Reajuste de 10% é exagero, diz Steinbruch

Para presidente da Fiesp, a questão salarial será uma bomba de efeito retardado na competitividade do País

Marcelo Rehder, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2010 | 00h00

O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Benjamin Steinbruch, disse ontem considerar o reajuste dos salários no Brasil, que tem superado a casa de 10%, "um exagero se comparado ao resto do mundo".

"Acho que essa questão salarial será uma bomba de efeito retardado. Se não nos cuidarmos, podemos ter grandes problemas no curtíssimo prazo", afirmou Steinbruch durante seminário para discutir o papel da indústria no crescimento do Brasil.

O presidente da Fiesp argumentou que hoje a prática salarial no mundo todo não é de aumento. "Se o Brasil quer ser competitivo, ele tem de ser competitivo em todos os fatores, até mesmo nos salários."

Para ele, a indústria sofre prejuízo ainda maior com o câmbio sobrevalorizado, que tira competitividade do produto nacional. "Esse aumento da massa salarial pode eventualmente ser consumido por produtos importados, o que distancia ainda mais a realidade brasileira do resto do mundo".

Importação de emprego. Steinbruch ressaltou ainda que o País não está importando só mercadorias, mas empregos também. "No ABC, onde estão sendo dados esses aumentos, o medo das empresas é de parar, e daí as negociações estão saindo um pouco desfocadas."

Procurado, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sérgio Nobre, disse que a competitividade só seria comprometida se o aumento real de salário fosse superior aos ganhos de produtividade. "A produtividade, na indústria automobilística, deu um salto de 34%, de 2002 para cá."

O sindicalista frisou ainda que o País está crescendo, mas o crescimento não é igual para todos setores. "O pessoal fala como se todas as categorias fossem ter reajuste de 10%, o que não é verdade."

Juros. Steinbruch demonstrou ainda insatisfação com os juros elevados e o atual nível do câmbio, que para ele está sobrevalorizado. "Para construir uma siderúrgica com capacidade de produção de cinco milhões de toneladas de aço, gasta-se perto de US$ 6 bilhões no Brasil, enquanto na China baixa para US$ 3 bilhões", afirmou, citando a diferença de custos estruturais.

Na China, os juros são mais baixos do que no Brasil e o câmbio é desvalorizado.

Ainda que tenha feito as críticas, Steinbruch declarou apoio ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, que esteve presente ontem em evento da Fiesp. O dirigente qualificou o ministro como "desenvolvimentista", elogiou a sua posição de buscar a expansão das indústrias brasileiras e de aumentar a criação de empregos no País, e dedicou total apoio da Fiesp à sua atuação na Fazenda. "Eu trabalho há 40 anos e nunca vi o Brasil em condições econômicas tão boas como as atuais. Hoje, o País é do presente, e não só do futuro. É uma referência para o mundo. Temos condições de caminhar pelas nossas pernas, de crescer com as nossas pernas", comentou.

Steinbruch acrescentou que o Brasil tem autonomia em todas as áreas produtivas para continuar avançando, sem depender de organismos multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, bem como de nações centrais. "O Brasil tem condições de ter, por mais de 10 anos, crescimento contínuo e sustentado, tornando nossa nação uma potência." / COLABOROU RICARDO LEOPOLDO

Alerta

BENJAMIN STEINBRUCH, PRESIDENTE DA FIESP

"A questão salarial será uma bomba de efeito retardado... podemos ter grandes problemas no curtíssimo prazo."

"O Brasil tem de ser competitivo em todos os fatores, até mesmo nos salários."

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