Razões do dólar

Será mais fácil acertar, amanhã à tarde, o nome da escola de samba campeã do carnaval carioca do que a tendência da cotação do dólar, na reabertura do mercado financeiro. Há critérios, nos dois casos, para contar os pontos ou desenhar a trajetória da taxa de câmbio. Mas os imprevistos e imponderáveis presentes, tanto na formação das notas dos quesitos avaliados pelos jurados no Sambódromo quanto na cotação do dólar são tantos que fica muito difícil - para não dizer impossível - acertar os resultados.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2015 | 02h03

O dólar, que começou a semana pré-carnaval com saltos - e provocando sobressaltos -, chegou ao recesso dos dias de folia em ponto mais acomodado. Bateu na trave de R$ 2,90 e fechou, na sexta-feira, em R$ 2,84. O período que vem pela frente é instável e dá espaço para novas altas. Mas daí a que elas se confirmem vai uma estrada com muitas curvas, subidas e descidas.

É possível observar uma escalada da cotação do dólar desde setembro do ano passado, quando a moeda americana valia R$ 2,25. O longo processo de alta levou a taxa a R$ 2,70, no fim do ano. O movimento se acentuou desde janeiro e ganhou ainda mais impulso em fevereiro, após uma declaração do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, acenando com uma política cambial menos intervencionista.

Há razões de sobra para a movimentação altista do dólar. São causas externas e internas. A matriz do movimento atual é a perspectiva, cada vez mais real, de retomada da alta dos juros, nos Estados Unidos. Nesta Quarta-Feira de Cinzas, por sinal, será divulgada a ata da mais recente reunião do Comitê de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do Federal Reserve, o banco central americano, em que os analistas esperam colher mais detalhes do processo de alta dos juros, cujo início está previsto para meados do ano.

A lógica financista, que promove essa expectativa de revoada de capitais internacionais para o mercado americano, é implacável. Se o mercado mais seguro recupera rentabilidade, a transferência de recursos de outros mercados e, sobretudo, dos emergentes, como o do Brasil, tende a ser quase automática, enxugando a liquidez dirigida ao resto do mundo.

Não há, porém, a menor dúvida de que questões internas - não só econômicas, mas também políticas - fornecem base de sustentação consistente à puxada nas cotações. Não existe nada mais efetivo para catapultar o dólar do que incertezas - e incertezas é o que não falta no ambiente econômico e político brasileiro.

A instabilidade atual do mercado de câmbio revela, no plano das causas domésticas, uma combinação adversa de desequilíbrios econômicos, refletidos em índices de crescimento baixos, inflação alta e déficit crescente em transações correntes, com problemas políticos incomuns em início de mandatos. A presidente Dilma Rousseff, de fato, começou seu segundo governo como muitos terminam. Ela enfrenta dissidências na base de sustentação do governo, tem sofrido sucessivas derrotas fragorosas no Congresso e convive com a sombra de um impeachment, alimentado pelas revelações da espantosa rede de corrupção que atinge e paralisa a Petrobrás.

Não são, portanto, apenas movimentos especulativos que impulsionam, no momento, as cotações do dólar. Mas saber até que ponto a onda pode ir é sempre um exercício bastante arriscado. A centena de analistas de conjuntura consultada semanalmente pelo Banco Central, cujas previsões são divulgadas no Boletim Focus, projeta hoje uma taxa de câmbio de R$ 2,80 para o fim do ano. Isso, contudo, não quer dizer muito porque as previsões do Focus para a taxa de câmbio têm ficado, historicamente, longe da realidade. De todo modo, o governo dispõe de ferramentas em geral eficazes - os swaps cambiais e a taxa básica de juros - para evitar que as cotações disparem.

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