Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Racionamento deverá ser decretado em 100 dias, dizem especialistas

Técnicos dizem que restrição ao consumo de energia deve ficar entre 10% a 20% da carga, mas há quem projete até 30%

André Magnabosco, O Estado de S. Paulo

17 Fevereiro 2015 | 02h03

O racionamento de energia é inevitável e seu anúncio terá de ser feito em um prazo máximo de 100 dias. Esta é a previsão de especialistas do setor elétrico diante da situação de falta de chuvas que atinge, sobretudo, o Sudeste do País.

O atual nível dos reservatórios e a previsão pluviométrica para o final do período chuvoso, até abril, mostram que o volume de água armazenada não subirá o necessário para que o Brasil tenha condições de superar o período seco, de maio a outubro. Por isso, o intervalo entre o final de abril e o início de maio é considerada data limite para um anúncio oficial de racionamento. Tenha este nome ou racionalização, termo preferido pelo governo.

A demora federal em anunciar o racionamento ou ao menos iniciar uma ampla campanha de conscientização de consumo racional agrava a situação e pode fazer com que o corte seja ainda maior.

Entre especialistas, acredita-se que a restrição deva ficar entre 10% e 20% da carga, mas há quem projete números de 5% a 30%, a depender do ritmo da atividade econômica nos próximos meses. O alívio poderia vir da desaceleração da economia brasileira e da queda na produção da indústria nacional, esta motivada principalmente pela falta de água em Estados como São Paulo e Minas Gerais.

"Se continuar a seca existente neste momento e se considerarmos as previsões de vazão do ONS, chegamos até abril", afirmou a diretora da Engenho Consultoria, Leontina Pinto, em referência a previsões recentes do Operador Nacional do Sistema elétrico.

Limites. A análise leva em conta o limite mínimo de 10% no nível dos reservatórios proposto no mês passado pelo ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga. O problema é que o limite de 10% deveria ser alcançado no final do período seco, no último trimestre do ano, e não no primeiro semestre.

Para que o limite de 10% fosse respeitado, o nível dos reservatórios do País deveria chegar ao final de abril com o equivalente a 35% capacidade de armazenamento. A projeção foi feita em dezembro passado pelo diretor geral do ONS, Hermes Chipp. Na oportunidade, ele destacou que o número seria alcançado se o volume de chuvas até o mês de abril ficasse próximo a 70% da média histórica, o que não ocorreu até o momento.

O crescente risco de racionamento já foi acusado pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), vinculado ao Ministério de Minas e Energia. Na semana passada, o CMSE elevou de 4,9% para 7,3% o risco de desabastecimento de eletricidade na Região Sudeste/Centro-Oeste em 2015. O número superou o limite tolerado pelo comitê, de 5%, porém nenhuma medida de corte de oferta foi anunciada.

Corte maior. "É um absurdo que o órgão de monitoramento ainda não tenha decretado racionamento. Se tivesse havido racionalização (de energia) em 2013, teríamos alcançado o objetivo de redução de consumo. Mas hoje falamos de cortes equivalentes a 10% a 20% da carga para que se tenha recuperação dos reservatórios", salientou o diretor da consultoria Thymos Energia, Ricardo Savoia. Em 2013, segundo Savoia, as projeções já sugeriam situação desfavorável ao fornecimento de energia no Brasil.

Agora, com mais de um ano de atraso, na visão dos especialistas, o governo começa a sinalizar a possibilidade de elaborar uma campanha de conscientização da população, medida que pode ser insuficiente. "A questão é que não temos mais tempo a perder. Se adiar mais um, dois, três meses, o governo aumenta o buraco", alerta o diretor da PSR, Marco Antonio Siqueira. A consultoria estima em 58% o atual risco de haver racionamento em 2015.

O anúncio de um racionamento apenas em abril coincidiria com o fim do período de chuvas e da expectativa de recuperação dos reservatórios. Caso o anúncio ocorra em abril, é possível que a adoção prática da medida seja implementada somente em junho.

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