Nina Westervelt/The New York Times
Preço de algumas espécies de pedras preciosas aumentou cinco vezes  Nina Westervelt/The New York Times

Questões sociais e ambientais são preocupações do mercado de pedras preciosas

Caminho da mina para o mercado está sendo ofuscado pelas dúvidas de como cristais e outras pedras são extraídas da natureza

Alexandra Marvar, The New York Times

28 de outubro de 2020 | 05h00

Nos últimos anos, os cristais – antes relegados ao mundo alternativo da Nova Era – têm formado a base de um mercado convencional. À medida que celebridades como Katy Perry, Kylie Jenner, Kim Kardashian West e outras adotaram as propriedades curativas de cristais e pedras preciosas, o preço de pequenos espécimes aumentou cinco vezes na última década. Entre 2017 e 2019, a demanda dos Estados Unidos dobrou.

Algumas celebridades, como Gwyneth Paltrow e os ex-participantes do reality show Hills Spencer Pratt e Heidi Montag transformaram a mania do cristal em oportunidades de negócios. Pratt, em uma entrevista recente, disse que a casa do casal está repleta de “pelo menos mil” cristais. Heidi dispôs o equivalente a US$ 27 mil deles ao lado de sua cama durante o nascimento do primeiro filho do casal. Em 2018, eles começaram uma loja na web, Pratt Daddy, que vendia centenas de pedras preciosas de cura por semana por até US$ 300 cada.

E assim como muitas pessoas estão fazendo mais perguntas em relação a origem de seus alimentos, há perguntas crescentes a respeito das origens e da ética da mineração de cristais e pedras semipreciosas – o caminho da mina para o mercado, que tem sido ofuscado por preocupações sociais e ambientais.

Uma reportagem de 2019 do The Guardian sobre a crescente popularidade dos cristais e suas fontes eticamente duvidosas refletia: “Os consumidores de cristal realmente estariam dispostos a pagar mais para garantir minas mais seguras e sem trabalho infantil ou um salário justo para os garimpeiros?”

Brianna Cannon, uma designer de joias em Long Island, disse que seus clientes encontram valor agregado no fato de que, “na maioria das vezes, sabemos quem tirou a pedra do solo, de onde e quando”. Ela disse que os itens feitos com diamantes Herkimer são de longe os mais vendidos por esse motivo. “As pessoas adoram saber que nós mesmos os garimpamos e que eles se formam naturalmente nas proximidades.”

Empresas familiares

Ally Sands, fundadora da Aquarian Soul, que fabrica produtos de beleza e banho com infusão de cristais, também vende cristais individualmente, com ênfase no marketing de aquisição ética.

“Temos fortes laços com cada um de nossos fornecedores de minérios e cristais, muitos dos quais são pequenas empresas familiares que coletam material nas próprias terras”, escreveu Ally, 33 anos, em um blog no ano passado. 

O quartzo vendido por ela, por exemplo, vem de uma família que coleta em sua propriedade no Arkansas há cinco gerações. A família que fornece sua kunzite eram seus vizinhos em San Diego até que se mudaram para o Afeganistão.

Brianna e Ally comparecem regularmente a feiras de pedras preciosas, incluindo a maior do país, em Tucson, Arizona, para fazer conexões com garimpeiros freelancers e amadores com quem elas podem conseguir qualquer coisa que não escavem por conta própria. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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Achou, levou. Conheça os garimpos nos EUA que vão muito além da diversão

Americanos estão fazendo das minas ‘turísticas’, onde pagando uma taxa se leva o que encontrar, um trabalho freelancer de tempo integral

Alexandra Marvar, The New York Times

28 de outubro de 2020 | 05h00

Pedras da lua em Montana, ametistas e esmeraldas na Carolina do Norte, granadas e quartzos no interior do Estado de Nova York. Em minas onde se paga uma taxa para escavar nos Estados Unidos, os visitantes podem vasculhar pilhas de rejeitos de minas para descobrir cristais e pedras preciosas no esquema de “achou, levou” por apenas US$ 10 por dia.

Nas minas de diamante Herkimer, no centro de Nova York, lar de um tipo de cristal de quartzo especialmente claro e incomumente duro conhecido como diamante Herkimer, a entrada de US$ 14 inclui um dia de garimpo e o aluguel de um martelo de pedra (crianças menores de 4 anos não pagam).

Em um ano típico, um quinto dos clientes da mina são turistas internacionais, então, quando o novo coronavírus suspendeu as viagens e atrasou o início da temporada de escavações de abril a novembro deste ano, a proprietária da mina, Renée Scialdo Shevat, se preocupou com a perda de receita e seus possíveis efeitos em um negócio familiar de 40 anos.

