Radicalismo e solidão

A decisão do governo da presidente Cristina Kirchner de expropriar a YPF, empresa de capital espanhol, principal produtora de petróleo e gás da Argentina, já é produto de radicalização da atual política econômica do país. E agora, como ficou muito difícil um recuo, a manutenção desse jogo pede ainda mais radicalização.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2012 | 03h05

A legitimação do atual governo tem sido fortemente apoiada no subsídio ao consumo. Para ganhar a boa vontade do eleitor, o regime tratou de garantir renda com base no achatamento dos preços, dos salários e das aposentadorias. Assim, acumulam-se distorções. Uma delas foi o salto da demanda por energia e combustíveis, que a oferta interna não vem sendo capaz de cobrir por falta de investimentos.

A reestatização da YPF acaba por dar razão à parada anterior dos investimentos. Se os controladores da YPF perderam muito dinheiro com a decisão do governo de Buenos Aires, mais ainda teriam perdido se tivessem feito os investimentos reclamados pelo governo da Argentina.

O passo dado atropela a ordem jurídica. Será preciso que muita coisa mude para que o empreendedor volte a se sentir seguro nos seus investimentos na Argentina, porque a qualquer momento estará sujeito a ser surpreendido por decreto de desapropriação por utilidade pública. E isso não vale só para o capital estrangeiro. Atinge qualquer investidor e, sobretudo, o próprio argentino, que não terá nenhum apoio político externo, como a YPF está merecendo dos governos da Espanha e da União Europeia.

Com o fim do regime anterior de convertibilidade cambial, as grandes intervenções começaram em 2001, com o megacalote da dívida externa, de mais de US$ 70 bilhões. Depois veio a estatização dos fundos de pensão, em 2008, cujo patrimônio, superior a US$ 30 bilhões, deixou de ser gerido pelo setor privado, tomado pelo governo. E agora vem essa nacionalização, por questão de soberania energética.

Se for confirmada a queda expressiva dos investimentos, o governo de Buenos Aires terá de intensificar sua intervenção na economia, numa escalada cujos limites e desdobramentos econômicos e políticos são hoje de difícil avaliação.

A falta de investimentos tende a agravar choques de oferta na economia argentina. Como relatou ontem o jornal portenho El Clarín, o aumento do consumo de combustíveis vinha exigindo suprimento de importações que, para 2012, estavam projetadas em US$ 12 bilhões, o equivalente a dois meses de exportações totais.

O forte superávit da balança comercial da Argentina, de US$ 12,5 bilhões em 2008, cai ano a ano e ameaça resvalar para o vermelho (veja o gráfico). É a principal razão pela qual o governo de Cristina Kirchner decidiu monitorar um a um os pedidos de importação.

O governo da Argentina já vinha sendo duramente criticado em escala global, pelo seu protecionismo comercial crescente. A decisão unilateral da presidente Cristina Kirchner, apoiada ostensivamente no exterior só pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, acentua o isolamento externo da Argentina.

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