Real ainda garante exportações competitivas, avalia BC

Apesar da chiadeira de diversos setores empresariais e do próprio governo sobre os perigos da desvalorização do dólar para as exportações brasileiras, os números do Banco Central mostram que o real ainda está num nível capaz de preservar a competitividade das exportações brasileiras, principalmente para os setores cujas vendas não são concentradas em dólares. Comparando o valor do real com as moedas de 16 países para os quais o Brasil exporta - Estados Unidos entre eles - os dados mostram que o real tem hoje um valor próximo à média dos últimos seis anos. Para formar a "cesta de moedas" com a qual é feita essa comparação, cada moeda estrangeira tem um valor ponderado conforme sua importância no comércio. Na cesta de moedas, o dólar norte-americano tem um peso de 25%. A comparação do real ante a cesta chama-se taxa de câmbio efetiva real. Essa taxa, na prática, seria a comparação do real com uma imaginária moeda unificada dos principais parceiros comerciais do Brasil. Nessa abordagem, a taxa de câmbio de março era de 2,52 - que é uma taxa razoável, considerando que a média, desde janeiro de 1999 até março passado, foi de 2,50. Em abril, pelas projeções parciais, essa taxa deve ter caído para algo como 2,45 - ainda assim, um câmbio melhor do que os 2,17 registrados em 2002, antes da crise de desconfiança pré-eleitoral que varreu o País naquele ano. Naquela época, o dólar bateu na casa dos R$ 4,00. De acordo com técnicos do Banco Central, esses números ajudam a explicar o motivo de a balança comercial continuar batendo recordes, apesar da queda na cotação do dólar. Eles explicam que o dólar está se desvalorizando não só na comparação com o real, mas também na comparação com outras moedas. Por isso, as exportações não foram prejudicadas na magnitude que alguns analistas esperavam. "Podemos ter algum impacto nas exportações para os Estados Unidos, mas com outros parceiros comerciais continuamos tendo ganhos substantivos", diz uma fonte do BC. Maior e menor - Quanto menor a taxa de câmbio, maior é o custo em moeda estrangeira do produto brasileiro, o que dificulta sua venda. No caso das exportações para os Estados Unidos, é isso que está acontecendo em alguns setores, como o calçadista, que compete com a China, onde a taxa de câmbio é fixa em relação ao dólar. Comparado apenas com o dólar, o real está cerca de 12% mais valorizado do que na média de 1999 a 2005, mas frente ao euro a moeda brasileira está desvalorizada em 10%. Isso explica como os efeitos do câmbio podem ser sentidos de maneira variada nos diferentes ramos de exportação. Apesar dessa diferenciação, os líderes empresariais argumentam que há uma perda generalizada de rentabilidade dos exportadores, provocada pela pressão do câmbio e pelos maiores custos dos insumos de produção, que crescem mais do que a média da inflação. "Mesmo que o real permaneça alinhado à cesta de moedas, a rentabilidade do exportador vem caindo por conta dessas pressões internas e de ineficiências sistêmicas", afirma o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deputado Armando Monteiro Neto. Segundo ele, o volume de exportações não foi afetado ainda porque não há possibilidade de redirecionar a produção para o mercado interno, e porque a receita das vendas externas ainda cobre os custos fixos e, às vezes, variáveis como salário e matéria-prima. No curto prazo, como é difícil reduzir as ineficiências e melhorar a competitividade, os exportadores continuarão suscetíveis aos fatores conjunturais, mas Monteiro Neto prevê que a balança comercial não venha a ser afetada até o início do ano que vem, pelo menos. A esperança é que, até lá, o cenário interno possa melhorar permitindo que a política monetária possa ser relaxada mais uma vez. No caso brasileiro, a tendência internacional de desvalorização do dólar tem sido agravada pela elevação da taxa de juros interna, bem acima da dos Estados Unidos, o que atrai capitais especulativos para o País, reforçando a valorização do real. "Precisamos sair dessa armadilha de câmbio-juros, mas isso tem de ser feito de forma cuidadosa", diz o líder do governo no Senado, Aloísio Mercadante (PT-SP). Uma das questões que começam a ser discutidas dentro do governo é quais outros instrumentos, além da taxa de juros, poderiam ser utilizados para conter a inflação. E essa discussão interessa aos exportadores não só por causa da influência dos juros sobre a apreciação do real, mas também porque existe uma inflação de custos que não é revertida com a política monetária tradicional. O menu de alternativas é amplo e inclui desde tentativas de negociação com as empresas de telefonia e energia elétrica, até uma proposta ampla de "pacto social", como chegou a ser sugerido pelo presidente da CUT, Luiz Marinho, ao presidente Lula. Uma das propostas de Mercadante é abrir mais determinados setores à importação, como já ocorreu com o aço, o que ajudaria a inibir os preços internos. Por outro lado, setores empresariais pressionam a Receita Federal a criar obstáculos tributários aos produtos chineses que concorrem deslealmente com os nacionais.

Agencia Estado,

02 Maio 2005 | 05h58

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