Reajuste de salários e risco de pressões inflacionárias

Embora esteja praticamente estável em torno de 7% desde fevereiro de 2010 (já descontada a sazonalidade) - depois de registrar queda acentuada entre meados do ano passado e o início deste ano -, a taxa de desemprego brasileira se encontra num nível dos mais baixos para os padrões históricos brasileiros e mesmo em uma ampla comparação internacional. Dados compilados pelo Banco Central apontam que, dentre 24 países, o Brasil registrava o menor desemprego - a média simples das taxas desses países era de 11,5% da PEA. Isso ajuda a entender a grande facilidade que os trabalhadores vêm relatando nas pesquisas para conseguir emprego e/ou reajustes salariais, bem como uma rotatividade elevada.

Análise: Bráulio Borges, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

Diante dessa constatação, é pertinente questionar se os reajustes salariais criam algum risco sobre a dinâmica da inflação, principalmente da chamada inflação de preços não-comercializáveis (isto é, aqueles que estão pouco suscetíveis à concorrência de produtos importados).Uma forma de dimensionar isso é a comparação dos ganhos reais salariais com a produtividade da economia (comparação essa que resulta na variável que os economistas convencionaram denominar de Custo Unitário do Trabalho). Se os reajustes reais dos salários estiverem acima dos ganhos de produtividade, isso constitui uma pressão de custo que pode ser repassada para os preços dos bens e serviços.

Infelizmente, com exceção do setor industrial (que responde por pouco menos de um terço do PIB), não há dados de pesquisas públicas que permitem o cálculo da produtividade da economia (incluindo os setores agropecuário e de serviços). Mas na LCA, para estimar o chamado PIB potencial, acabamos por construir também uma estimativa da Produtividade Total dos Fatores (PTF). Com efeito, comparamos a evolução trimestral dessa variável com a evolução do rendimento real efetivo do trabalho apurado pelo IBGE na Pesquisa Mensal de Emprego (PME).

Os números mostram (sempre na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior) que a produtividade (que é altamente pró-cíclica) cresceu 3,3% no 1º trimestre, superando os reajustes reais salariais médios no período (+2,3%). No segundo trimestre, as taxas foram praticamente iguais (+3,6% e +3,5%, pela ordem). Ou seja, pelo menos até o trimestre passado, não era possível caracterizar de maneira categórica (ao menos em nível agregado) os reajustes salariais como fonte significativa de pressão de custos (e, consequentemente, de pressões inflacionárias). Nesse quadro, a inflação de serviços do IPCA, embora bem acima do centro da meta (e não custa lembrar que isso sempre aconteceu, não só no Brasil, mas na maior parte dos outros países), está relativamente estabilizada já há alguns meses (em termos de variações acumuladas em 12 meses).

E no 2º semestre? Temos visto notícias de reajustes reais de quase dois dígitos, embora isso seja evidência anedótica, de alguns setores bem específicos (como estão os ganhos de produtividade nesses setores? é o questionamento que deve ser feito). É bem provável que a produtividade total da economia cresça algo como 3% tanto no terceiro como no quarto trimestre. Será importante monitorar os ganhos reais auferidos pela PME para verificar se o mercado de trabalho efetivamente vai se tornar fonte relevante de pressão inflacionária na economia nos próximos meses, o que poderia exigir uma retomada da elevação da taxa de juros básica pelo Banco Central.

É ECONOMISTA-CHEFE DA LCA CONSULTORES

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.