Alan Santos/PR - 19/05/2022
Alan Santos/PR - 19/05/2022

Radicalismos e estagnação

Nos últimos 40 anos, a renda per capita brasileira cresceu à taxa média anual real de 0,7% conforme dados do Ibre/FGV

Claudio Adilson Gonçalez*, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2022 | 05h00

Nos últimos 40 anos, a renda per capita brasileira cresceu à taxa média anual real de 0,7% conforme dados do Ibre/FGV. Nesse ritmo, seria necessário aproximadamente um século para o Brasil atingir o atual nível da renda por habitante de Portugal.

Estagnação dessa magnitude somente pode ser explicada pelo populismo e por gigantescos equívocos de política econômica que marcaram, principalmente, os governos mais próximos dos extremos ideológicos, da direita e da esquerda.

A ditadura militar, após o elevado crescimento induzido pelo protecionismo e por gigantescas obras públicas financiadas com capital externo, deixou a verdadeira herança maldita: hiperinflação e crise nas contas externas. O saudoso professor Mário Henrique Simonsen dizia que “inflação aleija, mas câmbio mata”. Pois bem, os militares deixaram esses dois legados quando saíram do poder, em 1985.

José Sarney, o primeiro presidente civil pós-ditadura, não dispunha de diagnóstico correto dos complexos problemas que herdara, tampouco de apoio político para enfrentá-los de forma eficaz.

Após o controle da inflação, pelo Plano Real, em 1994, os oito anos do governo FHC (1995-2002) foram marcados por um grande conjunto de reformas estruturantes, apesar da sucessão de crises externas que teve de enfrentar: México (1994-1995), Tigres Asiáticos (1997) e calote da dívida russa (1998).

Nos 13 anos de gestão petista, a política econômica foi conduzida pela ótica do nacional-desenvolvimentismo, ou seja, fechamento da economia, subsídios generosos, dirigismo estatal e expansão dos gastos públicos sem avaliação dos custos e benefícios das políticas por eles financiadas. As receitas provenientes do boom das commodities, nos dois mandatos de Lula, turvaram a visão para as enormes distorções que estavam sendo criadas.

Bastou a piora das relações de troca, com a queda das cotações das commodities, para a crise econômica aparecer com força no final do primeiro mandato de Dilma Rousseff.

O curto e conturbado mandato de Michel Temer conseguiu avanços importantes, com algumas reformas microeconômicas e com medidas para conter a deterioração fiscal.

Já Bolsonaro, eleito com quase 58 milhões de votos, não se empenhou em prosseguir o programa de reformas iniciado por seu antecessor. A reforma da previdência, cujo desenho já estava maduro há anos, ocorreu pelo esforço do Legislativo e não do governo. Paulo Guedes, entre outros equívocos, enterrou as boas PECs 45 e 110/2019, pois jamais compreendeu os significativos impactos positivos sobre o crescimento potencial da ampla reforma da tributação do consumo estabelecida nessas propostas.

O despreparo e os radicalismos de Bolsonaro mancharam a reputação internacional do País, ampliaram a desigualdade e a pobreza, pioraram a educação e a saúde e tornaram mais difícil a tarefa de vencer a estagnação. 

*Economista e diretor-presidente da MCM Consultores, foi consultor do Banco Mundial, subsecretário do Tesouro Nacional e chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda

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