Reação nos pedidos surpreende

Facilidade de crédito para compra de máquinas e reaquecimento da atividade aumentam vendas em até 40%

Márcia De Chiara, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2009 | 00h00

A repentina reação do mercado de máquinas e equipamentos surpreendeu os fabricantes e abriu a perspectiva de que os investimentos na economia sejam retomados antes do que se previa. Dante Battaglio, diretor da Avanço S.A., especializada na fabricação de tear circular para as gigantes do setor de confecções, viu o número de pedidos firmes para compra de teares crescer 40% a partir de agosto na comparação com julho.

A reação nos pedidos, segundo o empresário, reflete principalmente as facilidades de crédito oferecidas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e também o reaquecimento da atividade. "A crise não ficou para trás, mas estabilizou."

Outro segmento que teve retomada de pedidos de orçamento a partir de julho foi o de equipamentos de saneamento, usados no tratamento de água e efluentes de grandes indústrias. O presidente do Sindicato Nacional das Indústrias de Equipamentos para Saneamento Básico e Ambiental, Gilson Cassini, conta que, nos últimos meses, as empresas do setor têm recebido consultas de orçamentos de siderúrgicas, indústrias de papel e celulose e do setor químico. "Esse é um indicador importante. Não tenho dúvida de que há uma sinalização de volta do investimento."

A Haztec Aquamec, por exemplo, acaba de fechar um contrato de R$ 101 milhões para fornecer equipamentos destinados a tratamento de água e efluentes à nova fábrica de tubo de aço sem costura que a Vallourec Sumitomo está construindo em Jaceaba (MG).

Quando a crise eclodiu, conta o diretor da empresa Sérgio Ceccato, as negociações para a compra de equipamentos foram paralisadas. "Aparentemente, era irreversível. Mas a indústria está retomando." Segundo o executivo, a volta de pedidos de orçamento é gradativa para investimentos que devem deslanchar em 2010.

"A indústria não morreu e vai voltar a investir devagarzinho", afirma o sócio da RC Consultores Fabio Silveira. Mas a velocidade da recuperação da produção e do investimento é lenta e desigual e não deve suscitar euforia, pondera.

Apesar da reação positiva dos empresários na renovação dos equipamentos, Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, acredita que o desengavetamento dos investimentos deve ocorrer só em meados de 2010, quando o crédito para médias e pequenas empresas for restabelecido e o uso da capacidade das fábricas superar a média histórica.

PROJEÇÕES

Com esse cenário começando a aparecer, consultorias acreditam que a indústria deve mesmo puxar a atividade econômica no ano que vem. Projeções de cinco grandes consultorias privadas e bancos indicam forte reversão no desempenho para 2010. Para este ano, a queda na produção industrial é estimada entre 6,5% e quase 9% em relação a 2008. Em 2010, há projeções de até 12,5% de expansão.

"Os números da produção industrial são fortes tanto para 2009 como para 2010", afirma a economista da Tendências Consultoria Integrada Alessandra Ribeiro. Ela observa que a recuperação robusta da indústria, puxada pelo mercado interno e que deve resultar num crescimento de 9,3% em 2010, está em curso. Mesmo assim, este ano a produção industrial deve fechar com forte retração de 8,7% ante 2008. A maior parte do crescimento esperado para 2010, observa a economista, virá do efeito estatístico, isto é, da base fraca de comparação que é 2009.

Essa também é a avaliação da economista-chefe da Rosenberg & Associados, Thaís Marzola Zara. A consultoria projeta crescimento de 5% para a produção industrial em 2010 e retração de 6,5% este ano. "A produção industrial não voltará para o nível de 2008 no ano que vem", diz a economista.

Ela argumenta que o mercado externo ainda deprimido é um fator importante que tira o fôlego da produção industrial. "A questão é o desempenho da economia mundial. Não vemos uma recuperação tão rápida lá fora." Thaís observa que a produção industrial em 2010 deve ser puxada pelo bens intermediários, duráveis e bens de capital, enquanto os não duráveis devem continuar na mesma toada.

COLABOROU ANDREA VIALLI

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