Reuters/Joe Skipper
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Reação em cadeia

Por que, para aflição dos agricultores, as grandes empresas químicas estão se fundindo

The Economist, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2017 | 05h00

Com a chegada da primavera no Hemisfério Norte, as folhas das videiras recobrem de verde as colinas do Languedoc, no sul da França. O fenômeno conta com o amparo dos defensivos agrícolas – utilizados em grande quantidade, confessa um vinicultor, cuja propriedade fica próxima ao vilarejo de Thuir, nos Pirineus. Na falta desses produtos agroquímicos, seria preciso usar fertilizantes naturais e arrancar manualmente as pragas que atacam as plantas; duas alternativas dispendiosas. Na Europa, ninguém faz uso tão intensivo de agrotóxicos quanto os agricultores franceses: são 65 mil toneladas só de pesticidas todos os anos.

Por isso, até os pequenos vinicultores estão de orelha em pé com uma série de aquisições envolvendo seus principais fornecedores de defensivos agrícolas. De 2015 para cá, após uma década sem negócios mais retumbantes, três grandes fusões foram postas na mesa, envolvendo um montante total de cerca de US$ 240 bilhões. Inicialmente, quando as transações foram anunciadas, muitos duvidaram que as autoridades antitruste fossem aprová-las. Se as três receberem sinal verde, como agora parece provável que aconteça, quatro empresas, e não mais seis, como hoje, serão responsáveis pela produção de 70% dos pesticidas utilizados no planeta.

A primeira grande fusão, anunciada em dezembro de 2015, foi a da Dow Chemical com a DuPont, quarta e quinta maiores empresas químicas do mundo em valor de mercado. Trata-se de um negócio de US$ 130 bilhões. É a maior fusão da história do setor, e acabou impulsionando outros negócios. Um ano depois, foi a vez da gigante alemã Bayer concordar em se juntar com a americana Monsanto, especializada em sementes, numa transação valendo US$ 66 bilhões. Passados mais dois meses, a gigante chinesa ChemChina ofereceu US$ 43 bilhões em dinheiro pela suíça de biotecnologia Syngenta. Agora, os chineses também querem se unir com uma concorrente local, a Sinochem, a fim de criar uma empresa com faturamento de aproximadamente US$ 100 bilhões.

E a onda de fusões extravasou do segmento de defensivos para o restante do setor químico; em particular, para empresas que fabricam produtos “especiais”. Em 22 de maio, a Clariant e a Huntsman, fabricantes, entre outras coisas, de aditivos para pesticidas, concordaram na fusão de iguais, num negócio de US$ 14 bilhões. Em abril, a fabricante americana de tintas PPG já tinha se prontificado a pagar quase o dobro disso por sua concorrente holandesa AkzoNobel, que rejeitou a oferta, embora os americanos continuem insistindo. Em 24 de maio, as fornecedoras de gás industrial Praxair e Linde anunciaram uma fusão de iguais no valor de US$ 70 bilhões.

O principal motor dessa onda de negócios é a forte desaceleração no crescimento da demanda de todos os tipos de produtos químicos, explica P. J. Juvekar, do Citigroup. Nos anos 2000, as vendas aumentavam a uma taxa de 6% ou 7% ao ano. Em 2016, com a demanda chinesa extremamente desaquecida, o setor cresceu só 2%. Os executivos veem no aumento de escala uma forma de reduzir custos.

Custo. A alta expressiva dos gastos com o desenvolvimento de novos produtos químicos é outro fator, diz Kurt Bock, CEO da gigante alemã Basf. Na Europa, o custo médio de desenvolvimento de uma nova substância ativa, que era de US$ 150 milhões em 1995, chega hoje a mais de US$ 500 milhões. A maior parte disso é empregada em testes que verificam a segurança do produto. No mesmo período, o número de compostos potenciais que precisam ser sintetizados e testados para cada nova substância, a fim de identificar eventuais efeitos prejudiciais à saúde, aumentou de 50 mil para mais de 140 mil, envolvendo processos que podem levar até dez anos para serem completados. Com ciclos de desenvolvimento mais demorados, as empresas precisam ter fôlego financeiro para manter maior número de projetos simultaneamente em andamento.

Normas mais rígidas, adotadas em toda a União Europeia, reduziram o número de pesticidas que os agricultores podem aplicar em suas plantações: de quase 1 mil no início da década de 90 para cerca de 400 hoje, observa Robert de Graeff, da Organização Europeia de Proprietários de Terras. Caso o aumento de escala signifique que as empresas terão os recursos necessários para investir no desenvolvimento de novos produtos, os membros da associação verão o processo de consolidação com bons olhos.

Mas os agricultores também estão temerosos. Não querem ficar excessivamente dependentes de combinações de sementes e defensivos agrícolas de uma única empresa. As três grandes fusões envolvem uma companhia focada em sementes e outra em agroquímicos. Muitos agricultores receiam se ver numa situação em que tenham necessariamente de usar os pesticidas da mesma empresa que lhes fornece as sementes. Segundo Roger Johnson, presidente da União Nacional de Agricultores dos EUA, aos olhos de seus associados nenhuma das fusões cheira a coisa boa. O aumento da consolidação também pode significar que as empresas químicas terão condições de cobrar preços mais altos, teme Johnson, além de serem menos pressionadas a desenvolver novos produtos.

As fusões precisam passar pelo crivo das autoridades antitruste. A UE aprovou as fusões da Dow com a DuPont e da ChemChina com a Syngenta; e agora é quase certo que esses negócios serão concretizados, diz Juvekar. A Bayer está em conversações com as autoridades sobre sua fusão com a Monsanto; os analistas acham que também esse negócio receberá sinal verde.

A condescendência das autoridades tende a encorajar a realização de ainda mais negócios. A facilidade com que a compra da Syngenta pela ChemChina foi aprovada talvez anime outras companhias chinesas a vir atrás de empresas químicas ocidentais no futuro. Segundo Florian Budde, da consultoria McKinsey, por mais impressionantes que sejam os valores envolvidos, o fato é que a atual onda de negócios parece ser o início de um movimento de proporções ainda mais avassaladoras. Ao que tudo indica, os agricultores ainda terão muitos motivos para se preocupar.

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.  

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