Nick Oxford/Reuters
Nick Oxford/Reuters

Recessão global deve mudar a dinâmica do mercado de petróleo mais uma vez

Com certeza estamos vivendo a maior crise de energia desde os dois choques do petróleo nos anos 1970; é provável que a saída para reduzir o preço do barril de petróleo e desacelerar as taxas de inflação será um aumento dos juros

Adriano Pires*, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2022 | 04h00

Parece que o rali dos preços do barril do petróleo vai continuar. O presidente do JPMorgan aposta num barril a US$ 175, o Goldman fala num petróleo na média de US$ 125. O mundo inteiro busca saídas para conter o aumento dos combustíveis que está provocando uma inflação galopante por toda a parte.

De 1985 a 2021, o crack spread – diferença entre o preço do petróleo e dos refinados – foi em média de cerca de US$ 10,50 por barril. Agora subiu para uma alta histórica de quase US$ 61. Pouquíssimas novas refinarias entrarão em operação nos próximos 18 meses, sugerindo que as margens podem continuar altas neste ano e em 2023.

Diante deste cenário, diferentes países vêm adotando soluções semelhantes: reduções de impostos e mesmo subsídios para a gasolina e o diesel. A lista dos 11 países europeus que cortaram impostos são: Bélgica, Croácia, Alemanha, Hungria, Irlanda, Itália, Holanda, Polônia, Portugal, Suécia e Reino Unido. Nos Estados Unidos, vários Estados, entre eles Nova York, estão suspendendo ou congelando a cobrança de imposto que incide sobre os combustíveis.

O próprio presidente Biden pediu que as refinarias reduzam seus preços e, consequentemente, seus lucros. No Japão, o governo está dando um subsídio para os fornecedores de petróleo não passarem os reajustes aos consumidores.

No Brasil, o Congresso aprovou o Projeto de Lei Complementar (PLP) 18/2022, que reduz o ICMS dos combustíveis para 17%. E deve ser aprovada Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que promoverá uma redução ainda maior no diesel.

Com certeza estamos vivendo a maior crise de energia desde os dois choques do petróleo nos anos 1970. E, muito provavelmente, a saída para reduzir o preço do barril de petróleo e desacelerar o crescimento das taxas de inflação será um aumento dos juros, como ocorreu após o segundo choque do petróleo, no final de 1979. Naquela ocasião, para conter o crescimento da inflação, o então presidente do Federal Reserve (Fed), Paul Volcker, promoveu uma alta na taxa de juros que chegou em junho de 1981 a 20%. Isso ficou conhecido como o contrachoque do petróleo e desencadeou uma enorme recessão, levando países como o Brasil a decretarem moratória da dívida, promovendo a chamada década perdida.

Aparentemente, caminhamos para a mesma solução.

As ações das empresas globais de óleo e gás caíram 15% (em dólar) em junho diante dos rumores de uma desaceleração da economia. A inflação nos Estados Unidos já chegou a 8,6% em maio, a maior desde 1981, e o Fed realizou uma alta nos juros de 0,75, a maior realizada desde 1994.

A boa notícia é que, diferentemente dos anos 1970 e 1980, o Brasil hoje não possui dívida externa e somos exportadores de petróleo. Parece que mais uma vez a recessão global mudará a dinâmica do mercado de petróleo. 

* DIRETOR DO CENTRO BRASILEIRO DE INFRAESTRUTURA (CBIE)

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