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Questão de fé

Já na segunda semana do novo ano, as projeções dos analistas econômicos para 2015 começaram a apontar ajustes negativos. As previsões reunidas no boletim Focus para a inflação, medida pelo IPCA, subiram de 6,5% para 6,6% e as estimativas para a variação do PIB caíram de 0,5% para 0,4%. Por enquanto, a tendência, à medida que os resultados efetivos forem aparecendo, é de que ocorram novos ajustes para cima nas projeções de inflação e para baixo, no caso do crescimento econômico.

José Paulo Kupfer, O Estado de S. Paulo

13 de janeiro de 2015 | 07h47

Nesse ambiente pouco cordial, as medidas visando ao reequilíbrio das contas públicas, ponto de partida do programa de ajuste da economia, serão definidas e começarão a ser implementadas. Pelo menos no início, portanto, os resultados parecerão contraditórios. A fé na capacidade corretiva do programa Levy-Barbosa de austeridade terá de ser tão mais firme quanto piores forem os esperados resultados iniciais, refletidos na deterioração dos indicadores de inflação, crescimento e, agora, emprego.

Pode-se prever um embate entre os defensores da austeridade, reunidos em torno da nova equipe econômica de Dilma 2, e os descrentes na sua eficácia, ligados ao regime de Dilma 1. Para os primeiros, os resultados concretos adversos não poderão ser debitados da nova política econômica, mas dos efeitos negativos retardados da antiga política. Mas os antagonistas insistirão, com base nos resultados ruins e no exemplo da Europa em prolongada “estagdeflação”, na ideia de que a austeridade, antes de ser o remédio, é o veneno da retomada do crescimento.

À parte esses antagonismos, são realmente grandes os riscos de que a economia brasileira piore antes de melhorar. O cenário que localiza o início da virada em meados de 2016, abraçado pela nova equipe econômica e pelos economistas que com ela se identificam, pode ser visto como otimista.

No caso da inflação, as perspectivas são as de que as taxas mensais fiquem acima do teto da meta nos próximos 12 meses. Depois de fechar 2014 na conta do chá para não romper o teto, o IPCA deve variar, mês a mês, acima de 7%, no começo de 2015, e não descer abaixo de 6,5%, no restante do ano.

Para começar, não só pelas convicções teóricas da nova equipe econômica, a hipótese do recurso ao represamento de preços está descartada. Não há mais espaço para reprimir preços de combustíveis, tarifas de transporte e de energia. Além disso, sob o risco de lançar a economia numa crise externa de graves consequências, fechou-se a brecha pela qual era possível recorrer à âncora cambial na contenção dos preços, propiciada pelas valorizações do real ante o dólar.

Quanto a um crescimento da economia pelo menos acima de 3%, ele está condenado a não dar tão cedo o ar da graça. Primeiro, com a contenção do consumo, enfraquecido pelo previsto encolhimento do crédito e da massa salarial, que deve vir com alguma provável alta no desemprego. Depois, não só pela necessidade de corrigir desequilíbrios produzidos por subsídios e desonerações, mas também porque o horizonte dos investimentos, para ampliar a oferta e melhorar a produtividade, estreitou-se com a estagnação da economia e a redução dos lucros. Sem falar no impacto negativo representado pelo estado vulnerável em que se encontram a Petrobrás – que puxa uma importante cadeia de fornecedores – e as grandes construtoras brasileiras, envolvidas em escândalos de corrupção na estatal.

A grande esperança dos que acreditam nos poderes reanimadores de políticas de austeridade reside no restabelecimento da confiança de empresários e investidores na nova forma de condução da economia. Mas é bom esperar para ver. Esse não é um processo automático e, no caso brasileiro atual, bem mais incerto, diante do pé atrás com a conversão recente e surpreendente da presidente Dilma a um ideário que rechaçou ao longo de todo o seu primeiro mandato.

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