista na família europeia e também ganhar apoio de seus vizinhos europeus para a unificação alemã; e a França, com sua dupla ambição de uma Europa conduzida pela França. Essas cinco forças motrizes ou desapareceram ou estão muito enfraquecidas.

Em vez disso, temos um conjunto de novas razões para o projeto. Estas incluem desafios globais, como a mudança climática e o sistema financeiro globalizado, que têm um impacto direto cada vez maior nas vidas de nossos cidadãos, e as grandes potências emergentes de um mundo multipolar. Num mundo de gigantes, ajuda ser um gigante. Entretanto, uma razão, um argumento intelectual, não é o mesmo que uma força motriz emocional, baseada na experiência pessoal direta e um senso de ameaça imediato. Não temos esse senso na Europa de hoje. Por razões de padrão de vida e qualidade de vida, a maioria dos europeus nunca o teve muito.

Ela não percebe o quão radicalmente as coisas precisam mudar para permanecer como estão.

Seria preciso um novo Winston Churchill para explicar isso a todos os europeus, com a poesia de "sangue, suor e lágrimas". Em vez disso, temos Angela Merkel, Nicolas Sarkozy, Silvio Berlusconi, e, agora, David Cameron. O novo governo de coalizão liberal conservador da Grã-Bretanha está tendo um começo animadoramente construtivo na Europa.

Na terça-feira, o novo ministro das Finanças do país, George Osborne, engoliu a diretriz sobre fundos hedge proposta em Bruxelas com toda a elegância de um viajante inglês vitoriano comendo um prato de olhos de ovelha numa tenda beduína. (O governo britânico ainda tem esperança de modificar a diretriz no Parlamento Europeu.) Cameron está dedicando suas primeiras viagens ao exterior como primeiro-ministro a seus novos colegas em Paris e Berlim. Mas, mesmo que a Grã-Bretanha não venha a ser o freio europeu que muitos parlamentares conservadores gostariam que fosse, ela dificilmente será seu motor.

De onde virá o dinamismo então? Não sei. Não o vejo. Sim, já superamos muitos surtos de europessimismo antes; mas, até onde posso me lembrar, houve esses surtos. A cada vez, a Europa de alguma forma saiu da fossa para dar um passo a frente. Todos os competidores globais da Europa têm seus próprios grandes problemas. Daqui a dez anos, os historiadores ainda poderão olhar para trás e rir do europessimismo de 2010. Mas somente se a Europa despertar agora para o mundo em que vivemos. Acorda, Europa! / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É HISTORIADOR E ESCRITOR

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