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Real foi o único que não gerou contestações judiciais, diz FHC

Segundo o ex-presidente, isso ocorreu porque o foco da equipe econômica era destruir a hiperinflação

Anne Warth e Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

24 de março de 2009 | 17h06

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse nesta terça-feira, 24, que o Plano Real foi o único programa de estabilização econômica da história recente do País que não gerou contestações judiciais no decorrer de sua implementação. Segundo ele, isso ocorreu porque o foco da equipe econômica na época era destruir, de uma vez por todas, a hiperinflação.

 

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"Quando assumi o Ministério da Fazenda, eu tinha três prioridades. A primeira era acabar com a inflação, a segunda era acabar com a inflação e a terceira era acabar com a inflação. Disse isso e depois não dormi à noite", lembrou ele, durante o seminário "15 Anos do Plano Real: Antecedentes, Resultados e Perspectivas", realizado na Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP), com o apoio da Agência Estado.

 

Na avaliação de FHC, o grande trunfo do Plano Real foi ter usado instrumentos monetários simples e eficientes para atender ao desejo popular, após mais de uma década de convivência com a alta do custo de vida. Ele se referiu especialmente à Unidade Real de Valor (URV), que era o indexador geral da economia concebido por um grupo de economistas, entre eles Pérsio Arida e Andre Lara Resende, com o objetivo de padronizar a evolução dos preços com base em um único indicador e assim, automaticamente, implodir a hiperinflação.

 

A criação da URV, em 28 de fevereiro de 1994, que possibilitou a criação do real em 1.º de julho do mesmo ano, se tornou um dos marcos da recente história econômica mundial. "Fui a São Paulo um dia para participar de um programa do Silvio Santos. Ele, no camarim, me fez muitas perguntas sobre a URV e eu expliquei a ele. Ele me perguntava várias vezes, e eu achei que seria um desastre. Quando entrei no programa de auditório, ele explicou tudo com clareza meridiana, tudo, tudinho, entendeu e traduziu. Isso foi muito importante", citou.

 

Também presente ao evento, o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan disse que o Plano Real teve erros e acertos, e creditou todos os pontos positivos do programa a FHC, assumindo, por outro lado, os equívocos do programa. Ele não fez menção específica a qualquer uma dessas falhas.

 

No seminário, o ex-presidente FHC destacou que em seis dos oito anos de sua gestão enfrentou crises graves. Mesmo assim, o ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Franco, também presente ao evento, avaliou que o governo foi bem-sucedido ao levar o IPCA para baixo, de próximo de 10% ao final de 2006 para perto de 5% em 2007.

 

Muitos economistas, entre eles o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, apontam que o governo FHC conduziu a política econômica de forma errada, especialmente entre 1995 e 1998, quando o regime de câmbio era semifixo e não permitia flexibilidade à gestão da política monetária. Nesse contexto, a inflação caiu basicamente porque os juros estavam em níveis muito elevados e reduziram de forma expressiva o nível de atividade, o que resultou no baixo crescimento do País.

 

No primeiro mandato de FHC, o Brasil registrou uma expansão média anual de 2,48%. De 1999 a 2002, na segunda gestão do tucano, o PIB apresentou crescimento médio anual ainda menor, de 2,12%. Já na administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os juros ficaram altos, mas assumiram níveis inferiores aos apurados pela administração de seu antecessor. Daí foi possível o País apresentar um nível mais elevado de crescimento - de 2003 a 2008, o Brasil registrou um incremento médio de 4,1% ao ano.

 

Uma das críticas mais vigorosas sobre o governo FHC em seu primeiro mandato foi ter mantido o câmbio sobrevalorizado por muito tempo, deixando de lado oportunidades para normalizar a cotação do real em relação ao dólar. Em abril e julho de 1997, o ex-secretário de Política Econômica José Roberto Mendonça de Barros, por exemplo, produziu papers reservados e enviados a Malan nos quais destacava que o regime cambial precisava ser alterado rapidamente, pois as contas externas do País estavam se deteriorando de forma expressiva, dado que o déficit de transações correntes estava próximo de 4,5% do PIB, o que, para ele, era "insustentável".

 

Questionado pela Agência Estado sobre por que o regime cambial não foi modificado naquele momento, a despeito do alerta de membros de sua própria equipe, Malan respondeu que se tratavam de conversas reservadas, mantidas entre ele, Mendonça de Barros, o então secretário executivo da Fazenda, Amaury Bier, e Gustavo Franco, na época presidente do BC. O ex-ministro destacou que esse assunto era tratado de forma muito reservada em sua equipe - apenas quatro pessoas participaram dessa discussão.

 

Segundo ele, como a crise da Ásia na prática começou no início de julho de 1997, ele tinha pessoalmente o temor de que, se o Brasil mudasse o regime cambial naquele momento, poderia entrar numa crise de balanço de pagamentos, a exemplo do que ocorreu com países asiáticos na época, que registraram retração expressiva de suas economias.

 

Durante o seminário, Malan, Franco e FHC ressaltaram que o Plano Real foi inspirado nos programas econômicos anteriores, especialmente o Plano Cruzado. Eles destacaram a importância de não rejeitar modelos do passado e de aprender com eles, numa crítica ao atual governo do presidente Lula. Durante o evento, o ex-presidente, Malan e Franco enfatizaram por diversas vezes que, apesar da crise financeira internacional, esperavam do atual governo um reconhecimento de que boa parte das condições favoráveis da economia nacional surgiu em 1994, quando o Plano Real foi adotado e o ministro da Fazenda era FHC.

 

Também participaram do evento o ex-ministro do Planejamento João Sayad e o ex-secretário executivo do ministério Andrea Calabi, que integraram o governo do ex-presidente José Sarney, responsável pela adoção do Plano Cruzado. Sayad disse que não havia diferenças entre os planos Real e Cruzado, pois os mentores de ambos os programas de estabilização da economia e suas principais ideias eram os mesmos. Nessa equipe, destacavam-se Pérsio Arida, Andre Lara Resende, Francisco Lopes e Edmar Bacha.

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