'Queridinho' dos investidores?

Opinião

ZEINA, LATIF, DOUTORA EM ECONOMIA PELA USP, , SÓCIA DA GIBRALTAR CONSULTING, ZEINA, LATIF, DOUTORA EM ECONOMIA PELA USP, , SÓCIA DA GIBRALTAR CONSULTING, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2012 | 02h11

O crescimento do Brasil decepciona. Mas não está claro o quanto essa percepção está disseminada. Por ora, a entrada de investimento estrangeiro direto (IED) segue robusta, ainda que com alguma acomodação. Foram US$ 66 bilhões em 12 meses. Por este critério, o País manteria o status de "queridinho" entre investidores internacionais responsáveis por investimentos chamados produtivos. Conseguiremos manter isso ou perderemos o espaço conquistado nos últimos anos?

Entre as categorias de fluxos de capitais, o IED é o preferido dos emergentes. Além de ser fonte menos volátil de financiamento externo, há evidências de que é a categoria de investimento mais associada a decisões de investimento produtivo. O IED pode ajudar a disseminar melhores práticas de governança ao estimular o aperfeiçoamento do arcabouço legal dos países e ao disciplinar as condutas dos governos. Há chance de ganhos de transferência de tecnologia e melhora do capital humano via treinamento da mão de obra. Dessa forma, poderia ser um importante coadjuvante na elevação da produtividade dos países receptores.

A entrada de IED no Brasil tem se acelerado desde 2007, com a participação ou market share no IED mundial saltando de 1,3%, em 2006, para 4,4%, em 2011 - valor mantido no 1.º semestre de 2012, o mais elevado nos últimos 30 anos.

Como o principal motor para atração de IED é o tamanho do mercado, há razões para crer num espaço adicional para aumento de nosso market share, principalmente considerando o movimento ainda em curso de ampliação da nova classe média. O crescente interesse dos investidores por países com maior disponibilidade de terras e recursos naturais também coloca o Brasil em posição vantajosa.

No entanto, a razão IED/PIB do Brasil já se mostra compatível com o que seria sugerido, por exemplo, pela renda per capita e pela posição do País nos rankings de competitividade. Contrasta com o quadro de alguns anos atrás, quando o País estava em posição muito pior em comparação aos países pares. Já houve melhora significativa da posição relativa nacional, e, assim, avanços adicionais exigirão mais esforços, ainda mais ante o baixo avanço econômico em relação aos pares. O fato de o recorde na participação do IED global ter sido mantido no primeiro semestre de 2012 não garante o fôlego dessa conquista. Ajustes de expectativas podem ser lentos e sua materialização em ações concretas, ainda mais.

A atração de IED dependerá, em última instância, da retomada do ciclo de investimentos. Há forte correlação entre variações do fluxo de IED e da formação bruta de capital fixo. E, como o IED representa parcela não elevada da formação bruta (média de 12% desde 2003), há razões para crer que é o ciclo de investimento doméstico que define o ciclo de IED, não o contrário. Portanto, o IED se mostra, grosso modo, mais associado a fatores domésticos do que ao ciclo do IED mundial.

O mundo parece disposto a investir no Brasil desde que o investimento seja retomado. Avanços no market share do IED devem exigir melhor qualidade do ciclo de investimento.

Não só a taxa de investimento é baixa (18,5% do PIB em 2011, ante média de 24,7% de México, Chile e Colômbia), como o investimento parece ter baixa qualidade: primeiro, ainda que no curto prazo o investimento público tenha adicionado crescimento ao PIB, parece ter fracassado em estimular o investimento privado. Pode ser um sinal de ineficiência do investimento público em elevar a produtividade da economia. A taxa de investimento do setor público (incluindo administração pública e estatais) saltou para 3,5% do PIB na média entre 2008 e 2011, ante 2,4% entre 2000/2007. Já a taxa de investimento do setor privado atingiu 14,3% do PIB, ante 13,6%, um incremento muito modesto.

Segundo, o crescimento da produção de bens de capital tem se concentrado em equipamentos de transporte, com o restante praticamente estagnado desde 2008. Mesmo considerando o consumo aparente de máquinas e de equipamentos, excluindo os de transporte, de forma a incorporar o aumento das importações, nota-se importante incremento em 2007/2008, mas sem avanços como proporção do PIB.

É essencial avançarmos na agenda para destravar investimentos, melhorando a qualidade do investimento público e gerando incentivos ao investimento privado. É essencial também para a maior participação do investidor estrangeiro - que, por sua vez, poderia reforçar esse processo. Precisamos aprender a investir. Que o investidor estrangeiro nos ajude nessa tarefa.

O colunista Celso Ming está em férias

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