Querido Papai Noel

Durante anos lhe enviei cartas com longas listas de pedidos, que o sr. filtrava com sabedoria e atendia de acordo com meus méritos. O sr. também me escrevia, estimulando-me a estudar mais para conquistar os presentes desejados no ano seguinte. Algumas vezes fiquei revoltado, mas sei que o sr. tinha razão, arrependo-me por ter feito vista grossa aos seus conselhos e lhe sou grato por ter vinculado a satisfação dos meus desejos ao meu próprio esforço.

ANTONIO M., BUAINAIN, PROFESSOR DE ECONOMIA DA UNICAMP, ANTONIO M., BUAINAIN, PROFESSOR DE ECONOMIA DA UNICAMP, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2012 | 02h04

Talvez não seja possível responder a esta cartinha apressada, enviada tão em cima da hora, mas não custa tentar. Este ano coisas inusitadas têm acontecido! Para começar, o Supremo Tribunal Federal julgou o mensalão e escreveu uma das páginas mais republicanas em nossa distorcida República, na qual os poderosos se acostumaram a levitar acima das leis e a usar as instituições democráticas para benefício próprio e de grupos políticos, transformando a res publica em coisa privada, por meio de métodos espúrios e criminosos.

E o mundo não acabou, como previam os maias. É certo que a crise internacional não arredou o pé e que passamos o ano sob ameaças de vaticínios mais tenebrosos do mercado que o fim do mundo. No frigir dos ovos, 2012 foi muito melhor do que se imaginava: a China retomou o passo e está crescendo a quase 8% este ano, a economia americana manteve a lenta retomada e vários dos nossos "hermanos" latinos esbanjaram um vigor de dar inveja. O chato é que o Brasil ficou bem para trás, com um "pibinho" de 1% que está tirando o brilho e o orgulho que ostentamos em 2007, 2008 e, principalmente, em 2010, quando crescemos 7,5% e nos colocamos como uma das locomotivas da economia mundial.

Mas em vários quesitos não estivemos nada mal. A taxa de desemprego manteve-se baixa, a renda domiciliar e o consumo cresceram e as famílias brasileiras parecem mais felizes e, certamente, vivem um nível inédito de bem-estar material. Mesmo sabendo que o PIB é um indicador imperfeito de desenvolvimento, quero reforçar o desejo da presidente Dilma e pedir-lhe que nos ajude a produzir um "pibão", pois sem isso não será possível manter esses indicadores positivos. Como 2013 já foi plantado em 2012, talvez não dê para esperar muita coisa. Mas tenho certeza de que, com a sua ajuda, é possível melhorar bastante o quadro.

O crescimento da economia depende do investimento, e gargalos de infraestrutura oferecem muitas oportunidades para investimentos e podem se transformar em poderosa alavanca de crescimento. Nesse sentido, o Brasil é "o" país das oportunidades, pois o que não falta é déficit de infraestrutura. Está claro que o Estado não tem cacife, competência e muito menos condições institucionais para enfrentar os desafios nesta área. A flexibilização da política fiscal já está se esgotando e o crescimento do pibinho é cada vez menor. Em compensação, o setor privado tem caixa e gana para investir. Faltam só um marco regulatório adequado e uma definição clara sobre o papel do setor privado no desenvolvimento econômico do País, sem rodeios e preconceitos ideológicos.

Querido Papai Noel, não lhe quero incomodar com pedidos mais difíceis, como o de nos ajudar a levar a sério a educação, fazendo-nos entender que sem ela não há desenvolvimento e que ela não pode estar submetida aos ciclos eleitorais e ao populismo social que hoje orientam boa parte das políticas públicas. Nem quero lhe pedir para dar uma mãozinha no sentido de fortalecer o mérito e esforço pessoal em substituição ao jeitinho e ao culto das relações privilegiadas como forma de "se dar bem". Ou, ainda, para difundir o empreendedorismo entre os jovens talentosos, que hoje pensam mais em fazer concurso público do que em criar riqueza para a sociedade. E também deixo de lado a redução da violência, a reforma política, o corte geral dos impostos e a melhoria dos serviços públicos. Após tantos anos sem lhe escrever, não seria justo lhe incomodar muito. Mas veja lá o que o sr. pode fazer para nos ajudar a conseguir o pibão de que o País precisa para progredir. E, se quiser, encaminhe a mensagem a São Judas, o das causas impossíveis.

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