Querido Papai Noel

Confirmei que minha última carta lhe foi escrita em 25/12/2014, o que me leva a pensar que o senhor não gosta de mim e, pois, não atende a meus pedidos, todos desinteressados, coisas singelas e básicas que vejo em muitos países: educação e serviços públicos de qualidade; segurança para os cidadãos, inclusive os que vivem nas áreas mais pobres das cidades; instituições públicas respeitosas e transparentes; mais Estado e menos governo; e políticas públicas eficientes e eficazes. Como se vê, nada demais, tudo arroz com feijão da democracia.

ANTÔNIO MÁRCIO BUAINAIN*, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2015 | 03h00

Inocentemente, acreditando na sabedoria dos resultados soberanos das urnas, pensei que não seria difícil de enfrentar a crise e lhe pedi que orientasse governo e oposição para agirem em consonância com os interesses da população. Em especial, pedi inspiração e sabedoria à presidente Dilma para reconhecer a necessidade de mudar, arrumar a casa e preparar o País para voltar a crescer, e humildade e grandeza para governar desprovida das preocupações mesquinhas que vêm guiando a política no Brasil. Acho que pedi demais, não é? Confesso que acreditei que Levy, Barbosa e Tombini, com Dilma na batuta, formariam uma orquestra afinada e competente. Ledo engano! O que vimos foi uma presidente desorientada, que reprovaria num teste básico de sabedoria e que perdeu, junto com os quilos da dieta, o restinho de capacidade para governar que ainda tinha. As mudanças necessárias foram solapadas, de imediato, pela base aliada e até pela própria presidente, incapaz de sequer unificar o discurso do governo, que dirá as ações. E contou com a ajuda da oposição, que de forma irresponsável reencarnou o espírito destrutivo do PT e não soube definir, ao longo do ano, um caminho alternativo para o País. E o Congresso, dominado por um número expressivo de excelências frequentadoras das páginas policiais, alimentou o desgoverno: propôs pautas-bomba para explodir o que ainda funciona no País e, desta forma, negociar vantagens indevidas; vetou a aprovação de regras de bom senso e inviabilizou o ajuste que poderia ter evitado o aprofundamento da crise. É bom lembrar, Papai Noel, que para a população a crise é mais que discurso e tem significados e sentimentos bem concretos: o desespero do desemprego, o aviltamento do empobrecimento, a dor da carestia crescente e a angústia de falta de perspectiva.

Com ou sem impedimento da presidente, peço sua ajuda para encontrarmos em 2016 um caminho para evitar a continuidade da crise e a multiplicação do desemprego; o acirramento dos conflitos sociais e da divisão do País entre nós e eles; a deterioração do SUS, agora mais abarrotado com o afluxo de desempregados que perderam os planos privados de saúde; o crescimento da violência, que ceifa a vida principalmente de jovens; a proliferação do Aedes aegypti, transmissor da dengue, da febre chikungunya e do zika, que vai deixando um rastro de vítimas inocentes, punidas por toda a vida.

A crise moral é grande e nossos jovens precisam de exemplos de honradez, cidadania e empreendedorismo, de homens públicos e de cidadãos que os inspirem a guiar sua vida segundo os valores da honestidade, do trabalho, da responsabilidade social, da solidariedade e do respeito ao meio ambiente. Sei que o Brasil está cheio de gente deste naipe e espero que, com sua ajuda, eles se destaquem mais em 2016, influenciando positivamente a vida do País. Sou otimista, apesar de sua desconsideração e da crise: algumas instituições da República funcionam, e mais cedo ou mais tarde elas acabarão contaminando e eliminando a banda podre que hoje corrói o País.

Papai Noel, pensando bem, talvez o seu problema não seja comigo, pois o único pedido pessoal que lhe fiz foi atendido: o Verdão foi, finalmente, campeão da Copa do Brasil. Então lhe peço um 2016 verde, não o do Palmeiras, mas o da esperança. Esperança na recuperação do País, na seriedade dos compromissos firmados em Paris para salvar a humanidade do aquecimento global e no futuro.

Peço saúde e sabedoria para todos. Vamos precisar, para enfrentar, desfrutar e sobreviver a 2016.

*ANTÔNIO MÁRCIO BUAINAIN É PROFESSOR DE ECONOMIA NA UNICAMP 

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