Reajustes menores alimentam a indexação informal

Processo de repasse dos reajustes ganha força quando um grande número de pequenos itens sobe de valor

O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2013 | 02h05

Apesar do peso reduzido nos índices, a inflação das pequenas coisas provoca um estrago grande na macroeconomia, na avaliação do economista Heron do Carmo, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP). Isso porque são exatamente os aumentos desses pequenos itens que alimentam a indexação informal dos preços na economia.

"A pessoa de carne e osso quando vê que o preço do estacionamento aumentou e da depilação também, ela percebe a inflação. Se for um profissional liberal ou um microempresário, por exemplo, acaba levando em conta esses aumentos das pequenas despesas do dia a dia na hora de reajustar o seu preço", diz o economista.

Já os itens que têm maior peso nas despesas das famílias e, por tabela, nos índices de inflação, como aluguel e gastos com escola dos filhos, sobem uma vez por ano e seguem regras claras de reajuste, lembra Heron.

Difusão. Fábio Pina, assessor econômico da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP), concorda com Heron em relação ao estrago que a inflação dos pequenos gastos com produtos e serviços provoca e vai além. "Se for só o cafezinho, o estrago não é grande. Mas quando há um conjunto de pequenas coisas com preços subindo, como cafezinho, manicure, azeite de oliva, e estacionamento, por exemplo, a coisa complica."

O economista explica que, quando a difusão é grande, isto é, quando os aumentos atingem um conjunto de pequenos itens, ela desencadeia um processo de realimentação da alta dos preços, ou seja, a indexação informal. "Quando há uma série de itens com pesos pequenos subindo, mas a soma deles não é pequena, isso valida um processo de indexação." O economista explica que a difusão elevada permeia a lógica da indexação. "A lógica da indexação é: está tudo subindo."

Pina conta que existem estudos, entre eles um que a Fecomércio está fazendo, para saber como debelar a indexação no Brasil. O economista lembra que a maneira truculenta, que é proibir a indexação de contratos, não é o melhor caminho. "A ingerência é desnecessária nos contratos."

Na opinião do assessor econômico da Fecomércio-SP, a melhor maneira de debelar a indexação é reduzir a inflação. "Na hora que a inflação for 2% ao ano e não estiver difusa na economia, as pessoas não vão ter essa preocupação de indexar", prevê. No entanto, diz Pina, quando as pessoas começam a notar que tudo a sua volta aumenta de preço, especialmente as pequenas coisas sobem entre 5% e 10%, os indivíduos começam a pensar que está no hora de o seu rendimento aumentar também, caso contrário terão complicações. "É a inflação das pequenas coisas, que o macroeconomista não olha, mas que o povo reclama."

Frequência. Uma forma de o consumidor se resguardar da disparada da inflação dos produtos e serviços que pesam pouco nos índices de custos de vida é diminuir a frequência de compra desses itens. Na franquia da rede de cabeleireiros Soho no bairro de Perdizes, por exemplo, caiu entre 5% e 12%, em média, o faturamento depois que o salão reajustou os preços em 8% a partir de 1.º de junho, conta o franqueado Ernesto Paulelli Neto. "A queda no movimento ocorreu por causa das férias, do frio e do aumento de preço", diz o microempresário. No caso dos serviços de depilação, ele registrou uma retração maior, de cerca de 15%.

Neto explica que a rede franqueada reajusta os preços uma vez por ano e que o aumento tem um critério estabelecido: segue os índices de inflação. O dono do salão conta que, no caso da depilação, o que mais pressionou o custo do serviço foi a elevação dos preços de vários produtos químicos usados no procedimento./ M.C.

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