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R$ 1 bi mais cara, Transnordestina, enfim, avança

A bilionária obra, uma das três maiores do País, pega embalo e renova a esperança de um futuro mais próspero para a região a partir de 2013, quando estiver pronta

Renée Pereira / TEXTO e Nilton Fukuda/ FOTOS, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2010 | 00h00

A cortina de poeira que se levanta com o vaivém frenético das máquinas e trabalhadores virou chamariz para os curiosos que passam pelo quilômetro 13,7 da rodovia CE-293, no Ceará. De carro ou a pé, eles não resistem à tentação de espiar a transformação do Cerrado, com toneladas de aço, cimento e pedra. "É a Transnordestina, uma obra bilionária que vai trazer muito dinheiro para a região", dispara sr. Francisco, um morador de Missão Velha, que tem muitas expectativas com a chegada da ferrovia.

Ao lado do amigo Gabriel, ele usou a hora do almoço para conferir o estágio das obras, que seriam inauguradas pelo presidente Lula, no dia 14 de dezembro. A curiosidade foi tanta que os dois desceram e foram ver de perto os primeiros 20 km prontos da estrada de ferro, concedida à Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) durante a privatização, em 1997.

Tanto fascínio tem explicação. Hoje, o projeto está entre as três maiores obras privadas do Brasil, ao lado das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira (RO). Quando estiver toda concluída, em 2013, a ferrovia terá 1.728 km de extensão e ligará os portos de Pecém (CE) e Suape (PE) ao sertão do Piauí. Transportará cerca de 25 milhões de toneladas/ano de grãos, minérios e gesso, além de uma série de outros produtos. Até lá serão necessários 3 milhões de dormentes (viga de cimento que sustenta o trilho), 1,5 milhão de metros cúbicos (m³) de concreto e 90 milhões de m³ de escavações. Por enquanto, porém, apenas 1% de toda a obra está concluída, em quatro anos de trabalho.

Hoje, 800 km da ferrovia estão em construção. Alguns em estágio avançado, com a instalação dos trilhos, caso do trecho de Missão Velha. Mas a maioria ainda está em fase de terraplenagem e construção de pontes e bueiros, a parte mais complicada do projeto. Embora sejam menos acidentados que no Sudeste, os terrenos recebem tratamento pesado para ficarem planos. A terra retirada de áreas mais altas é usada para cobrir vales e deixar a estrada reta, pronta para a instalação dos trilhos.

Mas isso não é feito de uma só vez. A terra é colocada no local em pequenas camadas de 30 centímetros e depois recebe o tratamento de um rolo compactador. Em seguida, o mesmo procedimento é repetido - 65 vezes em alguns aterros - até o terreno ficar plano, explica o diretor de contrato da Odebrecht, Paulo Falcão. A empreiteira tem nove lotes da ferrovia em construção. Durante a visita do presidente Lula, a CSN assinou mais um contrato de quatro lotes com a construtora. Na ocasião, a empresa também fechou com a Andrade Gutierrez, que ficará com quatro lotes, e com a Galvão, que terá três lotes.

No total, a Transnordestina custará R$ 5,42 bilhões - quase R$ 1 bilhão a mais que o previsto no orçamento inicial. Da mesma forma, a data de término da obra também foi revista. Era para estar totalmente concluída este ano, mas o primeiro trecho - entre Eliseu Martins (PI) e Suape (PE) - só ficará pronto em outubro de 2012 e a parte do Ceará, em 2013. Segundo o presidente da Transnordestina, Tufi Daher, a lentidão da obra nos primeiros quatro anos foi decorrente de uma série de contratempos, como a dificuldade na desapropriação das áreas e no financiamento.

Boa parte dos entraves já foi solucionada. Mas, no trecho do Ceará, 64% das áreas ainda precisam ser desapropriadas - a expropriação é feita pelo Estado com dinheiro do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). No caso da estruturação financeira, a obra tem empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco do Nordeste, Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (Finor). Até agora, a empresa já gastou R$ 1,6 bilhão, volume que deve crescer no início do ano, com a entrada em operação de outros canteiros, sendo um em janeiro e três em março.

Nesse estágio do empreendimento, o número de empregos - diretos e indiretos - deverá beneficiar 20 mil trabalhadores. Hoje, 11 mil pessoas trabalham com carteira assinada na construção. Como no resto do País, a questão da mão de obra especializada virou um gargalo para o desenvolvimento do projeto. Cerca de três mil funcionários tiveram de ser recrutados em outros Estados para atender a demanda. De acordo com Falcão, da Odebrecht, as maiores carências são os operadores de máquinas e equipamentos, cujo manuseio está cada vez mais sofisticado. "Mas falta de tudo: carpinteiro, pedreiro e armadores de estruturas de aço", diz ele.

Para aproveitar a mão de obra local, vários moradores da região passaram por treinamento. Alguns foram trabalhar na obra. Outros ficaram na fábrica de dormentes em Salgueiro (PE), a maior do mundo, segundo o diretor da Odebrecht. A unidade produz 4.800 dormentes por dia e emprega 300 pessoas.

Um deles é Verlandio Gonçalves Pereira, de 30 anos. Antes da Transnordestina, ele morava num sítio na zona rural de Salgueiro e ganhava a vida plantando cebola. Há um mês, foi aprovado para integrar a equipe da fábrica de dormentes, depois de passar por um processo de exames médicos que durou 20 dias. "Aqui o dinheiro é certo."

Os moradores que vivem nas margens da Transnordestina também decidiram tirar proveito das obras, que nos últimos meses provocaram uma reviravolta no cotidiano das famílias. É o caso de Solange Rocha de Souza, moradora de um sítio que fica dentro do lote 1 (do trecho Salgueiro/Porto de Suape). Há oito meses, trabalha no canteiro de obras da ferrovia como apontadora, seu primeiro emprego. Entra às 6h50 e sai às 15h20. Quando faz hora extra, estica até as 17h20. Nesse ritmo, já conseguiu comprar seu primeiro bem: uma moto.

Solange conta que a mãe não está muito satisfeita com a obra. "Ela reclama da poeira, do barulho das máquinas e da movimentação dos trabalhadores. Aqui era muito silencioso." O descontentamento tem explicação. Os 800 km em construção da ferrovia abrigam 1.600 máquinas de todos os tipos, sejam escavadeiras, niveladoras e tratores. Só em Salgueiro são 300 máquinas.

Segundo Falcão, esse também tem sido um gargalo, já que o mercado está superaquecido. Além disso, a oferta de cimento está apertada. "Virou uma guerra conseguir produto de qualidade", diz Daher. Segundo ele, a CSN deverá inaugurar uma fábrica de cimento no Nordeste, que eliminará o entrave. É o que esperam todos os produtores que aguardam há anos que a ferrovia saia do papel para melhorar o transporte de cargas.

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