RALLY-Pecuaristas de MS avaliam ganho de escala como alternativa

O aumento do rebanho é visto como uma saída para driblar a atual baixa rentabilidade da pecuária em fazendas de Mato Grosso do Sul, uma vez que o ganho de escala permite a diluição dos custos com a intensificação da atividade e a melhora do desempenho, disseram representantes do setor visitados pelo Rally da Pecuária nesta semana.

FABÍOLA GOMES, Reuters

26 de setembro de 2012 | 15h27

"Ganhar escala é uma questão de sobrevivência, principalmente se não tiver uma mudança nos preços pagos (ao pecuarista)", disse Edgar Ribeiro da Silva, administrador da Fazenda Bodoquena, que pertence ao Grupo Votorantim.

A fazenda no município tem uma área total de 80 mil hectares, dos quais 38 mil hectares são de pasto nativo e 28 mil hectares de pasto cultivado, com a área restante destinada a reservas legais e áreas de preservação.

A propriedade conta com 42 mil cabeças, mas vem crescendo o rebanho ano a ano, com a meta de atingir 50 mil cabeças até 2016.

A estratégia da fazenda aponta uma situação extrema no setor, que recentemente registrou preços pagos pelo boi abaixo dos custos de produção.

Com os preços da arroba do boi na faixa de 90 reais, como os atuais, a fazenda só consegue equilibrar custos e receitas. E o administrador avalia que o grupo pode até mudar de atividade caso não vislumbre um cenário de maior rentabilidade em um prazo de dez anos.

Ele atribui a situação à política dos frigoríficos, que contam com seus próprios confinamentos, para reduzir a alta dos preços da arroba na entressafra, no período da seca, diminuindo a oscilação de valores típica da época.

O setor tem registrado leve recuperação de preços nesta segunda quinzena de setembro, em meio à oferta mais restrita no período da entressafra.

Maurício Nogueira, diretor da Bigma Consultoria, que realiza a expedição técnica do Rally juntamente com a Agroconsult, lembra que além da escala, o setor precisa investir na tecnologia, elevando a produtividade.

Estimativa da Bigma aponta que o rendimento médio da pecuária brasileira atualmente está em 3,6 arrobas por hectare, mas precisaria chegar a 15 arrobas para competir com a agricultura, que investe fortemente no pacote tecnológico.

A amostragem feita no ano passado durante o Rally da Pecuária apontou um rendimento médio de 7,5 arrobas por hectare.

CUSTOS

O administrador da Fazenda Bodoquena pondera que apesar da alta recente, com os preços pagos no mercado à vista atingindo a marca de 94 reais por arroba em alguns negócios, o setor ainda sofre com os custos elevados. Há 30 dias, estes preços oscilavam entre 86-88 reais.

"Comprávamos farelo de soja 500 reais (a tonelada) e hoje está impraticável, isso quando encontramos", disse ele, acrescentando que a tonelada chega a custar 1.500 reais atualmente, e mesmo sim é grande a dificuldade para encontrar o produto.

A alta tem impacto direto nas decisões de confinamento da propriedade. "Como a fazenda montou uma estratégia de fazer a maior parte da terminação (engorda dos animais) em confinamento, estes preços estão inviabilizando o volume que a fazenda trabalha hoje", disse.

Ele acrescentou que, além dos grãos, a alta se estendeu a outros insumos como o sal mineral, um complemento da alimentação dos animais, que no ano passado era encontrado 25-27 reais e hoje chega a 40 reais.

"Todos os nossos custos subiram e os preços (da arroba) recuaram. Então, o que está acontecendo, estamos produzindo com mais eficiência e não estamos conseguindo boa rentabilidade", disse.

O pecuarista Rodrigo Miranda Vieira, cuja propriedade fica em Nova Alvorada do Sul (MS), também disse estar preocupado com o salto dos preços de grãos, que comprometem a rentabilidade do confinamento.

Com oito mil cabeças de gado, das quais metade seguem para confinamento em duas etapas, ele distribui as vendas entre junho e julho e depois entre outubro e novembro, na tentativa de conseguir melhores preços no mercado.

"O aumento foi 40-50 por cento de farelo de soja, enquanto a arroba recuou... agora que voltou a subir", disse Vieira, ressaltando que a baixa no primeiro semestre não era esperada, e atribui este período a uma demanda mais fraca internamente, uma vez que pouco mais de 80 por cento da oferta de carne fica no mercado nacional.

Vieira ressalta que a escala maior, com grande oferta de animais, permite que ele negocie em melhores condições preços da arroba.

Tanto ele como o administrador Bodoquena vendem praticamente toda a produção para frigoríficos do JBS, o principal da região, mas tradicionalmente realizam vendas no mercado disponível, para aproveitar os melhores momentos de preços especialmente na entressafra.

Esta estratégia foi impactada pelo salto nos preços de grãos. Com a seca no Brasil no início deste ano, que reduziu em quase 10 milhões de toneladas a safra de soja, e a quebra da safra norte-americana, os preços atingiram níveis recordes no mercado internacional, puxando os valores praticados internamente.

Tradicionalmente, os grãos têm menor influência na pecuária no período da safra, em que o gado fica no pasto. Contudo, têm impacto maior no confinamento, quando a seca afeta o potencial nutritivo das pastagens. Neste período, a alimentação dos animais é complementada com os grãos, até o retorno das chuvas, que permitem à recuperação dos pastos.

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