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Racionamento pode custar R$ 28,7 bi e elevar tarifas em 10,2%, diz Moody's

Agência de classificação de risco simula cenário com um corte de 20% de energia por 12 meses

Wellington Bahnemann - Agência Estado

24 de abril de 2014 | 11h29

 RIO DE JANEIRO - O racionamento de energia provocaria uma perda de até R$ 28,7 bilhões aos geradores e forçaria um aumento de até 10,2% nas tarifas de energia para evitar que as distribuidoras quebrassem. Estas são algumas das conclusões de um estudo produzido pela agência de classificação de risco Moody's. "O setor elétrico terá um ano de 2014 muito difícil, com o preço spot alto, com a exposição involuntária das distribuidoras ao mercado spot e com o despacho térmico elevado", afirmou o vice-presidente e analista sênior da Moody's, José Soares, em entrevista ao Broadcast

O estudo da Moody's mostra que o tamanho das perdas dependerá da posição contratual dos geradores e do porte do racionamento. A perda de R$ 28,7 bilhões e o reajuste de 10,2% das tarifas consideram que o corte na demanda será de 20% por um período de 12 meses. Se a redução compulsória no consumo for de 5% por sete meses, o prejuízo dos geradores seria de R$ 7,5 bilhões e a conta de luz subiria 1,5%. 

Para calcular estes números, a Moody's considerou que o racionamento obrigaria os geradores a comprar energia no mercado à vista para compensar o déficit na geração hidrelétrica, quando a energia produzida fica abaixo da energia assegurada das usinas - no jargão do setor elétrico, isso é conhecido como GSF inferior 1. No cenário de racionamento de energia de 5% por sete meses, o GSF seria de 97,2%, ou seja, o déficit seria 2,8%, gerando perda de R$ 7,5 bilhões a ser paga pelos geradores. Se o corte do consumo for de 20% por 12 meses, o GSF seria de 90,4% (9,6% de déficit), gerando o prejuízo de R$ 28,7 bilhões. 

 Essa perda, no entanto, não seria absorvida igualmente pelos geradores. Soares disse que as empresas com energia descontratada terão menos perdas em um eventual racionamento, justamente por terem que comprar menos oferta no mercado para compensar o déficit na produção hidrelétrica. O executivo citou como exemplo de empresas nessa situação a Cesp e a Cemig. "Esses geradores possuem energia descontratada porque não podia ser vendida em contratos de longo prazo por causa do vencimento de suas concessões", explicou. Por outro lado, as mais afetadas seriam Eletrobras, EDP Brasil, Duke Energy, AES Tietê e CPFL Renováveis. 

A partir desses dados, a Moody's simulou os efeitos do racionamento para as margens e alavancagem do setor de geração. Os resultados revelam uma piora sensível na qualidade de crédito das empresas. Se o governo decretasse racionamento de 5% por sete meses, um gerador com uma margem Ebitda de 50% e alavancagem de 3 vezes teria sua margem reduzida para 37% e a relação dívida líquida/Ebitda elevada para 3,5 vezes. Se o racionamento fosse de 20% por 12 meses, a margem ficaria negativa em 3%. 

Na mesma análise de sensibilidade, o gerador com a margem Ebitda de 70% e alavancagem de 3 vezes veria as suas margens se reduzirem para 58% e a relação dívida líquida/Ebitda subir para 3,3 vezes em um racionamento de 5% por sete meses. Se o corte no consumo for de 20% por 12 meses, a margem cairia para 22% e a alavancagem aumentaria para 10,4 vezes. "Essa situação gera mais pressão sobre a qualidade de crédito do setor elétrico como um todo", avaliou o executivo. 

Para as distribuidoras, o estudo da Moody's aponta que um racionamento de energia, independentemente de sua profundidade, teria impacto negativo no fluxo de caixa e na lucratividade, pressionando o governo a conceder novos reajustes tarifários para assegurar o equilíbrio econômico-financeiro das empresas. "O risco regulatório para as distribuidoras seria o 'timing' dos reajustes, que não poderiam ser postergados", disse. 

Embora exista essa preocupação com o "timing" dos reajustes, Soares afirmou que o governo federal tem demonstrado preocupação com a saúde financeira das distribuidoras. A prova disso foi o pacote de ajuda às concessionárias, que contará com o empréstimo de R$ 11,2 bilhões da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e o aporte do Tesouro de R$ 4 bilhões na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). O executivo, no entanto, considera que a solução ideal para o setor seria permitir os reajustes integrais das tarifas das empresas. 

Nas contas da Moody's, no entanto, o pacote de ajuda pode ser insuficiente para cobrir as despesas das distribuidoras este ano. Isso dependerá do resultado do leilão de energia velha A-0, marcado para o dia 30 de abril, que tem como objetivo reduzir (ou zerar) a exposição de 3,5 mil MW médios das distribuidoras no mercado spot, no qual a energia está custando hoje R$ 822,23/MWh. "O custo das térmicas este ano também chegar a R$ 30 bilhões. É provável que seja necessário mais dinheiro para ajudar o setor", disse. Vale lembrar que os R$ 4 bilhões do Tesouro Nacional já foram gastos, sendo que apenas R$ 1,2 bilhão foi usado para arcar com as despesas extraordinárias das distribuidoras com as térmicas e com o mercado spot. 

Diante do baixo nível dos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste, hoje em 37,7% da capacidade, o menor desde 2001, Soares disse que, tecnicamente, o ideal seria que o governo adotasse o racionamento ou realizasse algum tipo de ação para redução voluntária do consumo de energia entre os grandes consumidores ou entre a população em geral. "Mas o nosso cenário base é de que o governo não vai decretar racionamento neste ano", reconheceu. Se nada for feito para recuperar o nível dos reservatórios ainda este ano, Soares afirmou que o racionamento de energia em 2015 é praticamente inevitável. 

Caso o governo não decrete o racionamento, mas adote algum programa para estimular a redução do consumo de energia, a Moody's conclui que os geradores serão afetados igualmente. Isso porque o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) iria manter o despacho térmico elevado para poupar os reservatórios, o que resultaria no déficit na geração hidrelétrica e, consequentemente, na exposição ao mercado de curto prazo. Isso levaria a necessidade de comprar energia para honrar os contratos. 

A conclusão, inclusive, é que as perdas neste cenário seriam maiores do que no cenário de racionamento de energia, já que o déficit na geração hídrica seria superior. "A redução voluntária de 5% no consumo de energia por sete meses resultaria em uma exposição ao mercado de curto prazo de 5,6%, comparado aos 2,8% de exposição no nosso cenário base para o racionamento de energia", avaliou a agência.

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