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Quem vai dominar o mercado de petróleo?

Deixando o preço do petróleo cair, Arábia Saudita tenta tirar do mercado os produtores de alto custo

DANIEL YERGIN, THE NEW YORK TIMES

27 de janeiro de 2015 | 02h03

Uma histórica mudança de papéis está no coração do clamor e do caos envolvendo o colapso dos preços do petróleo, que tiveram queda de 50% desde setembro. Durante décadas, a Arábia Saudita, apoiada pelos Emirados do Golfo Pérsico, foi descrita como "produtora preponderante". Com sua imensa capacidade de produção, o país poderia aumentar ou reduzir seu rendimento para ajudar o mercado global a se ajustar aos momentos de escassez ou excesso.

Mas, no dia 27 de novembro, em reunião da Opep em Viena, a Arábia Saudita abdicou na prática desse papel, e a Opep delegou toda a responsabilidade pelos preços do petróleo para o mercado, que "acabará se estabilizando", de acordo com previsão do ministro saudita do petróleo, Ali Al-Naimi. A decisão da Opep não foi unânime. Com suas economias em sérios problemas, Venezuela e Irã pressionaram por cortes na produção, sem sucesso. Posteriormente, o Irã acusou a Arábia Saudita de travar uma "guerra do petróleo" e participar de um "complô" contra o país.

Ao deixar que o mercado regule o preço do petróleo, a Arábia Saudita e os Emirados também transferiram a responsabilidade de produtor preponderante para um país que dificilmente esperava por isso - os Estados Unidos.

Os EUA já foram o maior produtor e exportador mundial de petróleo, atuando como produtor preponderante. A Comissão Ferroviária do Texas determinava os níveis "permissíveis" de produção no Texas, a Arábia Saudita da época. Mas, já na década de 1970, a produção americana tinha alcançado o ápice de 9,6 milhões de barris por dia e começou a cair.

Os EUA começaram a importar cada vez mais petróleo. Em 2008, a produção do país estava quase 50% abaixo do ápice. O preço do petróleo chegou a US$ 147 por barril, e os temores segundo os quais a produção mundial teria alcançado o auge e estaríamos começando a esgotar o recurso tinham se tornado amplamente difundidos.

Mas, silenciosamente, uma revolução nada convencional do gás e do petróleo estava começando a ganhar força nos EUA. Duas tecnologias foram combinadas: a fragmentação hidráulica e a perfuração horizontal. O impacto foi medido primeiro no rápido crescimento da produção de gás de xisto, que agora corresponde a cerca de metade de todo o gás produzido nos EUA. Esse "sopro do xisto" impulsionou os EUA, que ultrapassaram a Rússia e se tornaram o maior produtor mundial de gás.

Então, mais ou menos em 2010, as mesmas tecnologias começaram a ser aplicadas na busca pelo petróleo. Os resultados foram fenomenais. No final de 2014, a produção de petróleo nos EUA estava 80% acima do nível observado em 2008. O aumento de 4,1 milhão de barris por dia era maior do que a produção de cada país da Opep, com exceção da Arábia Saudita.

Raramente o mercado global do petróleo viu ganhos de produção de tamanha escala ocorrerem tão rápido. E, recentemente, as circunstâncias globais envolvendo o consumo do produto mudaram - principalmente a desaceleração da economia da China -, e a menor demanda derrubou os preços.

Muitos supuseram que a Opep intercederia para cortar a produção e fazer o preço subir. Trilhões de dólares tinham sido investidos nos anos mais recentes com base nessa premissa. Mas a Arábia Saudita e os demais países do Golfo decidiram não fazê-lo. De acordo com o raciocínio deles, se a produção fosse reduzida, eles perderiam permanentemente sua fatia do mercado. A partir de sua perspectiva, eles limitariam a produção de seu "petróleo de baixo custo" para abrir espaço para o "petróleo de alto custo", e então teriam de fazer cortes adicionais para acomodar mais petróleo de alto custo.

Estavam preocupados com a concorrência não apenas do petróleo de xisto dos americanos, mas também das areias betuminosas do Canadá e as novas reservas na Rússia, no Ártico, Brasil, Ásia Central, África, e os crescentes volumes de petróleo em jazidas oceânicas espalhadas pelo mundo.

Mas, numa perspectiva mais imediata, os sauditas estavam de olho em dois vizinhos. Eles não queriam abrir espaço de mercado para o Iraque, visto como satélite iraniano, cuja produção está aumentando. E certamente não queriam abrir espaço para o Irã, que talvez possa chegar a um acordo nuclear com os EUA e seus aliados, trazendo de volta ao mercado o petróleo iraniano que foi alvo de sanções.

O óleo de xisto americano se tornou o novo fator decisivo no mercado mundial de petróleo de uma maneira que não poderia ter sido imaginada cinco anos atrás. Mas será que esse impacto vai continuar a ser sentido num mundo de petróleo a baixos preços? O petróleo está agora abaixo da marca de US$ 50 por barril, preço baixo demais para que muitas das novas instalações de óleo de xisto tenham a operação rentável. Os produtores vão trabalhar duro para melhorar a eficiência atual e reduzir os custos, mas, em 2016, se esse patamar de preço for mantido, a produção americana poderá cair. E a produção em outras regiões do mundo também estará se estabilizando.

Mas, a essa altura, a economia global pode estar em melhor situação, estimulando a demanda. Os preços podem voltar a subir. Se os produtores do Golfo Pérsico conseguirem o que desejam, o preço não voltará a passar a marca de US$ 100 por barril. Mesmo com o preço bem abaixo de US$ 100, os produtores americanos de óleo de xisto vão encontrar maneiras de reduzir os custos, e a produção vai voltar a subir. E o novo produtor preponderante do mundo se verá novamente no comando das forças do mercado. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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