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Radicalismo político impede acordo de longo prazo para a dívida dos EUA

Aversão entre democratas e republicados deixa investidores receosos de que possa ser encontrada solução de longo prazo para o teto da dívida americana

Denise Chrispim Marin, O Estado de S. Paulo

16 de outubro de 2013 | 10h13

O impasse observado em Washington sobre o aumento do teto da dívida não é novo. Mesmo com um acordo, o alívio tende a ser apenas temporário. Em algum momento ainda deste ano ou do começo de 2014, novo embate estará armado entre os radicais republicanos e o governo democrata de Barack Obama. A aversão mútua continuará a minar a confiança de investidores sobre a redução consistente, em longo prazo, da dívida pública e do déficit fiscal do governo federal. O ritmo de crescimento econômico, por mais que se acelere, estará sujeito a pausas decorrentes dessa polarização. Pelo menos, até 2017.

A aversão mútua se traduz em diálogo difícil, por vezes desrespeitoso e impossível, entre os dois lados. O Tea Party, facção radical do partido republicano, comanda há dois anos e meio a Câmara dos Deputados. Seu ideário está baseado na mínima presença e interferência do Estado na economia e na vida dos cidadãos e na redução agressiva do saldo negativo das contas públicas e do endividamento, sem sensibilidade com os impactos sociais dessas iniciativas. Essa agenda colide - propositalmente - com a preocupação social do partido democrata, acentuada no programa de governo de Obama.

A eleição de Obama, o primeiro presidente negro dos EUA, e sua agenda de reforma da Saúde fermentaram a reação do eleitorado do Tea Party. Obama venceu a reeleição de 2012 com 3,9 pontos porcentuais de vantagem, no voto nacional, sobre um candidato ruim, o republicano Mitt Romney, frequentemente comparado a um boneco de plástico. Os republicanos preservaram seu domínio da Câmara. Os democratas asseguraram a maioria no Senado. Ambos os lados, porém, mantiveram-se arrogantes dentro de suas trincheiras, cegos ao interesse nacional e em diálogo apenas com seus distritos eleitorais - no caso do Tea Party, os habitados por conservadores de origem anglo-saxã.

Antecipado pela paralisia do governo Obama, hoje em seu 16º dia, o impasse atual sobre o teto da dívida pode arrastar a economia americana e o resto do mundo a uma crise tão dura quanto a de 2008, advertiu na semana passada o Fundo Monetário Internacional (FMI). O Tesouro americano não terá autorização legal para emitir títulos públicos. Em seus cofres, restarão cerca de US$ 600 bilhões para os pagamentos mais urgentes. Os EUA terão de suspender os pagamentos da dívida e de fornecedores pela primeira vez em sua história, mesmo sem estarem submersos em uma crise de incapacidade fiscal de resgate de seus compromissos.

Nos impasses anteriores, houve acordos na última hora ou nos dias seguintes, de forma a evitar a vexaminosa suspensão de pagamentos. No início de agosto de 2011, depois de quatro semanas de acordos e recuos, ambos os lados concordaram com o corte de US$ 2,1 trilhões no déficit público federal, em dez anos, e com o aumento imediato de US$ 400 milhões no teto da dívida, que passou para US$ 14,7 trilhões. O acerto previa a elevação de mais US$ 500 bilhões, para US$ 15,2 trilhões, no mês seguinte, e mais US$ 1,2 trilhão a US$ 1,5 trilhão no final do ano, se os gastos comprovadamente caíssem até dezembro. A dificuldade política para se extrair esse acerto, ao longo do mês de julho, levou a Standard & Poor´s a reduzir a avaliação de risco de crédito dos EUA.

Embora sem resultados práticos, a queda na nota americana tornou-se uma mácula, ainda não contornada e em risco de ser reforçada por sua nova redução nos próximos dias. No final de 2012, durante a negociação do plano definitivo de ajuste nas contas públicas dos EUA para os dez anos seguintes, novo impasse foi observado. O país estava por alcançar o limite da dívida, e o tema entrou na barganha entre o governo Obama e os republicanos dominados pelo Tea Party. Os dois lados evitaram o chamado "abismo fiscal" com o acordo sobre as mudanças na tributação, no dia 2 de janeiro deste ano. Mas a decisão sobre os cortes nos gastos públicos foi postergada e impediu o aumento do limite dívida em US$ 1,2 trilhão a US$ 1,5 trilhão, como era esperado.

O Tesouro começou 2013 restringindo pagamentos. Com isso, economizou US$ 200 bilhões para aguentar-se até as negociações de fevereiro. Apenas em maio foi obtido o aval do Congresso ao aumento definitivo do teto da dívida, para US$ 16,7 trilhões, que deverá se esgotar nesta quinta-feira. A novela está longe de terminar, com ou sem acerto. Os republicanos do Tea Party, mesmo responsabilizados por boa parte da Nação por uma eventual suspensão de pagamentos e por suas consequências para a economia real, continuam respaldados por seus eleitores cativos, reunidos em distritos eleitorais convenientemente traçados para garantir a vitória de seus candidatos. Infelizmente, só o fim do mandato do primeiro presidente negro dos EUA, tenderá a aliviar a tensão. Mesmo que seu sucessor seja um democrata... porém, branco.

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