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Questões de liderança. E da falta dela

Insistir que a responsabilização por políticas inadequadas seria incorreta e teria origem em notícias falsas não é demonstração de capacidade

Albert Fishlow *, Impresso

15 de março de 2020 | 04h00

Como medir a capacidade de um político diante de uma crise grave? Insistir que a responsabilização por políticas inadequadas seria incorreta e teria origem em notícias falsas não é demonstração de capacidade. O resultado disso é uma liderança sem credibilidade. E é justamente isso que a pandemia do coronavírus revela claramente a respeito dos presidentes Trump e Bolsonaro.

Os Poderes Executivos nos Estados Unidos e no Brasil passaram gradualmente das afirmações iniciais segundo as quais toda a preocupação não passaria de “fraude” para a contínua implementação inadequada de uma resposta inteligente. Há até a deliciosa ironia de que uma reunião recente entre os dois presidentes em Mar-a-Lago possa ter levado a uma transmissão do vírus dos brasileiros para os americanos. Seria um tremendo estrago nas relações internacionais.

Os mercados globais de ações perderam o embalo ascendente e agora estão em um declínio significativo o bastante para representar uma guinada para a crise. Foi o que informou o Goldman Sachs dias atrás. Mais reveladora foi a dramática desaceleração do crescimento global.

Mas outras questões perdem importância conforme as operações que visam a recuperar o tempo perdido são implementadas nos EUA. Todas as atividades envolvendo mais do que 250 pessoas foram virtualmente proibidas em muitos tipos de ambientes: acadêmico, religioso, financeiro e a maioria das outras áreas. Os esforços para incrementar a capacidade de testes são prioridade, bem como o acesso adequado a instalações hospitalares. Muitos passaram a trabalhar de casa.

Tudo isso tem um custo mensurável – no salário daqueles que ficam desempregados porque estabelecimentos como restaurantes e lojas recebem uma demanda muito menor. O Congresso americano já está aprovando novas leis para compensar esse efeito. O desemprego estava em um patamar historicamente baixo na contagem do mês passado; agora, seu aumento é certo. Vemos até exemplos de cooperação entre democratas e republicanos, que fazem concessões mútuas.

As pessoas começam a se dar conta dos inevitáveis efeitos econômicos, que podem ser de grandes proporções, demorando meses até que a vida volte ao normal. Uma consequência é evidente. Trump não terá mais um excelente histórico econômico do qual se gabar. Ao contrário, sua falta de habilidade não poderá mais ser ocultada pelo Twitter. E ele enfrentará Biden, de vasta experiência, na eleição que se aproxima.

No Brasil, os talentos de Bolsonaro parecem uma imagem virtual das habilidades de Trump, começando com a importância exagerada da família e terminando na incapacidade de compreender como funciona a democracia. Ele também fez pouco caso da ameaça do coronavírus, e agora deve enfrentar as consequências, mesmo ainda dando demonstrações de minimizar essa probabilidade.

Desde 25 de fevereiro, os casos confirmados já passaram de 100, e esse número ainda deve aumentar muito. A maioria dos resultados positivos veio do exterior, mas o rápido acúmulo de casos domésticos é inevitável. São Paulo e Rio têm as maiores concentrações de casos.

O ministro Mandetta já pediu a aprovação do Congresso para um fundo de R$ 5,1 bilhões para lidar com o problema, além de buscar mais 5.000 médicos e criar mais 2.000 leitos hospitalares. Duas semanas se passaram sem resposta. As agências de saúde dos níveis estadual e local também terão de contribuir conforme os casos se multiplicam.

Rodrigo Maia se mostrou preocupado com a incapacidade de Bolsonaro de contemplar a magnitude do problema e com a insistência de Paulo Guedes em se concentrar na pauta econômica. A situação é de emergência nacional. As circunstâncias são agravadas pelo grande número de empregados informais no setor alimentar. A desigualdade de renda vai privá-los da atenção da qual necessitam, complicando a situação.

O Brasil deve analisar atentamente as medidas adotadas em outros países, garantindo o envolvimento de todas as esferas do governo. Assim, a resposta das lideranças será mais eficaz.

*ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY. ESCREVE MENSALMENTE

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