Questão de segurança alimentar

Não podemos poupar recursos e esforços para blindar nosso país da peste suína africana

Francisco Turra*, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2019 | 04h00

Há uma crise sanitária na indústria de proteína animal que tomou grande parte da Ásia, da Europa e da África. A denominada peste suína africana (PSA) é uma doença fatal para os animais. Causa hemorragias e outras sequelas e se espalha rapidamente entre os rebanhos de suínos. Os prejuízos são incalculáveis.

A China é a grande afetada. Antes da ocorrência da doença, o país produzia 54 milhões de toneladas de carne suína por ano – metade do total mundial. Até então, a carne suína era a mais consumida no planeta. Entretanto, projeções do Rabobank – banco holandês focado em agronegócio – apontam redução de 25% na produção chinesa de carne suína. E uma queda adicional de até 15% deve ocorrer em 2020. Serão anos até que a situação se restabeleça.

A China é apenas uma entre mais de 20 nações com registros da doença. O Vietnã, por exemplo, deverá perder até 20% de sua produção.

Há uma disrupção no mercado internacional de proteína animal. A perda de produção prevista na China em 2019 – equivalente a 13,5 milhões de toneladas – supera (e muito) todo o trade global de carne suína, que é inferior a 9 milhões de toneladas. Apenas como referência, o Brasil possui a quarta maior produção mundial, com 4 milhões de toneladas.

Esta crise gera uma clara oportunidade e um grande risco.

A oportunidade está hoje sendo aproveitada pelas diversas nações exportadoras, e o Brasil é uma delas. A China intensificou suas compras. Apenas entre janeiro e outubro deste ano, exportamos para lá 183,1 mil toneladas de carne suína – volume 40% superior ao realizado no ano anterior.

Mas, como os números mostram, não há carne suína suficiente para suprir a lacuna deixada pela PSA na China. Neste contexto, as vendas de outras carnes também são influenciadas. Em carne de frango, o Brasil é líder mundial em exportações e a China assumiu neste ano o primeiro posto entre os nossos importadores. Incrementou suas compras em 20%. Exportamos para lá quase 450 mil toneladas.

O Brasil, que é livre da doença, busca expandir sua participação neste quadro. Recentemente, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, anunciou novas habilitações de frigoríficos do Brasil. Agora, são 46 unidades produtoras de frangos e 16 de suínos.

Apesar dos números positivos de negócios, as oportunidades geradas não nos podem cegar quanto ao que este quadro realmente é. Estamos falando de uma crise alimentar de impacto global. Já faltam carnes nas gôndolas asiáticas. O mercado internacional de proteína animal está sob forte pressão.

Contenção

Há outro ponto de atenção: a doença também pode ser exportada. Não é incomum visitantes trazerem comidas nas malas. Aí reside um grande perigo: essa carga pessoal que chega por meio de portos, aeroportos e fronteiras deve ser apreendida e destruída. Isso porque o vírus da PSA sobrevive em alimentos embutidos de cárneos.

Em todo o mundo há uma grande mobilização para conter a entrada da enfermidade nas áreas não afetadas. Aqui, no Brasil, o Ministério da Agricultura e o setor produtivo também estão mobilizados. Uma campanha intensa de conscientização setorial organizada pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) está em curso. As secretarias dos Estados estão unificando esforços para intensificar o controle e reduzir os riscos.

A peste suína africana é uma questão global. Está em jogo a segurança alimentar das nações. Como grande produtor, o Brasil está em posição privilegiada quanto à oferta destes produtos para a sua população, como também no auxílio às áreas afetadas. O status sanitário é estratégico para isso. Não podemos poupar recursos nem esforços para blindar nosso país dessa enfermidade.

*PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PROTEÍNA ANIMAL, FOI MINISTRO DA AGRICULTURA

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