No final do verão, ela estava mais preocupada em como limitar as aglomerações. Escavadores de todas as idades e graus de seriedade tinham começado a chegar em massa. “Atualmente, todo dia é como um sábado”, disse Renée em setembro.

Mesmo antes de a pandemia fazer com que as pessoas saíssem em busca de destinos de viagem e aventuras ao ar livre, o interesse em escavação e caça por cristais (ou “fossicking”, como é chamado na Grã-Bretanha e na Austrália) já estava crescendo. Isso fez com que algumas minas que estavam fechadas há muito tempo, como a Ruggles Mine em Grafton, New Hampshire, ganhassem vida.

De 1963 a 2016, a Ruggles recebeu turistas e fãs do hobby em busca de mica, água-marinha, quartzo rosa e outros tesouros em suas cavernas e canaletas subterrâneas. (O espaço fechou em 2016, quando seu dono, então com 90 anos, se aposentou.) No fim do ano passado, incorporadores de Nova York o arrebataram com planos de reabri-lo como atração turística, com grandes melhorias.

Os proprietários de minas não são os únicos com perspectivas brilhantes. Alguns empresários também estão encontrando maneiras de conquistar novas carreiras com pedras preciosas. Por exemplo, depois de terem seus empregos e graduação virados de cabeça para baixo pela pandemia na primavera, Frank e Kyndall Stallings, 22 anos e 27 anos, de Charleston, Missouri, começaram a escavar em busca de cristais.

“Tudo começou em fevereiro, quando Frank me levou para a mina de diamantes em Arkansas para o Dia dos Namorados”, disse Kyndall sobre a visita do casal a uma mina pública chamada Crater of Diamonds State Park, em Murfreesboro, onde se paga US$ 10 por dia.

Embora não tenham trazido para casa um diamante, eles encontraram um pequeno pedaço de quartzo. A experiência foi uma emoção de proporções gigantescas. Em meados de março, o trabalho de Frank como consultor financeiro desacelerou significativamente, as aulas de Kyndall do curso universitário de horticultura passaram a ser dadas pela internet e a vaga de emprego para a qual ela tinha sido recentemente chamada, nunca se tornou realidade.

Com o novo tempo livre, os Stallings estavam escavando quase todos os dias. Em meados de abril, o casal vendeu tudo o que possuía no Facebook, queimou aquilo que não pode vender em uma fogueira, empacotou o que restou, colocou em sua caminhonete e pegou a estrada para trabalhar como garimpeiro de cristal freelancer. “Cinquenta dólares por dia para escavar, e se você cavar muito, encontrará US$ 2 mil, US$ 3 mil, US$ 5 mil em cristais”, disse Frank, referindo-se a Ron Coleman Mining, uma mina de cristal no Arkansas onde o casal recentemente desenterrou um raríssimo quartzo de quase sete quilos, que posteriormente foi vendido por US$ 1.500.

Ambições de garimpeiro

Um garimpeiro dedicado pode, em teoria, ganhar até US$ 10 mil por mês vendendo seus achados na internet. Um minério ou cristal coletado à mão em um local doméstico, não comercial pode atingir várias vezes o preço de um importado de uma mina comercial no exterior, especialmente em países onde o comércio de pedras preciosas é conhecido por financiar conflitos e genocídios. Os vendedores, às vezes, podem cobrar ainda mais se capturarem suas descobertas em vídeo (e divulgá-las nas redes sociais).

Um dos mestres desse modelo de negócios é Bryan Major, também conhecido como Crystal Collector (Coletor de Cristais), um garimpeiro de cabelos desgrenhados que postou seu primeiro vídeo de escavação de cristais no YouTube há nove anos. Os vídeos mostram ele empunhando um aglomerado de ametista do tamanho de seu torso ou um cristal de água-marinha do comprimento de seu antebraço – não só cortejando compradores em potencial, mas também atraindo garimpeiros amadores recém-chegados.

Para construir uma carreira de escavação de cristais e pedras preciosas, uma vida nômade não é obrigatória: Patrick e Samantha Krug, 32 anos e 30 anos, garimpam várias vezes por semana, a poucos passos dopróprio quintal em Fonda, Nova York. “Não há nada como encontrar um cristal que está escondido há 500 milhões de anos, ser o primeiro a trazê-lo à luz, sem saber o que você tem até retirá-lo e limpá-lo”, disse Patrick. 

Quanto mais claros e limpos eles são, mais valor os diamantes Herkimer têm, e bons espécimes são cada vez mais populares para uso em rituais de cura e em joias. (Meghan Markle usou anéis de diamante Herkimer, brincos e uma pulseira no casamento da princesa Eugenie em outubro de 2018.)

Apesar do prestígio do diamante Herkimer, os Krugs não vendem todos. Eles estão mantendo sua operação pequena e guardando a maior parte do que encontram. “Se parece importante para nós, vamos continuar com ele.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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