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Raio X da inflação

O bom cenário pode mudar quando a ociosidade de recursos sumir e se o buraco fiscal não for equacionado

Claudio Adilson Gonçalez, O Estado de São Paulo

01 de janeiro de 2018 | 05h00

Para períodos de tempo relativamente curtos, podemos explicar a inflação a partir da ação de cinco fatores. O primeiro é o menor ou o maior grau de utilização dos recursos produtivos, conhecido na literatura técnica como hiato do produto. O segundo é dado pela inércia, ou seja, a influência da inflação passada sobre a futura. O terceiro são as expectativas. O quarto é a variação nominal da taxa de câmbio. Finalmente, temos os choques, ou seja, acontecimentos inesperados que geram altas ou quedas de preços, tais como os decorrentes da meteorologia. Vejamos como cada um tende a atuar na determinação da inflação brasileira de 2018.

O hiato do produto nada mais é que a diferença entre o valor efetivo da produção de bens e serviços (PIB observado) e o que poderia ser produzido (PIB potencial), dadas as disponibilidades de recursos produtivos (trabalho, capital e nível de produtividade). Quando o PIB efetivo está abaixo do potencial, por escassez de demanda, como é o caso atual, o hiato do produto é negativo e a inflação tende a cair. Ocorre o contrário quando o hiato do produto é positivo, ou seja, quando há excesso no uso dos fatores de produção. Trata-se de situação insustentável, que enquanto não corrigida causará aumento contínuo da inflação.

Se as estimativas da maior parte dos analistas estiverem relativamente corretas, inclusive as minhas, o hiato do produto atual é negativo e enorme, algo como 6% a 7%, quando expresso como proporção do PIB potencial. Assim, por esse canal, a inflação em 2018 seria ainda menor que a de 2017, que deve ter fechado o ano em 2,8% (IPCA), abaixo do piso de 3% estabelecido pela meta.

O segundo fator, a inércia, também deverá contribuir para reduzir a taxa de inflação em 2018. A maior causa da forte componente inercial na inflação brasileira é a prática disseminada da indexação formal ou informal de preços e contratos, inclusive do salário mínimo, cuja correção, neste ano, com base no INPC, ficará em torno de 2%, ante 6,6% em 2017. Sem falar no IGP-M, geralmente adotado nos contratos de locação, que encerrou o ano com variação negativa (-0,52%).

O terceiro fator, as expectativas, tende a ser neutro ou ligeiramente inflacionário, já que se espera elevação moderada da taxa de variação dos preços. Quanto ao câmbio, não vejo problema significativo para a inflação, apesar das incertezas eleitorais, dadas a solidez das contas externas brasileiras e a alta liquidez internacional.

Se encerrássemos aqui a análise, concluiríamos que o IPCA em 2018 seria ainda menor do que o de 2017, o que levaria o Banco Central a ter de explicar novamente os motivos de não ter conseguido colocar a inflação no intervalo da meta. Contudo, ainda restam os choques. Por definição, choques são imprevisíveis e podem atuar tanto para elevar como para reduzir a inflação.

Mas aos economistas não é dado o direito de alegar que suas bolas de cristal não conseguem prever os choques, principalmente no dia em que se comemora o novo ano, quando os exercícios de adivinhação proliferam. Continuemos, então.

Os choques tendem a afetar mais os alimentos e os preços administrados. Os primeiros certamente subirão e exercerão pressões inflacionárias. Mas os enormes estoques de passagem de grãos, no Brasil e no mundo, tendem a limitar tais pressões.

Os administrados também deverão concorrer para alta do IPCA, especialmente energia elétrica, taxa de água e ônibus urbanos, mas nada muito dramático.

Pondo tudo isso junto, projeto IPCA entre 3,8% e 4,2% em 2018. Mais uma vez abaixo do centro da meta, o que possibilitará ao Banco Central manter a política monetária com viés expansionista. Pergunta-se: derrotamos, de forma duradoura, a inflação? Claro que não. Tudo isso mudará drasticamente quando a atual ociosidade de recursos desaparecer e se o buraco fiscal não for equacionado pelas tão aguardadas reformas estruturais.

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