Raspando o fundo do tacho

Governo da Grécia tenta evitar a moratória com uma medida emergencial por vez

O Estado de S.Paulo

14 Maio 2015 | 02h05

A Grécia corre o sério risco de ficar sem dinheiro. Até seu ministro de Finanças, Yanis Varoufakis, precisou deixar de lado o otimismo impertinente que é sua marca registrada e reconhecer a situação desesperadora das finanças públicas do país, dizendo a repórteres, após uma reunião dos ministros de Finanças europeus, na segunda-feira: "A questão da liquidez é urgentíssima... do ponto de vista (de prazo), nosso horizonte não vai além das próximas semanas". No mesmo dia, Varoufakis recorreu à conta de depósito que a Grécia mantém no Fundo Monetário Internacional (FMI) para quitar uma parcela de 750 milhões da dívida que o país tem com o próprio FMI. Embora incomum, a medida é permitida pelas regras do Fundo em caráter emergencial. Autoridades gregas dizem que pretendem repor o dinheiro no futuro, embora não tenham especificado uma data. Dadas as circunstâncias atuais, é provável que seja um futuro distante.

Desde fevereiro, Varoufakis tenta obter recursos para que o governo possa pagar aposentados e salários do setor público e, ao mesmo tempo, consiga cumprir o apertado cronograma de desembolsos referentes ao empréstimo de emergência concedido à Grécia. Autoridades do ministério admitem que sem os 750 milhões sacados da conta de depósito, os funcionários públicos não receberiam a parte dos salários paga na quarta-feira. Agora os gregos vão atrás de outros 650 milhões para garantir que as aposentadorias e a outra parte dos salários possam ser pagas no fim do mês.

No entanto, as conversas com os credores sobre a concessão de um novo empréstimo de emergência não parecem ter avançado muito. O clima desanuviou depois que Euclid Tsakalotos, vice-ministro de Assuntos Econômicos, assumiu o comando das negociações, substituindo o combativo Varoufakis. Mas os dois lados ainda estão longe de um entendimento no tocante a temas delicados, como os cortes nas aposentadorias e o aumento do imposto sobre o valor agregado, embora tenham progredido no que diz respeito às privatizações e às metas fiscais deste ano.

Varoufakis esperava que a reunião de segunda-feira resultasse numa clara manifestação de confiança no avanço das negociações. Um pronunciamento favorável dos ministros de Finanças da zona do euro, calculava ele, levaria o Banco Central Europeu (BCE) a autorizar que a Grécia emitisse mais títulos de curto prazo, aliviando a pressão sobre os pagamentos. Para sua decepção, o pronunciamento divulgado após a reunião incluiu a advertência de que "são necessários mais tempo e esforço para superar as divergências". Wolfgang Schaeuble, o ministro de Finanças alemão, pôs os pingos nos is ao dizer que "uma coisa é as conversas transcorrerem num clima mais ameno, outra coisa é avançar nas negociações".

Dúvida. Parece cada vez mais improvável que a Grécia consiga cumprir as exigências para destravar os 7,2 bilhões de ajuda até o fim de maio. Não se trata apenas de chegar a um acordo: a União Europeia (UE) só liberará o dinheiro depois que as reformas forem aprovadas pelo Parlamento grego e implementadas pelo governo. O impasse com a UE e o FMI sobre as novas reformas a serem adotadas já dura tanto tempo que Atenas está sem acesso a recursos de emergência há quase um ano.

Outra razão para as dificuldades de caixa da Grécia é a queda drástica na arrecadação tributária. O esquerdistas radicais do Syriza, partido que assumiu o comando do país em janeiro, aprovaram leis permitindo aos contribuintes inadimplentes com o Fisco saldarem seus débitos em até 100 parcelas e, ao mesmo tempo, reduzindo o valor das multas para todos os que se comprometam a pagar o total devido. A desaceleração da economia também não ajudou: o Produto Interno Bruto (PIB)da Grécia encolheu 0,2% no primeiro trimestre deste ano.

Hospitais, universidades e autoridades locais foram obrigados a transferir recursos das suas reservas de caixa para o "fundo comum" do Banco Central, gerido pelo Departamento de Administração da Dívida Pública. Valores não utilizados dos fundos estruturais da UE que cabem à Grécia, além de transferências voluntárias dos fundos de pensão estatais, também ajudaram. O Ministério de Finanças tem atrasado o pagamento de fornecedores do governo.

O esforço para raspar o fundo do tacho talvez funcione de novo este mês, diz uma autoridade do Banco Central que monitora o processo, mas está longe de ser algo líquido e certo. Como também não é a aposta de que a Grécia conseguirá permanecer na zona do euro.

© 2015 THE ECONOMIST, TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O ARTIGO ORIGINAL, EM INGLÊS, PODE SER ENCONTRADO EM

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