Rato vê risco maior no cenário global

Para diretor do FMI, lista dos perigos inclui petróleo mais caro e maior protecionismo, além do crescimento menor

Rolf Kuntz, O Estadao de S.Paulo

19 de outubro de 2007 | 00h00

A economia mundial enfrenta hoje riscos maiores do que há seis meses, embora a turbulência nos mercados financeiros tenha amainado, disse ontem o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Rodrigo de Rato. A redução do crescimento econômico é apenas parte do novo cenário. A lista dos perigos inclui petróleo mais caro e maior protecionismo comercial. Além disso, alguns emergentes terão de financiar buracos em suas contas externas em condições de mercado menos favoráveis. É o caso, principalmente, de alguns países do Leste Europeu.A pauta da assembléia anual dos 185 membros do FMI, nesta semana, será em grande parte determinada por essas preocupações, lembrou Rato numa entrevista coletiva. ''''A turbulência no mercado revela o alcance e os riscos da globalização: não estão em perigo somente os fornecedores originais de empréstimos nos Estados Unidos, mas também bancos no Reino Unido e na Alemanha, tomadores de crédito na Europa Oriental e exportadores na Ásia e na África. Tudo isso aponta para a importância vital da cooperação multilateral em questões do mercado financeiro'''', disse Rato. Essas questões, acrescentou, serão parte importante da agenda do Fundo não só na reunião anual de 2007, mas também nos próximos anos.A continuação da reforma iniciada há um ano, em Cingapura, quando foram concedidas maiores cotas à China, à Turquia, à Coréia e ao México, será o segundo grande assunto da reunião anual. ''''Para continuar eficientes na promoção de uma economia global saudável e sustentável, também estamos ativamente cuidando de temas ligados à legitimidade do Fundo e de seus conselhos'''', disse o diretor-gerente.Esses temas incluem a redistribuição de poder na organização, com aumento do peso do voto dos emergentes e dos pobres, por meio de uma revisão do sistema de cotas. Deve haver não só uma redistribuição, mas também uma alteração dos votos básicos, independentes da participação de cada sócio no capital do FMI. ''''Os marcos ultrapassados ao longo do ano não são tão dramáticos, mas são importantes e permitem acreditar na conclusão das reformas da governança do FMI até a reunião de 2008'''', acrescentou.O diretor-gerente usou a palavra legitimidade pelo menos quatro vezes durante a entrevista. ''''Legitimidade é uma questão essencial para qualquer instituição política'''', afirmou quase no final. ''''Estamos reforçando nossa legitimidade'''', acrescentou, reafirmando a importância de atribuir maior poder de manifestação aos países em desenvolvimento.O primeiro aumento de cotas, oficializado na assembléia anual de Cingapura, em setembro do ano passado, beneficiou apenas quatro associados. Segundo a justificativa oficial, o objetivo foi corrigir alguns desequilíbrios mais evidentes entre peso econômico e poder de voto. O Brasil e a Índia ficaram fora dessa rodada, apesar dos protestos de seus ministros da Fazenda.O ministro brasileiro Guido Mantega chegou a desqualificar o primeiro passo da reforma: ''''A montanha pariu um rato'''', disse ele numa entrevista, fazendo um trocadilho ostensivo com o nome do diretor-gerente do FMI. No discurso de encerramento da reunião, Rato agradeceu as contribuições dos ministros brasileiro e indiano ao debate sobre as mudanças.Na entrevista de ontem, o diretor cobrou dos grandes emergentes maiores responsabilidades internacionais, como contrapartida de seu maior peso econômico. A conclusão da Rodada Doha de negociações comerciais, exemplificou, depende também da contribuição de Brasil, China e Índia.As sessões oficiais da reunião anual começarão no sábado e terminarão na segunda-feira, mas várias atividades preparatórias foram iniciadas na terça-feira. O programa de reformas inclui não somente a questão dos votos e o fortalecimento das funções de supervisão e de prevenção atribuídas ao FMI, mas também mudanças na administração. Para os próximos três anos está previsto um corte real de 6% nas despesas da instituição.

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